No desporto, como na vida, as grandes conquistas raramente são fruto do acaso, da sorte fortuita ou do génio isolado de um momento fugaz. São, quase sempre, o resultado palpável de anos de persistência inquebrantável, de sacrifício silencioso e da crença absoluta num projecto colectivo que transcende as individualidades. O Rugby Clube de Santarém (RCS) é a prova viva e inspiradora desta máxima intemporal. Ao celebrar o seu 30.º aniversário, o clube vive, inquestionavelmente, o momento mais glorioso e marcante da sua história, assinalado pela conquista brilhante do título nacional da 1.ª Divisão e pela inédita e muito ambicionada subida à Divisão de Honra, o escalão máximo e mais exigente do râguebi português. A distinção que agora lhe é conferida na Gala do 135.º Aniversário do Correio do Ribatejo não celebra apenas a conquista de um troféu desportivo de relevo, mas o triunfo de uma comunidade inteira, a resiliência de uma verdadeira “família” e a afirmação categórica de Santarém no mapa da elite do desporto nacional.

Fundado formalmente em 1995, o RCS nasceu da vontade férrea de um grupo de apaixonados pela modalidade de dar uma estrutura sólida, duradoura e organizada ao râguebi na cidade, cujas raízes profundas remontavam aos tempos áureos da antiga Escola de Regentes Agrícolas. Desde o primeiro dia da sua existência, o clube assumiu uma vocação clara e inegociável: ser uma escola de formação de excelência, não apenas de atletas de eleição, mas, acima de tudo, de cidadãos íntegros. Ao longo de três décadas de actividade ininterrupta, o RCS cresceu de forma sustentada e admirável, superando inúmeras e complexas adversidades, desde a crónica falta de apoios financeiros estruturais até à precariedade confrangedora das infra-estruturas, jogando durante anos a fio em campos emprestados, de terra batida, e sem as condições mínimas exigíveis para a prática desportiva de alto nível.

A Subida Histórica e o Poder Transformador da Resiliência

A época desportiva de 2024/2025 ficará para sempre gravada a letras de ouro na história do clube e nos anais do desporto ribatejano. A vitória dramática, emotiva e incrivelmente renhida na final do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, frente ao valoroso CR Setúbal (30-27), no mítico relvado do Estádio Nacional do Jamor, foi o culminar perfeito de um longo e exigente processo de amadurecimento colectivo. “O sucesso não se deve efectivamente ao trabalho circunstancial de um ano. Deve-se ao trabalho árduo de muitos anos neste clube”, sublinha com orgulho Nuno Serra, presidente do RCS e um dos grandes obreiros e impulsionadores deste projecto vencedor. “Fomos paulatinamente crescendo, criando estrutura sólida no clube, amadurecendo o nosso modelo de jogo, preparando a equipa e o clube mentalmente para darmos este passo decisivo.”

 

A subida à Divisão de Honra coloca o RCS no restrito lote das 12 melhores equipas de Portugal, um feito extraordinário e quase impensável para um clube sediado fora dos grandes centros urbanos tradicionais da modalidade e com um orçamento substancialmente inferior ao dos seus adversários directos. Para Nuno Serra, a chave mestra deste sucesso retumbante reside no compromisso inabalável dos jogadores e no apoio incondicional e fervoroso da massa associativa. “Houve um maior compromisso de todos. Este grupo de jogadores percebeu que, com o seu nível técnico, apostando fortemente no nível físico, conseguia ir mais longe. E depois houve algo que muito me orgulha e emociona: o apoio incondicional da grande família do Rugby Clube de Santarém, que nunca nos deixou caminhar sozinhos.”

O Desafio da Elite e a Necessidade Urgente de Apoios

A entrada na Divisão de Honra na exigente época 2025/2026 traz consigo desafios hercúleos e sem precedentes, sobretudo a nível financeiro, logístico e organizativo. As deslocações frequentes a pontos distantes do país e a exigência competitiva brutal de um campeonato de cariz semi-profissional obrigam a um esforço redobrado de toda a estrutura. “Nós temos a plena consciência das dificuldades. Até porque somos um clube que tem um orçamento muito baixo em comparação aos outros clubes da divisão, e isso é, sem dúvida, o nosso maior desafio”, reconhece o presidente com enorme pragmatismo.

O RCS, que sempre se orgulhou de caminhar “pelos próprios pés” e de financiar as suas próprias melhorias estruturais com o suor dos seus associados, apela agora, de forma veemente, a um maior envolvimento do tecido empresarial local e, sobretudo, do poder autárquico. “Acho que chegou o momento de a autarquia de Santarém reconhecer que deve discriminar positivamente o mérito desportivo, em especial a quem atinge este patamar de competitividade extrema e chegou ao topo nacional”, defende Nuno Serra, lembrando com justeza que o clube leva o nome, o prestígio e a bandeira de Santarém a todo o país, assumindo-se como um verdadeiro embaixador da região.

Um Novo Campo para Consolidar o Futuro

A par do inegável sucesso desportivo, o clube vive também um momento crucial e definidor a nível de infra-estruturas. A construção do novo e moderno campo na antiga Escola Prática de Cavalaria (EPC), um investimento superior a 2 milhões de euros promovido pela autarquia, promete dotar finalmente o RCS das condições de excelência que a sua dimensão e ambição exigem. Apesar de alguns percalços recentes no projecto, que obrigaram à suspensão temporária das obras no início de 2026, a concretização desta infra-estrutura vital é vista como absolutamente essencial para a consolidação definitiva do clube na elite e para a atracção contínua de novos praticantes.

 

“Somos um clube que faz 30 anos de vida, mas que só joga num campo próprio há cerca de 11 anos. E isso realmente teve um efeito decisivo naquilo que foi também a chegada a esta divisão de honra”, explica Nuno Serra. As novas e ansiadas instalações, dotadas de balneários definitivos, ginásio moderno e melhores condições de treino, permitirão dar “um salto qualitativo e quantitativo muito significativo naquilo que é o impacto do râguebi no desporto do concelho e da região”.

A Escola de Valores e o Legado Perene para a Cidade

Mais do que os resultados desportivos brilhantes ou as taças conquistadas, o que verdadeiramente define e distingue o Rugby Clube de Santarém é a sua matriz inegociável de valores. Com centenas de jovens a evoluir nos seus escalões de formação, o clube assume-se, com orgulho, como uma verdadeira escola de vida. “O râguebi tem valores muito vincados e estruturantes. Nós temos sempre muito respeito pelos adversários, humildade quando ganhamos e congratulamos os outros quando perdemos”, enfatiza o presidente. “A lealdade e a integridade são parte integrante do ADN de cada jogador. Qualquer jogador de râguebi tem de ser íntegro dentro e fora das quatro linhas.”

A justa homenagem que o Correio do Ribatejo agora lhe presta é, por isso mesmo, o reconhecimento público de um projecto desportivo e social de excelência ímpar, que prova cabalmente que, com trabalho árduo, sacrifício e união, é possível alcançar o topo. Como resume Nuno Serra, numa mensagem sentida dirigida a toda a comunidade do clube: “Nós não construímos isto sozinhos. Construímos isto porque houve um conjunto de pessoas e de entidades que nos apoiaram incondicionalmente. Atingimos um sonho e atingimo-lo porque trabalhámos afincadamente para isso, porque acreditámos sempre e porque fomos, e somos, uma grande família.” O Rugby Clube de Santarém é, hoje, um dos maiores motivos de orgulho da cidade, um símbolo de resiliência e um exemplo do que o desporto pode e deve ser na construção de uma sociedade melhor.

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