César Garcia, natural de Santarém, estudou Ecologia de Ecossistemas Florestais Autóctones em Portugal. A sua tese de doutoramento teve o objectivo de analisar a biodiversidade de plantas epífiticas (que crescem no tronco e ramos das árvores) nas diferentes espécies de Quercus de Norte a Sul em Portugal continental.

O seu dia-a-dia profissional é dividido entre o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, o Jardim Botânico Tropical (em Belém) e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. No Museu coordena o Jardim Botânico de Lisboa e é curador de uma colecção de plantas no Herbário LISU (acrónimo internacional). Em Belém coordena o Jardim Botânico Tropical e na Faculdade de Ciências é investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) & CHANGE – Global Change and Sustainability Institute. Dá, ainda, aulas de Biologia Vegetal.

Nesta entrevista ao ‘Correio do Ribatejo’ o biólogo inumera as espécies e os territórios a preservar na nossa região, os efeitos das alterações climáticas e os incêndios em Portugal, entre eles o da Serra da Estrela, que classifica de “triste acontecimento que não irá morrer com o tempo” e que “envergonha-nos a todos”.

É incontornável não abordarmos a situação dos incêndios em Portugal e no resto da Europa e as suas consequências. O ministro da Administração Interna classificou de “tragédia” ambiental os incêndios na Serra da Estrela e garantiu que “o país está a empregar todo o conhecimento que tem na gestão de circunstâncias muito difíceis”. Estamos mesmo?

Fui convidado em Janeiro passado a participar numa consulta dirigida para o Plano de Gestão da ZEC (Zonas Especiais de Conservação) da Serra da Estrela e aí referi exatamente o que vou seguidamente resumir.

O ministro da Administração Interna na minha opinião tem razão, é uma tragédia ambiental enorme, a Serra da Estrela devido à sua geomorfologia, altitude e outras variáveis ambientais é um território único no país. Estudo a Serra há muito anos e há sempre surpresas, agradáveis surpresas em termos botânicos. Para as plantas com que trabalho é a região em Portugal mais importante, com 110, taxa com elevado estatuto de conservação seguindo-se o Parque Nacional da Peneda Gerês, com 84. Na Serra da Estrela há cerca de 400 espécies de briófitos em que 37 só existem ali e há também uma espécie endémica da própria Serra, no Poço do Inferno, nas fendas das rochas corneanas no interior da cascata.

Felizmente a zona ainda não foi afectada pelos incêndios de 2022, o fogo atingiu as proximidades. Para outros grupos taxonómicos de plantas e animais a situação é semelhante, muitas espécies no interior do Parque, algumas bastante raras ou populações únicas no país. Participei nas comemorações dos 25 anos do Parque (foi criado em 1976) e já nessa altura pensava na razão da região não ser Parque Nacional tal como o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Riqueza enorme em biodiversidade e geodiversidade, sendo actualmente Geopark Mundial da UNESCO.

Mas voltando à aplicação do conhecimento na gestão destes terríveis incêndios, penso que se pode fazer mais e referi isso na consulta dirigida que falei anteriormente. Estamos no século XXI, há sistemas de informação geográfica há dezenas de anos, bases de dados, internet 5G. O que adianta

elaborar um Plano de Gestão em papel com muita informação se na prática, numa crise não é aplicado com rigor a defender populações de plantas e animais? Eu gostaria que os bombeiros ou um piloto de um Canadair tivessem um sistema de quadriculas classificadas e soubessem que era mais importante defender o ponto A do que o B. Uma tragédia ambiental traz atrás de si problemas enormes para a economia da região.

Mais de 660 mil hectares de floresta arderam na UE desde Janeiro, tratando-se de um novo recorde. A continuação do aquecimento global em toda a Europa só deverá acentuar esta tendência. O que fazer para contrariá-la?

Uma pessoa que muito admiro pela sua preparação e inteligência, o Engenheiro António Guterres, secretário-geral da ONU, tem alertado para esse facto. A capa da revista “Time” onde aparece de fato e gravata com água pelos joelhos é uma imagem com uma força simbólica enorme, e infelizmente não é exagerada.

