Conheci o António Luís Ferreira Alves no Veto Teatro Oficina, há tantos anos que já nem sei quantos. Sereno, calmo, nunca o vi exaltado, um pouco tímido, sempre uma palavra de ajuda, sempre um estar conciliador, sempre a disponibilidade para ouvir e entender os outros.

Nos meus tempos de estudante, partilhávamos o comboio para Lisboa, eu a caminho da universidade, tu da Setenave, onde era desenhador de grandes maquinas. A conversa fluía sempre com interesse. Sobre o teatro e o canto, a música como instrumentista, o desenho e a pintura de arte, mas também naquelas conversas se refletiam preocupações sociais, sobre os direitos dos mais fracos, sobre a exploração, sobre a vida e, meu Deus, o que eu aprendi…

Um único pequeno problema te azedava. Quando pensávamos um projeto teatral novo, dizias logo que não seríamos capazes de tal empresa, e tu nem serias capaz de decorar o texto. Depois eras invariavelmente o primeiro a sabê-lo e a sabê-lo muito bem.

Recordo com prazer a montagem de O Baile, em que foste o Barmen. De inicio que não senhor, não sabias dançar. Depois, bem depois só ver-te justificava a ida ao teatro. Tó Alves, tu foste um dos atores mais completos que já vi representar. Capaz de te desdobrar em diversos personagens que nunca transponhas de uns para outros.

Como cantor, a tua belíssima voz de tenor ponderou no coral Alfredo Keil, mas também no Coro do Circulo Cultural Scalabitano e noutros coros.

Como cenógrafo, foste uma das vítimas do grupo e das exigências dos encenadores, mas a verdade é que sempre conseguiste criar o ambiente de que necessitávamos para os diferentes espetáculos.

Mas as melhores recordações que me assaltam a memória, são as que remontam ao tempo em que o Veto tinha por hábito acampar durante a páscoa. Primeiro na Barragem de Magos, depois por um breve tempo no parque de Escaroupim (Salvaterra de Magos) e, finalmente na barragem do Monte da Barca, na altura na posse do município de Coruche.

Partia-se na 5.ª ou na 6.ª feira, depois do almoço e depois era a festa, as refeições em comum, os mergulhos na barragem, os jogos de futebol, o concurso de favas guisadas com carne de porco e sobretudo as noites.

Em torno da fogueira, as violas tu, o José Alexandre, o acordeão do José Farinha, o meu bandolim, a harmónica do Francisco Selqueira e as vozes de todos nós, dos nossos filhos e filhas, dos nossos amigos… Nasceram ali espetáculos, mas sobretudo cimentou-se uma amizade à prova de tudo, que sempre nos uniu, na família do Veto, como gostavas de afirmar. E como gostavas daqueles momentos; e as brincadeiras que nós tínhamos…

O nosso último projeto seria que tu tocasses na viola e eu dissesse a Procissão / Há Festa na Aldeia, poema de António Lopes Ribeira, imortalizado por João Villaret. Mandei-te a letra como pediste, tiraste os acordes, como garantiste, mas a saúde foi forçando a adiar o propósito, que nunca se chegou a concretizar. Pode ser que um dia destes tu, lá de cima e eu daqui, juntemos as nossas vontades para dar voz a este teu desejo.

Até sempre amigo, um dos maiores e mais marcantes que tive a honra de ter e conhecer.

Nuno Domingos

1 comentário
  1. Muito obrigado Nuno Domingos e Correio do Ribatejo por esta homenagem maravilhosa… confesso que não estava à espera e fui apanhada de surpresa, mas uma bonita, muito bonita surpresa!!! Um grande, muito grande obrigado do fundo do meu coração e das minhas lágrimas…

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