A história do tecido empresarial ribatejano é feita de resiliência, de adaptação constante aos desafios do mercado e, sobretudo, de rostos que corporizam a transição bem-sucedida entre gerações. Rosário Cordeiro, administradora e sócia-gerente da J.M. Cordeiro, Lda., é inquestionavelmente um desses rostos incontornáveis. À frente de uma das mais sólidas e respeitadas empresas de distribuição de combustíveis da região, a sua trajectória é um testemunho vivo de dedicação, de aprendizagem contínua e da capacidade rara de afirmar uma liderança feminina num sector tradicionalmente e quase exclusivamente dominado por homens. 

A história de sucesso da J.M. Cordeiro confunde-se, inevitavelmente e de forma indissociável, com a história da própria família. Fundada em Maio de 1983 por José Manuel Cordeiro, pai de Rosário, a empresa começou de forma modesta, alicerçada na distribuição de lubrificantes e na exploração de um único posto de abastecimento na vizinha cidade de Almeirim. “Em 83, eu tinha 14 anos”, recorda Rosário Cordeiro com um sorriso, recuando aos tempos em que a empresa dava os primeiros e incertos passos. “Lembro-me de vir aqui muitas vezes. Havia um computador que era maior do que esta mesa, que tinha umas fichas que entravam e essas coisas todas. Mas, nessa altura, confesso que jamais pensava se o meu futuro ia passar por aqui ou não.”

O percurso académico de Rosário Cordeiro começou, de facto, por desenhar-se noutras direcções, longe dos combustíveis e dos lubrificantes. Ingressou inicialmente num curso de Secretariado em Lisboa e, no segundo ano, movida por outros interesses, entrou em Química. Contudo, a atracção pelo negócio familiar, o apelo das raízes e a vontade de trabalhar ao lado do pai acabaram por falar mais alto e ditar o seu destino. “Achei que Química já não me dizia nada e comecei a construir a ideia de que, se calhar, queria vir para junto do pai”, confidencia com a franqueza que a caracteriza. Concluiu o curso de Secretariado, formou-se posteriormente em Gestão de Empresas e, em 1991, com apenas 21 anos, integrou oficialmente os quadros da J.M. Cordeiro, iniciando um percurso que a levaria ao topo da organização.

A Escola do Terreno e a Sombra Tutelar do Fundador

A integração na empresa familiar não se fez através de atalhos fáceis ou de posições de privilégio imerecido. Rosário Cordeiro aprendeu o negócio a partir da base, sujando as mãos, conhecendo a operação por dentro e conquistando o respeito dos pares. “Aquilo que é essencial é que nós temos que começar de baixo para cima. O saber não ocupa espaço e o sujar as mãos também não tira dignidade a ninguém”, afirma com a convicção de quem viveu essa realidade. “O facto de ir abastecer um carro, se fosse preciso, não fazia com que eu deixasse de ser a Rosário Cordeiro. Cheguei a fazê-lo muitas vezes, com muito orgulho.”

Esta postura eminentemente prática e humilde foi acompanhada por uma aprendizagem intensa, exigente e diária ao lado do pai, que descreve com emoção como “um grande professor e um grande mestre”. A partilha do mesmo espaço de trabalho permitiu-lhe absorver não apenas os conhecimentos técnicos e operacionais do negócio, mas, acima de tudo, os valores morais que ainda hoje norteiam a sua gestão diária. “Aprendi conceitos que para mim são absolutamente fundamentais e dos quais não consigo desviar-me um milímetro: a ética, ser consciente e consistente na forma de estar e de actuar no mercado”, sublinha com veemência.

José Manuel Cordeiro era, nas palavras da filha, uma figura centralizadora, de forte personalidade, que chamava a si todas as decisões e preocupações do negócio. “Tudo o que era decisões passava por ele. Ele não me ocupava, os problemas também ficavam todos com ele. Tive uma grande escola porque partilhava a sala com ele, ouvia as coisas, ia tomando conhecimento de como se resolviam os problemas e era assim que ia aprendendo a ser gestora.”