Já assistimos a políticos a politizarem o problema das alterações climáticas, e a negar o assunto. Há vários anos que sabemos que estes problemas iriam surgir e agravar-se. Do grupo de plantas com que trabalho, temos conhecimento das que se vão provavelmente extinguir, as que vão aumentar a cobertura e frequência no país e as que não vão apresentar alterações significativas. Como sabemos isto? Utilizando o nosso herbário e associando-o a matemática e geoestatística.

Imaginemos uma espécie e as coordenadas nacionais conhecidas da sua ocorrência. Com base nessas coordenadas conseguimos caracterizar ecologicamente as variáveis ambientais mais propícias para uma espécie ocorrer, por exemplo: a altitude, precipitação, humidade, temperatura, etc. Esta caracterização é realizada em sistemas de informação geográfica (SIGs) onde podemos retirar nesses SIGs, a informação necessária.

Podemos assim coincidir a informação da distribuição das espécies com a informação climática presente e futura, pois há várias equipas de especialistas a trabalhar em clima do futuro em diferentes cenários (exemplo: https://www.worldclim.org/). Através de modelação ecológica podemos assim encontrar locais propícios para encontrar novas populações, por exemplo realizamos um estudo de impacto ambiental no rio Tua devido à barragem e conseguimos chegar a populações de plantas que iriam ser submersas sem ter de analisar em campo toda a área do vale do Tua, pois o tempo era limitado, tínhamos uma carta militar com quadrículas vermelhas, laranjas e amarelas (graus de probabilidade em cada local). Mas o mais

importante é sabermos se para uma determinada espécie se as variáveis ambientais mais fortes para a sua ocorrência vão existir daqui a 20, 50, 100 ou mais anos, e sabemos já que para algumas espécies não vai existir condições se os cenários climáticos dos modelos estiverem correctos.

Mas voltando à enorme área ardida de Floresta (verdadeira), Matas de Produção, campos agrícolas, matos, etc., esta situação deve-se às elevadas temperaturas com ondas de calor e seca extrema. É uma situação excepcional que se poderá repetir. Contrariar as alterações climáticas, como diz o secretário- Geral da ONU, é “absolutamente essencial para o planeta reverter a situação actual “reforçando os esforços para uma redução significativa das emissões de gases com efeito de estufa. Basta saber como são construídos os cenários de clima futuro que falei anteriormente. São “lençóis” de informação geo-referenciados (que se podem colocar sobre um mapa) divididos em quadriculas de 1x1Km (ou superior), em que cada quadrícula apresenta informação de diversas variáveis ambientais (clima) e que podem ser relacionadas com a distribuição presente (conhecida) e futura de espécies de plantas e animais.

Tudo se conjuga para que se forme um novo painel de peritos e académicos para ajudar à reflexão sobre os incêndios deste ano no nosso país. Acredita no trabalho dessas comissões?

Tudo o que está a acontecer como referi era previsível, o termo Piroverões não é novo e é usado há muitos anos, por exemplo, pelo experiente Botânico Jorge Paiva para caracterizar o problema dos verões com fogos que podem incinerar pessoas em estradas nacionais.

É importante existirem comissões de especialistas, mas tal como referi para os Planos de Gestão das ZEC (Zonas Especiais de Conservação) temos de ser práticos, especialmente quem tem a responsabilidade de decidir. Um especialista em Engenharia Florestal iria para uma comissão dessas referir que tem de existir gestão na floresta (a base da profissão), fogos controlados, etc., um especialista em biodiversidade iria referir que as florestas nativas sempre se geriram sozinhas e é impossível limpar toda a floresta nacional todos os anos (devido ao tempo necessário e elevado orçamento) além de ser prejudicial para muitas espécies de plantas, animais, fungos e bactérias.

Um especialista em ordenamento iria referir o óbvio, a falta de ordenamento por várias razões históricas, outros especialistas iriam referir mais situações já bastante debatidas.

Há um problema de base, mesmo que não existissem alterações climáticas fazer render da melhor maneira e de uma forma sustentável cada metro quadrado de terra, e esse problema tem de ser resolvido por economistas, geógrafos, empresários, políticos, e outras pessoas com conhecimento profundo sobre o tema, incluindo os políticos mais importantes que existem, os presidentes de junta que estão mais próximos das populações e têm um conhecimento família a família. Em Portugal há assimetrias de população de Oeste para Este, até na incompreensível (mas legal) representatividade dos deputados na Assembleia da República e depois uma baixíssima Taxa de Natalidade. Encontrar uma forma de tirar elevado rendimento da terra de outro modo sem ser plantar espécies de crescimento rápido e aumentar a população nessas regiões desertas parece-me ser a chave do problema.

