Refletir sobre o que aí vem (parte I)

Chegámos a maio e os efeitos sanitários da Pandemia estarão por ora, de acordo com o que referem os Especialistas, na fase descendente. Esta circunstância permitiu iniciar o chamado período de “desconfinamento”.

Aos poucos, começa a voltar alguma “normalidade” às nossas vidas. Mas, este é todo um novo tempo. De receios, dúvidas e medos. Esta nova “normalidade” será o quotidiano até que exista uma vacina ou um medicamento que dê 100% de garantias quanto à imunidade aos efeitos do Covid-19. Por este motivo, um pouco por todo o mundo, os Governos têm tido uma ação cautelosa neste período de regressos. O Brasil e os Estados Unidos da América são duas das exceções que confirmam a regra. A ignorância, o exibicionismo bacoco, o populismo e a ausência da preocupação “com os outros”, leva os seus líderes máximos a cometerem disparates uns atrás dos outros, contrariando as próprias indicações dos seus responsáveis de saúde e conselheiros (em regra com indiscutíveis capacidades profissionais e técnicas), governando como bem entendem e dizendo o que bem querem. E quando contrariados, o primeiro ataque é dirigido aos jornalistas, esses “inimigos da sua sociedade”, que à simples citação do que disseram no dia anterior, levam com a resposta de que isso é “mentira” ou que é “falso”.

É uma gestão política entre a mitomania e a demagogia exacerbada. Este estilo de liderança já se tinha visto é certo, mas o tempo presente permite-nos a todos um olhar mais atento. São um perigo para a sobrevivência das democracias. Em que a ação política é feita sem paixão, sem preocupação com a sociedade, sem respeito pelos seus, sem qualquer sinal de humanismo, numa lógica do “vale tudo”.

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Por cá, vivemos “ainda” um ambiente político sereno. Salvo algumas poucas exceções, os partidos políticos souberam interpretar o que se estava a passar e aquilo que a larga maioria dos portugueses exigia. E vimo-los a participar de forma adulta e descomplexada no apoio às medidas do Governo e nas críticas quando as mesmas têm razão de existir. Por momentos vivemos sinais de uma democracia sã e madura. Para mim, que entendo a política na sua dimensão do entendimento e do serviço aos outros, acaba por ser inspirador perceber, uma vez mais, o que pode a decisão politica fazer de concreto a uma sociedade que esteja mobilizada perante um qualquer desafio coletivo.

E este cenário de “harmonia” também surge no futebol. Por agora, existe alguma tranquilidade. Foi até possível ver os presidentes dos três maiores clubes nacionais, juntos, quase transparecendo que existia um clima de paz entre eles, de solidariedade e preocupação comum com os efeitos da Pandemia no desporto e particularmente no futebol.

Serão estes sinais de harmonia e solidariedade política e desportiva para ficar? Claro que não. É apenas passageiro. As circunstâncias assim o ditam. Quando começar a disparar o desemprego (que já começou com mais 75 mil desempregados em abril de 2020 face ao mesmo mês de 2019), a crise social eclodir (já temos casos preocupantes, em crescendo e de maior impacto do que aconteceu em 2012 -2014), as empresas a fechar, as exportações caírem para valores a que não estamos habituados e o nosso desequilíbrio económico se expor, tudo regressará à casa de partida, no que à política diz respeito.

No futebol será igual. Quando a crise afetar ainda mais os clubes, e houver uma decisão sobre o modo como terminará o campeonato, uma decisão errada sobre um lance, ou tão simplesmente um campeão, regressará tudo ao mesmo ponto de conflito. Agora agravado por uma muito pior capacidade financeira, patrocínios reduzidos, menores vendas de merchandising e bilheteira, com receitas a cair a pique, o que obrigará os clubes, mais do que nunca, a uma gestão cuidada e parcimoniosa dos seus ativos.

A política e o futebol entrarão numa nova realidade. Não será a do pré-Pandemia, será a do pós-primeiro surto. Com perdas irreparáveis, com desigualdades em crescendo, com muitos problemas e soluções curtas.

Mas, que adotem soluções. “Não decidir” já é uma decisão, mas muitas das vezes errada.

Ricardo Segurado – Jurista

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