Constatamos cada vez com mais frequência que os horários das corridas de toiros são alterados em cima da hora devido ao calor que se faz sentir. Como se não fossem previsíveis nesta época do ano tão elevadas temperaturas no nosso país e, em particular em algumas localidades alentejanas.

Longe vai o tempo em que as corridas de toiros começavam impreterivelmente “às cinco en punto de la tarde”, tradição que, como qualquer outra tradição, se foi alterando, posto que as circunstâncias sociais, culturais e económicas também evoluíram.

O espectador que vai nos dias de hoje a uma corrida de toiros não é o mesmo que ia há um século atrás, ou mesmo há setenta ou oitenta anos. Então, as “touradas” constituíam um dos maiores aliciantes das festas ou feiras em que se integravam, e os espectadores eram as pessoas que moravam na localidade onde tinha lugar o festejo, ou nas suas redondezas, pois não havia facilidade de deslocação.

Acontece que as praças de toiros mais antigas não dispunham de iluminação eléctrica e nessas corridas lidavam-se doze toiros ou mais, o que fazia com que uma “tourada” pudesse demorar quatro ou cinco horas, o que para aquela gente não trazia nenhum mal ao mundo, pois aquele dia era inteiramente dedicado à Festa. Teremos, também de ter em linha de conta que a maioria dos espectadores daquelas corridas, especialmente os que assistiam dos sectores do Sol, era gente habituada a trabalhar nos campos de sol a sol, pelo que tinham maior resistência às altas temperaturas habituais no Verão.

Os espectadores das corridas de toiros na actualidade já não são trabalhadores rurais e mesmo os que ainda desenvolvem essa actividade profissional já não se sujeitam a condições climatéricas tão adversas.

Não é normal que um espectador de uma corrida de toiros nos nossos dias dedique um dia inteiro para ir assistir a uma corrida, mas, ao invés, muitos há que saem de casa a largos quilómetros de distância, chegam à praça de toiros pouco tempo antes do horário anunciado e regressam imediatamente após o termo do espectáculo.

Este espectador dispõe de condições económicas razoáveis – porque os bilhetes não são baratos e há que ter em conta as despesas da deslocação – e desfruta de outras condições sociais, pelo que exige um certo conforto, não se sujeitando, ou aceitando cada vez menos, as más condições que oferecem muitas das nossas praças de toiros.

O tempo do “Sol e moscas” já é passado, pelo que menos se compreende a insistência de tantas empresas em anunciar espectáculos taurinos para horas de insuportável calor, acrescendo que em grande parte das praças de toiros mesmo nos sectores ditos de Sombra, cujos bilhetes são mais caros do que os restantes, os espectadores pagam um bilhete de Sombra e estão ao Sol meia corrida ou mais.

Senhores Empresários – se querem dignificar o espectáculo taurino e conquistar, ou mesmo manter, mais público têm de ter em consideração este e outros aspectos que tenham que ver com o conforto dos espectadores, que, por acaso, até são quem viabiliza o espectáculo, e o negócio, com a compra dos respectivos bilhetes.

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