Por que é que o país arde, de ano para ano, de comissão para comissão?

Na minha opinião, não estudando ao pormenor (estatisticamente) os incêndios, mas conhecendo relativamente bem a Floresta portuguesa de Norte a Sul o país parece arder por vários motivos. Alterações climáticas provocadas pelo excesso de emissões por acção antropogénica provocam ondas de calor, temperaturas quase nos 50 graus, ausência de precipitação e humidade, nada de novo e há anos que estava previsto. Desordenamento do território, nada de novo também e amplamente estudado. A história da ocupação do solo em Portugal é longa desde as glaciações e posteriormente está intimamente ligada à economia das diferentes gerações de portugueses. Passamos por vários tipos de Floresta, incluindo a actual, a floresta nativa de diferentes espécies de carvalhos além de outras espécies de outros géneros, posteriormente abates em massa para campos agrícolas e pastagens, e posteriormente para plantações em massa de Matas de Produção de pinheiros seguindo-se depois os eucaliptos. Estas duas últimas espécies (uma resinosa e outra com compostos também inflamáveis) potenciaram o problema apesar de existir quem refira que um eucalipto arde da mesma forma que um sobreiro (adaptado ao fogo com a sua cortiça) e o

que é significativo para um incêndio são os matos. Assim, por questões de economia familiar, de tirar o legitimo rendimento da terra é possível viver em Lisboa e possuir um terreno no interior com uma plantação de eucaliptos e não a visitar durante anos, ficando a crescer, por vezes a 20 metros ou menos de habitações, ou num pequeno terreno familiar já dividido entre irmãos/ primos. Ou ainda, plantações contiguas a estradas e caminhos, como ainda hoje se pode observar em muitos concelhos.

Excesso de ignições, é uma outra razão muitas delas com origem criminosa, outras de origem acidental e natural (raios, vidros, etc.)

Como vamos resolver o problema?

Se fosse fácil já teria sido resolvido pelos diferentes governos de Portugal e de outros países.

É fundamental reduzir as emissões de gases para atmosfera, hoje os incêndios têm um comportamento muito mais violento como é percepção generalizada. Os de 2022 já parecem um pouco desajustados ao planeamento inicial de combate. É também impossível em tão pouco tempo realizar um milagre e ordenar o país. E mesmo que estivesse ordenado o problema parece já se encontrar num nível acima devido à extrema secura e ondas de calor.

Temos então um clima que potencia incêndios muito mais agressivos, pânico permanente nas populações afectadas que temem pela vida e pelos seus bens e destruição de habitats naturais. Espera-se assim que nos próximos tempos se continue a apostar fortemente na prevenção e no combate inicial, mas com mais meios, incluindo como já foi noticiado uma unidade militar (porque estamos em Guerra Climática) na Força Aérea equipada com aviões da família Canadair CL-415 e helicópteros de combate a incêndios. Um esquadrão público de combate aéreo constituído por pessoas com coração militar, altamente treinadas, não só em pilotagem (mas com informação sobre o terreno, locais importantes, além de habitações), com várias aeronaves e helicópteros com grau de prontidão de poucos minutos, capazes de actuar na primeira hora de qualquer incêndio em todo o território nacional (incluindo as ilhas), e a equipa ter a capacidade de os classificar em minutos caso exista uma situação bem pior do que estamos hoje a viver. Não parece haver outro caminho num futuro próximo.

O presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil afirmou em Belmonte (dia 16) que a Serra da Estrela iria ter vigilância reforçada. É um pouco a expressão popular ‘casa arrombada, trancas à porta’? Funcionamos muito assim em Portugal?

Actualmente ninguém compreende o que aconteceu no Parque Natural da Serra da Estrela para que o fogo não tivesse sido controlado numa zona aparentemente de fácil acesso. E a razão dos meios aéreos terem demorado horas segundo as palavras de populares e Presidentes de Câmara.