O Desafio da Sucessão e a Afirmação de uma Liderança

O momento mais marcante, doloroso e desafiante da trajectória profissional e pessoal de Rosário Cordeiro chegou com a doença prolongada e o posterior falecimento do pai, há cerca de 12 anos. A transição não foi, de todo, fácil. Num sector marcadamente masculino e conservador, a sua presença discreta na retaguarda da empresa tinha passado despercebida para muitos parceiros e clientes. “Enquanto eu tive o grande homem por trás, estava tudo certo. O problema é que, quando o meu pai começou a adoecer e a afastar-se progressivamente, fui eu que tive de aparecer à frente. E a grande maioria das pessoas nem sequer sabia que eu trabalhava cá há tantos anos”, recorda.

A morte do carismático fundador gerou dúvidas naturais no mercado e até junto dos principais parceiros de negócio, como a Galp, marca à qual a empresa esteve sempre umbilicalmente ligada. “Houve muita gente que se questionou sobre o que ia ser da J.M. Cordeiro. Achavam que a empresa ia morrer com o fundador”, confessa. “Fui literalmente mandada aos leões, mas consegui sair-me bem. Foi uma luta muito difícil para mim, mas provámos o nosso valor.”

A resposta cabal de Rosário Cordeiro a estas dúvidas infundadas foi dada com muito trabalho, rigor extremo e uma gestão assente na modernização contínua e na diversificação inteligente. Sob a sua liderança firme, a empresa não só sobreviveu à perda do fundador como se expandiu de forma notável, consolidando a rede de postos, apostando fortemente na distribuição de combustíveis a granel (com abastecimento inovador no local para máquinas agrícolas e industriais) e garantindo entregas rápidas e eficientes em 24 horas. Hoje, a J.M. Cordeiro é uma referência regional incontornável, com cerca de seis dezenas de trabalhadores dedicados e uma solidez financeira amplamente reconhecida pelo mercado e pela banca.

Um Legado de Ética e um Olhar Confiante sobre o Futuro

A distinção que agora recebe, com inteira justiça, do Correio do Ribatejo junta-se a outros reconhecimentos públicos de relevo. Para Rosário Cordeiro, contudo, o maior motivo de orgulho não são os troféus que adornam as prateleiras, mas a forma íntegra como a empresa se mantém fiel aos seus princípios fundadores. “O que mais me orgulha é ser uma pessoa com ética, correcta, e ter conseguido levar este barco a bom porto. As dificuldades são muitas, as exigências são cada vez maiores, mas continuamos a ter a empresa em bom caminho, sem nunca dar um passo maior que a perna”, afirma com a serenidade do dever cumprido.

Profundamente ligada a Santarém – cidade da qual guarda memórias felizes e vívidas da infância, como as idas à antiga Feira do Ribatejo e o ambiente efervescente do 25 de Abril –, Rosário Cordeiro acredita convictamente no potencial da região e recusa liminarmente a ideia redutora de uma “cidade dormitório”. “Temos muita história, muita cultura, muita gastronomia boa e uma panóplia de envolvência agrícola e cultural extraordinária. Temos muito para explorar e para crescer”, defende com paixão.

Numa altura em que o sector energético enfrenta desafios globais complexos e sem precedentes, marcados pela instabilidade geopolítica e pela urgência da transição climática, a gestora mantém o pragmatismo e a cautela que herdou do pai. O conselho sábio que ele lhe deixou – “Nunca te esqueças de onde estás” – continua a ser a sua bússola infalível. Rosário Cordeiro é a prova viva e inspiradora de que a tradição familiar, quando aliada à competência técnica, à ética inegociável e à capacidade de adaptação aos novos tempos, é o motor mais seguro e poderoso para construir o futuro.

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