Opinião: Traços comuns…

Por entre memórias de tempos, visitamos o passado. Por entre fotografias antigas e conversas, percebemos que existem tantos temas que se perderam mas ainda alguns que se tocam com o presente, como fios que se estendem numa transição de épocas, perdurando. É aí que se pretende chegar. Há uma base que se mantém, alterando-se algo aqui e acolá, mas permanecendo a raíz, como que determinante e estrutural da sociedade, neste caso, portuguesa. São então Traços comuns…

As presentes fotografias são demonstrativas disso mesmo e transportam-nos tanto para o passado como para o dia de hoje. São um tributo a quem nelas figura ou poderia figurar, aos familiares e amigos que as cederam, ao Ribatejo e a Portugal.

Seis fotos a preto e branco e sépia, em papel de impressão grosso, recortadas, assinadas, em vários tamanhos e formatos, amachucadas e até rasgadas. Andaram de caixa em caixa, em molduras antigas e até de mão em mão com o passar das gerações, que as guardaram como tesouros preciosos. São seis de imensas histórias, de emoções, desejos e vivências que se sentiram e que se continuam a sentir, momentos na história que ficaram a ser as próprias histórias desse alguém.

Iniciamos este mês um novo ano escolar e portanto também tomamos esse rumo com a (foto 1): o primeiro dia de escola de um menino. Foi em 1967. Tinha cinco anos. Podia ser hoje. Tantas esperanças, dúvidas, anseios, uma vida pela frente. Um sorriso traquinas, roupa nova, mochila nova com pouco mas que chegava, saberes e experiências por vir. A vida de uma criança e da sua família altera-se com o ir para a escola, que é determinante. Nunca nos esquecemos do nosso primeiro dia de escola e esta cara demonstra-o bem.

1º dia de escola. 1967. Fotografia cedida por António Rodrigues. “Fotolucas”

Muito mais se continua a realizar de forma similar ao passado, sejam os casamentos e batismos de vestes brancas, as comemorações de aniversários e tanto mais. Na (foto 2) o dia do casamento, mais esperança, mais tradição, celebrando também um início, o de construção de uma vida em comum. Datata de 1952, mas intemporal.

Dia do casamento. 1952. Fotografia cedida por familiares de Lucinda de Jesus

Na (foto 3) a alegria da juventude feminina, uma bebida e conversa numa esplanada no final de tarde. Data de 1974. Cinco amigas sorriem descontraídas, lindíssimas. O captar da plenitude da amizade.

Raparigas na esplanada. 1974. Fotografia cedida por Natália Costa

Também de 1974 a (foto 4) poderia ter sido tirada neste preciso verão. Pousando para a foto na praia, sentada na areia. Orgulhosamente se mostra a forte expressão feminina, sem receios, mas sim atitude. Quando uma mulher pousa na praia é estrela de cinema, é única, só existe ela, a máquina e o horizonte, tudo o resto ficando para outro plano.

Rapariga pousando para a foto na praia. 1974. Fotografia cedida por Maria José Costa

Fez-se uma excursão de autocarro da qual resultou esta fotografia (foto 5). Continuam a existir e a fazer a diferença na vida de quem opta por elas. As excursões sempre fizeram e fazem as delícias de centenas de pessoas e para muitas delas são consideradas os momentos mais descontraídos e animados das suas vidas, sobretudo as crianças e os idosos. O convívio, a companhia, o preparar-se para o dia, todo o processo.

Excursão. Fotografia cedida por Maria João Rodrigues. “Fotogomes”

Homens do mesmo ramo de negócios. 1973. É a (foto 6). Se o trajar executivo podia ser de agora? Sim, até os óculos voltaram a ser moda. E sim, todas as fotos representam um passado que é actual.

Homens de negócios. 1973. Fotografia cedida por Ricardo Costa

Aquando da recolha destas e de centenas de outras fotos e documentos numa investigação patrimonial do qual estas fotos são uma ínfima parte, sente-se o impacto na vida de quem mostra e empresta, porque são as memórias, relembrar e ao relembrar vive-se novamente cada momento.

Afloram as lágrimas de felicidade e de tristeza, ouve-se o respirar fundo, apreendendo cada significado. A conversa multiplica-se e quando em grupo chega mais alguém, acrescentando pormenores, relembrando, sorrindo e rindo abertamente, as pessoas sentem-se mais vivas. Levam-se mãos ao rosto, olhos mais brilhantes. É como se estivéssemos lá, há tantos anos quantos os de cada foto e com estas pessoas vivemos também nós esse antes misturado com este agora e constituímos novos momentos, estes também a memorizar e recordar.

Ao dar atenção a cada pessoa, a cada foto e acontecimento estamos ainda a ir mais longe do que a mera investigação, mas a intervir e modificar, criando-lhe novas páginas do livro da sua vida. Sabe-se porque se sente e ouve o impacto positivo, o retirar do dia a dia de cada pessoa a monotonia muitas vezes advinda com o avançar da idade e rejuvenescendo-a.

Muito se diz e com pesar que o antigo desapareceu para sempre. Parte real, mas não toda. Por isso nesta edição a prova do contrário e o trazer apenas momentos felizes, porque de tristezas não vamos fazer rezar esta história.

Fica para outro dia, talvez. Agora, fica o lado bom, porque necessitamos de ânimo, alegria e sobretudo positividade para seguirmos o caminho. P

aramos para tomar um fôlego intenso nos aconchegantes tons amarelecidos das fotos, embebendo-nos da força de outrora e da que existe atualmente mas que na correria contemporânea ignoramos.

Falta aqui muito mais, como por exemplo a família que se reúne numa foto para guardar a recordação para sempre, o aprender a andar de biciceta com rodinhas e depois a transição sem elas, o jornal debaixo do braço e até a menina do laço com que as mães continuam diariamente a enfeitar carinhosamente as filhas.

Sabemos que existem alterações, mas no cerne de cada uma destas fotografias está contido um universo cíclico geracional que não nos deixa indiferentes, deixa-nos nostálgicos e pensativos sobre o rumo da vida e sobre muito, muito mais.

Susana Veiga Branco

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