Mas o Planalto Central e muitas outras zonas de extrema importância não arderam e penso ser sensato aumentar a vigilância, colocar trancas na porta como refere. O ideal seria uma vigilância permanente em todas as aéreas protegidas e outros locais sensíveis do país.

O Parque Natural da Serra da Estrela comporta espécies de fauna e de flora raras e únicas. A perda ambiental, social e económica provocada por estes incêndios é incalculável. Terá falhado uma real gestão florestal e do território?

Sim, é um local único devido a variáveis ambientais únicas em Portugal. A Serra não é apenas floresta tem outros habitats de importância nacional e comunitária, que por sua vez comportam espécies também com uma importância enorme, algumasúnicas como já referi e outras emrisco elevado de extinção devido ao aquecimentoglobal e também a outros factores.Globalmente, são as espécies de plantas dotopo das montanhas que mais sofrem comos problemas do aumento da temperatura,pois as outras plantas em andares altitudinaisinferiores têm tendência em ocuparzonas mais elevadas causando competiçãoe posteriormente extinções das que se encontravamnos topos.

A ocupação do solo na Serra da Estrela é diversa e a área ardida também foi diversa e de uma forma assustadoramente rápida.

O que falhou poderá ter sido a falta de uma ordem imediata de ataque por meios aéreos ao fogo, ou por qualquer outra razão operacional não estarem disponíveis, ou focados em provas desportivas como já foi referido, mas é um assunto que deve ser apurado. Este triste acontecimento não irá morrer com o tempo, pois o que aconteceu envergonha-nos a todos e as populações dos concelhos de Manteigas, Covilhã, Guarda, entre outros, estão bastante magoadas como é compreensível.

Responsáveis da Quercus admitem que o Parque Natural da Serra da Estrela vai demorar décadas a recompor-se, podendo haver locais do parque irremediavelmente perdidos, nomeadamente, os refúgios de vida selvagem e formações vegetais endémicas de importância nacional. Concorda? Há noção do que realmente se perdeu?

Concordo que algumas áreas poderão levar décadas a recompor-se e que podem existir locais perdidos no que diz respeito à sobrevivência de diferentes espécies de diferentes grupos taxonómicos. No entanto, no Lagoacho (Serra da Estrela) em 2003 (antes de um incêndio) verifiquei o impacto de um fogo num pequeno bosque de carvalhos (Moita do Conqueiro) da espécie Quercus pyrenaica (o de maior altitude do país, a 1500 m) nas comunidades de plantas e surpreendeu-me pela positiva o que aconteceu nos anos seguintes após o fogo, a forte regeneração por reprodução assexuada (pequenos pedaços de folhas ou gemas que dão origem a uma nova planta).

Um fogo pode transformar-se muito consoante diversas variáveis, vento, geomorfologia, exposição do terreno, vegetação, etc., e por sua vez determina a intensidade, temperatura e velocidade desse mesmo fogo. Esta variabilidade do terreno e do fogo traz-nos esperança, no caso das plantas vasculares temos o banco de sementes do solo que dependendo das espécies podem aguentar as temperaturas elevadas provocadas por um incêndio, no caso de outras plantas há propágulos, pedaços chamuscados que vão regenerar potenciados pelo clima húmido noutras estações. Depois há a geomorfologia, especialmente as penhas que são um refúgio para plantas e animais. Mas seguramente a mortalidade foi enorme, mas dificilmente foi total. Na Moita do Conqueiro verifiquei que muitos carvalhos e vegetação circundante ficaram protegidos junto a estas penhas e blocos erráticos de um glaciar antigo.

Mas não existe uma noção total do que se perdeu, porque o território está mal estudado. No grupo de plantas com que trabalho no nosso Herbário temos toda a informação georreferenciada, sabemos onde foram colhidas as plantas ao longo de diferentes gerações de botânicos, onde estão as taxas com maior estatuto de conservação (critérios da UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza) e onde não existe qualquer informação. Já cruze em SIG [Sistema de Informação Geográfica] essa informação com a área do fogo

de 2022 e há muitos locais sem qualquer registo/colheita. Provavelmente a mesma situação para outros grupos taxonómicos de plantas e animais. Nunca notei uma preocupação em potenciar o conhecimento em zonas mal estudadas com os especialistas existentes no país, mesmo no interior das áreas protegidas.

