Com raízes profundas em Benfica do Ribatejo, Dora Ferreira lançou recentemente o livro Rabiscos Meus II, cuja venda reverte na totalidade a favor da construção do novo lar de idosos da freguesia. Mais do que uma obra poética, o livro é um gesto de amor à comunidade e de superação pessoal. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, a autora partilha a dor que deu origem à escrita, a evolução da sua voz literária e a esperança de que a poesia possa transformar realidades — e unir pessoas.

O livro Rabiscos Meus II surge com um propósito muito claro: apoiar a construção do novo lar de idosos de Benfica do Ribatejo.

O que a motivou a associar esta obra a esta causa em particular? 

Desde o primeiro verso que rabisquei no papel, prometi a mim mesma que se tivesse oportunidade de editar um livro, seria sempre para ajudar uma causa. Assim sucedeu, com a edição do meu primeiro livro, Rabiscos Meus. Sou filha desta terra, e tenho raízes profundas a este cantinho do Mundo, a aldeia dos Cortiçóis. Percebi, através de várias actividades realizadas, com o objectivo de angariar fundos, que a ASSBR está com dificuldades financeiras para concluir o Lar de Idosos. Perante esta realidade, ganhei coragem para editar o meu segundo livro, Rabiscos Meus II. De forma, a dar o meu singelo contributo, para o nascimento desta “casa” tão importante para o nosso concelho.

Este novo volume reúne textos escritos entre 2017 e 2018, num momento delicado da sua vida. Como olha hoje para esses textos, tantos anos depois? 

A morte de um filho, é a maior e mais profunda dor que alguém pode sentir. O amor incondicional aos meus filhos, que merecem, ter uma Mãe parecida com que a que tinham antes do irmão partir, segurou-me à vida. A escrita foi a fuga, a máscara, as lágrimas secas, o grito mudo, a “corda” que eu me agarrei, para sufocar uma dor sem tamanho. Hoje, olho para este livro e regresso lá atrás, a um período de sofrimento. Apesar de os poemas terem mais cor, do que no primeiro, ainda está muito pintalgado de negro.

Desde a publicação do primeiro livro, muito mudou: novos leitores, novas causas, novo reconhecimento. Sente que a sua escrita também mudou? 

Quando nos expomos desta forma, no meu caso explanando a voz da alma, sujeitamo-nos à crítica. Tive sempre essa consciência, bem presente. Tenho a felicidade dos meus leitores me transmitirem o quão gostam de me “ler”. Apesar da ferida imortal que tenho no meu coração, o tempo é milagroso. Não a consegue matar, mas vai deixando-a adormecida. Ao longo do tempo, e já lá vão 12 anos, naturalmente, o entendimento que eu hoje tenho de ver e sentir o que me rodeia, alterou-se. O próprio exercício, quase diário, da escrita e outras ferramentas que adquiri, foram modificando a minha forma de escrever, sem deixar de dar voz aos meus sentimentos.

A apresentação do livro juntou instituições, autarcas e muitos leitores. Que significado teve, para si, ver esta união em torno da obra e da causa? 

Estou muito feliz por ter conseguido reunir tanta gente de diferentes áreas, neste dia, tão importante para mim. Concluo, que as minhas palavras conseguem tocar as pessoas, assim como o apelo implícito no propósito da publicação deste livro. Aliás, o objectivo desta edição e o apoio da população a esta causa, é tão ou mais importante, como o reconhecimento do meu trabalho. Sou eternamente grata, pela união que esta missão conseguiu gerar. 

Como encara o papel da literatura como instrumento de transformação social, sobretudo numa comunidade como a de Almeirim? 

Hoje, a par de muitos outros, Almeirim é um concelho globalizado. A poesia, transforma qualquer comunidade, e a nossa, não é excepção. É uma forma literária, que agarra os leitores consoante a dimensão da sua sensibilidade. Para amar a poesia, não é necessário ser muito culto ou muito letrado, basta ler com os olhos do coração. Quando escrevo um poema abro a alma e deixo-a falar. Quem o lê, para senti-lo, tem que se vestir de empatia e deixar-se impregnar pela mensagem, moldando-a às suas vivências. Se a minha poesia emocionar os Almeirinenses, e conseguir que se libertem dos seus sufocos e enfatizem as suas ínfimas alegrias, cumpriu o seu destino. Tenho a pretensão, que os meus poemas ergam uma ponte invisível, que me conecte ao leitor para sempre.

Um verso deste novo livro que a resume? 

“Hoje creio, ainda, na incerteza das certezas. E que certamente, é efémero o que hoje creio!”

Um livro que ofereceria a alguém especial? 

Claramente, um dos meus livros.

Um momento de silêncio que recorda com ternura? 

Os abraços dos meus filhos.

O que mais a emociona nas pessoas? 

A empatia e a união.

O que mais a inquieta no mundo de hoje? 

As doenças, as guerras, o futuro das crianças. A sede de poder, e tudo de mau, que dele resulta. 

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