As recolhas existentes foram resultado de colheitas antigas, antigos estágios do ICN, dissertações de mestrado ou teses de doutoramento (com financiamento tirado “a ferros”), alguns projectos FCT (com financiamento também tirado “a ferros”), em que se cumpria o objectivo do projecto e aproveitava-se para outras recolhas e levantamentos esporádicos em viagens particulares.

Há o perigo dos espaços tomados pelo fogo o sejam agora por espécies invasoras, danificando a manutenção dos solos. O que fazer?

Sim, há muitas espécies potenciais, mas não é provável. Lembro-me em 1998 quando comecei a estudar a Serra da Estrela, tínhamos um projecto para estudar a acção do fogo na zona da Lagoa do Viriato (Penhas da Saúde) e não observamos a instalação de invasoras, mas foi há muitos anos e o banco de sementes do solo pode estar distinto. Recentemente também visitei a Serra numa zona que ardeu contigua à Tapada António Alçada Baptista (Penhas da Saúde) um local em que fiz recolhas intensivas devido à possibilidade de instalar uma Barragem e verifiquei que aparentemente a zona não está alterada com invasoras apesar do incêndio.

No entanto, há um pormenor importante, duas espécies de briófitos chave para o início da sucessão ecológica após um fogo e para o combate a erosão, pois agregam o solo. E uma dessas espécies muito conhecida dos alunos de biologia dos antigos programas, a Funaria hygrometrica, esta espécie tem uma característica muito especial, quando a temperatura do solo aumenta com um incêndio, os esporos germinam e criam “micro florestas” (por vezes com largos centímetros de altura) com áreas consideráveis. Estas zonas além de agregarem o solo como foi referido e impedirem a erosão vão criar condições para a fixação de sementes das plantas vasculares e para um ambiente húmido capaz de potenciar a germinação e a regeneração do local. Exactamente como o que acontece na clássica experiência do feijão e do algodão, em que o algodão na Estrela e noutros locais são estas “micro florestas” da natureza.

Um exemplo digno de nota é o Bosque das Faias, em Manteigas, que tem vindo a resistir ao fogo. Estarão aquelas folhosas a darem-nos uma lição de planeamento e de reflorestação?

Como já referi, infelizmente os incêndiosactualmente parecem tão agressivos e rápidos e por isso extremamente perigosos para as populações e para quem o combate no terreno. Provavelmente este incêndio tão violento não acabou com o lindíssimo Bosque de Faias, uma espécie exótica folhosa devido a variáveis relacionadas com o vento, geomorfologia, exposição do terreno e pela acção dos corajosos seis sapadores florestais que combateram uma frente de fogo que ameaçava o bosque, tendo sido inclusive elogiados pelo Presidente da Câmara de Manteigas pela sua acção na encosta de São Lourenço. Felizmente foi possível preservar 95% da área de faias e os 5 % que arderam foi em bordaduras já junto a outras espécies como pinheiros e pseudotsugas. No entanto, a agressividade destes fogos devido a condições extremas de secura ambiental é perigosa para qualquer ocupação do solo. No entanto, é importante continuar a focar-nos numa ocupação do solo diversificada, sem o excesso da monotonia das monoculturas (Matas de Produção de pinheiros e eucaliptos) que por razões legítimas relacionadas com o tirar o maior rendimento possível da terra, tem ocupado o país de uma forma perigosa, ainda mais com a influência das alterações climáticas.

Depois de Monchique, Pedrogão e do Pinhal de Leiria, a serra da Estrela é a confirmação de que aprendemos pouco com os incêndios em Portugal?

Os exemplos são muitos mais, visitei Monchique, Pedrógão e o Pinhal de Leiria após terem ocorrido os incêndios, Monchique poucos dias depois, pois estava nessa semana na região. Felizmente devido à variabilidade no terreno em Monchique muitas zonas não arderam, a Serra não ficou totalmente destruída, especialmente nas zonas mais elevadas. Situação diferente ocorreu em Pedrogão e no Pinhal de Leiria, onde estava tudo negro e seguramente as temperaturas do fogo foram enormes tendo inclusive em Pedrogão incinerado várias pessoas numa estrada de má memória, a nacional nº 236, onde morreram em poucos metros quase 50 cidadãos incinerados, uns no interior dos automóveis outros em fuga fora das viaturas.

Penso muitas vezes nisso, aprendemos pouco e como é possível ainda existirem estradas nacionais em Portugal com aquelas características (encontro várias), e até autoestradas, por exemplo numa zona da A15 há um local com as copas das árvores a poucos metros da via.

Segundo o IPMA o mês de Julho foi o mais quente dos últimos 92 anos em Portugal. Mas a situação em toda a Europa também é alarmante. Há quase dois meses que não chove significativamente na Europa Ocidental, Central e do Sul e espera- se que o período de seca continue, naquilo que os especialistas dizem poder ser a pior seca em 500 anos. Isso implica prejudicar as economias agrícolas, impor restrições à água, incêndios florestais e ameaças às espécies aquáticas. Há consciência plena do que estamos a perder e do que poderemos ainda vir a perder a nível global?

Obviamente que não, inclusive de políticos menos preparados/qualificados em todo o mundo. Temos mesmo de reduzir as emissões para que os cenários produzidos por climatólogos que citei anteriormente sejam apenas cenários e não uma realidade ainda mais severa do que estamos já a assistir.

Penso que vai acabar por acontecer um maior controlo das emissões a nível mundial e os países com maior resistência a poderem sofrer fortes sanções económicas.

Não parece existir outro caminho.

Na nossa região temos também territórios a preservar pela sua biodiversidade e riqueza. Qual é o ponto da situação nesses locais?

Já encontrei espécies de plantas muito importantes pela sua raridade nacional e/ ou internacional na região em vários locais.

No alto do Vale de Santarém o limite Oeste europeu de uma espécie, na região da Caneiras um local importantíssimo para um narciso raro em Portugal conhecendo- se poucas populações no país e nessa área também uma hepática (briófito) muito interessante que publicamos recentemente.

Na Foz do Alviela uma outra espécie raríssima e em Perigo Crítico-(CR) de extinção em Portugal. O Casal Monteiro entre Alcanhões e Vale Figueira é outra zona importante com espécies raras na Região. Um bosque de Quercus faginea (Carvalho português) em Alcanhões com Lobaria pulmonaria um líquene muito interessante indicador de qualidade ambiental.

A região de Almoster é outra zona importantíssima com vegetação em bom estado de conservação. Os lindíssimos bosques de Casével são também muito importantes, local onde foi encontrada a maior população conhecida do país de Codonoblepharon forsteri (Dicks. ex With.) Goffinet, uma espécie em perigo (EN) não só em Portugal, mas em todo o território europeu (https://www.iucnredlist.org/species/87540862/87728405). Estes bosques são especiais porque foram mantidos propositadamente ao longo de gerações entre terrenos agrícolas e a cotas mais elevadas.

Os nutrientes do interior do bosque com as chuvas escorrem para os terrenos agrícolas fertilizando-os naturalmente. São hoje refúgios de fauna e flora além de continuarem a fertilizar os solos.

O ponto de situação é bom em todos os locais com excepção da população dos narcisos num terreno das Caneiras que pode ser destruída com praticas agrícolas, deposição ilegal de entulhos e acampamentos.

Folhas a cair das árvores no Verão. Vindimas precoces devido ao calor e à falta de água. Estamos preparados para tanta mudança? É o preço a pagar por comportamentos displicentes ao longo de décadas?

Sim, muitas espécies de árvores estão em stress hídrico fazendo cair as folhas mais cedo e os produtores de vinho têm de se adaptar. É o preço das emissões. Penso que as novas gerações vão estar mais preparadas pois temos muito bons professores desde o primeiro ciclo.

O movimento “Salve o Solo”, apoiado pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) e pelo Programa Alimentar Mundial, recomenda que os governos em todo o mundo criem legislação que imponha um mínimo de 3–6% de conteúdo orgânico em todos os solos agrícolas. Há quem admita que o nosso país possui uma vasta extensão de solos muito degradada, resultado de anos de mau uso da terra. Há consciência nacional desse facto?

A conservação do solo deve ser prioritária, um solo fértil pode levar milhares de anos a formar-se e pode-se perder em pouco tempo. Temos de facto muitos problemas com o solo especialmente no Alentejo e Algarve resultado de más praticas agrícolas/ florestais. A plantação de extensas manchas de Matas de Produção nomeadamente de Eucaliptos não parecem ajudar a conservar o solo apesar de alguns investigadores afirmarem o contrário. Tenho observado solos nus e erodidos em várias plantações e quase sem manta morta ao contrário de solos com outra ocupação por exemplo de Floresta Nativa onde raramente o solo se encontra nu impedindo a erosão hídrica.

Obviamente que há técnicas para impedir a erosão em Matas de Produção e acredito que os gestores dessas Matas, geridas profissionalmente, o façam com sucesso.

No distrito já há autarquias a adoptar medidas de gestão, poupança e uso público de água e da energia. É o sentimento bem português do “vale mais tarde do que nunca”?

Julgo que estas medidas são sensatas, especialmente no enchimento de piscinas, lavagem de carros, relvados, etc. Com a energia a mesma situação. É muito difícil para um autarca a gestão deste problema e para terem tomado essas medidas é porque a situação está no limite. Eu faria o mesmo.

Deputados e autarcas do distrito defenderam, recentemente, como chave para o problema da seca o reforço da capacidade de armazenamento, acusando o Governo de “falta de visão estratégica” na “gestão dos cursos de água” em Portugal. Concorda?

Não, construir uma barragem é um impacto enorme no ambiente, especialmente em regiões com habitats importantes. É um assunto que deve ser tratado por peritos qualificados na matéria nas instituições públicas com essa especialidade e a sua voz ser ouvida. Concordaria se fosse provado inequivocamente a sua importância, o seu custo benefício, o seu interesse nacional e regional. Já assisti através de estudos de impacte ambiental, à construção ou tentativa de construção de barragens onde não se provou claramente essa necessidade. E nunca fazer uma obra só porque há financiamento europeu garantido e vai criar empregos numa empresa de construção.

A irregularidade dos caudais do Tejo reflete-se na sua biodiversidade. Qual é, hoje, a real situação das espécies que vivem do e no rio, na nossa região?

Claramente, os caudais ecológicos do rio não são mantidos há dezenas de anos, a qualidade da água é suspeita e há uma salinização evidente do rio com a subida da água salgada, sendo já possível capturar espécies de peixes de água salgada na região.

Nas plantas com que trabalho muitas delas são indicadoras da qualidade da água e utilizadas na avaliação biológica dessa qualidade da água em sistemas fluviais segundo a diretiva quadro da água e a lei da água.

Determinando as espécies e a sua cobertura conseguimos biomonitorizar essa qualidade e a situação de Tejo não é nada boa, com poucas espécies e as que se encontram são as mais resistentes à poluição o que é indicador de problemas na qualidade da água, não sendo necessárias análises químicas à água, estando estas dependentes do local de colheita, da hora e de outras variáveis.

Os rios continuam a ser o esgoto de muitas indústrias. O crime ainda compensa?

Deve compensar, já assisti na região a descargas de efluentes por exemplo no rio Alviela em vários locais, no Rio Tejo também em vários lugares, e em diversas ribeiras e à luz do dia. É um problema com décadas, sem resolução à vista, estamos no século XXI e na Comunidade Europeia. Pior que o crime é a ligeireza nacional para resolver a poluição química e orgânica destes cursos de água e este facto não pode ser negado pois está à vista de todos. Até poluição com metais pesados, o que é gravíssimo e com efeitos nos ecossistemas e saúde humana difíceis de contabilizar.

O que fazer para formar melhores cidadãos apostados na defesa dos nossos rios e das nossas florestas? Primeiro as famílias e de seguida as escolas cumprem esse papel formador?

Penso que isso já está a ser feito com sucesso pelos professores dos diferentes graus de ensino.

Coordenei cientificamente há uns anos um projecto da Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, que se chamou um “Bosque perto de si” (ainda disponível online), onde participaram cerca de 400 escolas e milhares de alunos de Norte a Sul, bem como dos arquipélagos dos Açores e Madeira. Foi um sucesso enorme, os alunos tiveram o apoio de motivados professores, dos seus pais e avós, da GNR, Bombeiros, técnicos das autarquias, entre outras entidades. Esta experiência, mas não só, permite-me afirmar com segurança que vamos ter melhores cidadãos apostados na defesa da sua casa principal: o planeta Terra.

TEXTO: JOÃO PAULO NARCISO

FOTOS: ANDREW STANBRIDGE

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