Santarém quer virar-se definitivamente para o rio. Um ano depois da apresentação pública do Parque Natura Tejo, a Câmara Municipal levou à BTL 2026 um compromisso político reforçado, um investimento revisto para cerca de sete milhões de euros e um calendário que aponta o arranque da obra para 2027. “Não concebo que Santarém não desfrute do seu rio Tejo”, afirmou João Teixeira Leite, assumindo “olhos nos olhos com cada um dos escalabitanos” a determinação de lançar ainda este ano o concurso para a empreitada.
O projecto, que prevê passadiços até Alfange, zonas de lazer e desporto e soluções de engenharia natural adaptadas às cheias, é apresentado como peça estruturante de uma estratégia mais ampla que cruza requalificação urbana, regeneração da Ribeira e crescimento turístico.
Na leitura do autarca, a devolução do Tejo à cidade não é apenas uma intervenção paisagística, mas um investimento com “efeito multiplicador” na habitação, comércio e restauração, capaz de reposicionar Santarém como destino que articula património, natureza e qualidade de vida.
O rio esteve sempre ali, aos pés da cidade, mas a Ribeira continuou anos a fio como um território suspenso entre a promessa e o receio. Na BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market 2026, João Teixeira Leite quis fixar uma imagem e um compromisso: “Não concebo que Santarém não desfrute do seu rio Tejo”. E, a partir dessa frase, desenhou um calendário, uma ambição e um recado político para dentro e para fora do concelho: “Não vão contar com o João Leite nem com nenhum membro do Executivo para arranjar desculpas para não investir na Ribeira e no Centro Histórico.”
O presidente da Câmara apresentou no certame de turismo, em Lisboa, no passado dia 25 de Fevereiro, o Parque Natura Tejo como peça estruturante do mandato, assumindo-o como instrumento de qualificação do espaço público e de reposicionamento turístico. A autarquia enquadra o momento como início de “um novo ciclo estratégico” sob o mote “Santarém e o seu encontro com o Rio”, sublinhando que o stand, “inspirado no futuro Parque Natura Tejo”, é “mais do que uma construção cenográfica”: “é uma afirmação política”.
A ideia é simples e, ao mesmo tempo, exigente: devolver o Tejo à cidade e transformar a frente ribeirinha num espaço de lazer e desporto, com um desenho que recusa o betão e aposta na “engenharia natural”, em estruturas predominantemente em madeira, com passadiços preparados para resistirem a cheias e com soluções de naturalização que usem a própria vegetação como parte da estabilização. “O que se quer neste tipo de intervenções é tudo menos betão”, afirmou, descrevendo a lógica de “cortinas arbóreas” e passadiços a uma cota “suficiente” para não ficarem totalmente submersos em episódios de cheia.
A intervenção, estimada em cerca de sete milhões de euros, deverá ser lançada a concurso ainda este ano, dependendo de pareceres da CCDR e da Agência Portuguesa do Ambiente.
No melhor cenário traçado pelo presidente, a obra poderá arrancar no início do segundo semestre de 2027, com uma duração entre um ano e meio e dois anos.
Mais do que uma promessa genérica, o autarca quis vincular prazos e procedimentos, assumindo “olhos nos olhos com cada um dos escalabitanos” a determinação de avançar.
A devolução do rio à cidade deixa, assim, de ser apenas enunciado programático para passar a integrar um calendário político definido — ainda dependente de validações técnicas, mas já inscrito na agenda pública do município.
Da apresentação inicial à maturidade financeira
A ambição de requalificar a frente ribeirinha não é nova. Em Março de 2025, o município apresentou publicamente o projecto “Parque Natura Tejo”, numa sessão realizada no Teatro Clube Ribeirense, onde foi anunciado um investimento global de 4,7 milhões de euros, com 3,5 milhões assegurados através do programa Portugal 2030, e uma execução faseada que incluía a criação de um Parque Desportivo do Tejo como primeira etapa.
Um ano depois, na BTL 2026, o enquadramento financeiro surge revisto. Em declarações aos jornalistas, João Teixeira Leite apontou para um valor na ordem dos sete milhões de euros, admitindo que a estimativa poderá sofrer ajustes até à conclusão do projecto de execução.
A diferença não é meramente aritmética. Reflecte, segundo o autarca, a maturação técnica da proposta, a consolidação do desenho e, também, a actualização de custos num contexto de mercado marcado por inflação nos materiais e na construção.
A evolução financeira acompanha igualmente uma clarificação do calendário. Se em 2025 o município apontava para o arranque da primeira fase nesse mesmo ano, na BTL o presidente vinculou o Executivo a lançar ainda em 2026 o procedimento concursal para a empreitada, dependente dos pareceres da CCDR e da APA.
O cenário traçado admite a adjudicação em 2027, após validação do Tribunal de Contas, e um prazo de execução entre dezoito meses e dois anos.
O projecto, que numa primeira fase foi apresentado sobretudo na sua dimensão conceptual — devolução do rio à cidade, valorização ambiental e recreativa — surge agora enquadrado como um investimento estruturante do mandato, ancorado numa estratégia mais ampla de regeneração urbana e turística.
A autarquia define mesmo o Parque Natura Tejo como “um dos grandes projectos estruturantes do mandato” e como peça central do eixo “Sustentabilidade e Natureza Tejo”, alinhado com os instrumentos estratégicos da Lezíria do Tejo.
Entre a apresentação de 2025 e o palco nacional da BTL, o discurso ganhou escala financeira, precisão temporal e densidade política. O Parque Natura Tejo deixou de ser apenas um projecto anunciado para passar a integrar um compromisso público com datas, procedimentos e fontes de financiamento identificadas — um salto que obriga agora a acompanhar, com o mesmo rigor, a execução prometida.
Engenharia natural e adaptação às cheias
No plano técnico, o Parque Natura Tejo é apresentado como uma intervenção assente numa lógica de naturalização e de adaptação ao território, recusando soluções pesadas e procurando integrar a paisagem ribeirinha. “O que se quer neste tipo de intervenções é tudo menos betão”, afirmou João Teixeira Leite, sublinhando que o projecto privilegia estruturas em madeira e soluções baseadas na chamada engenharia natural.
A proposta prevê a criação de passadiços ao longo da margem, numa extensão que ligará a Ribeira até Alfange, permitindo percursos pedonais e cicláveis e criando zonas de estadia e de fruição junto ao rio.
Estes passadiços serão implantados a uma cota que, segundo o autarca, permitirá resistir a episódios de cheia, evitando que fiquem totalmente submersos em situações de maior caudal.
A preocupação com o risco hidráulico não é circunstancial. Questionado sobre os episódios recentes de intempéries, o presidente assegurou que o projecto incorpora essa variável desde a fase de concepção, integrando soluções que utilizam a própria vegetação — árvores e cortinas arbóreas — como parte da consolidação das margens.
O objectivo é conjugar fruição pública com resiliência ambiental, num equilíbrio que, defende, já foi alcançado por outros territórios ribeirinhos do país.
Para além dos percursos e das plataformas de contacto com o Tejo, o programa inclui zonas de lazer e desporto, áreas destinadas a actividades náuticas, parque infantil e juvenil, parque canino e um anfiteatro ao ar livre, reforçando a ideia de um parque urbano multifuncional.
A intervenção contempla ainda a recuperação da ‘Ribeira dos Barcos’ e a valorização do Padrão de Santa Iria, articulando natureza e património histórico.
A opção por soluções naturalizadas surge também como resposta a uma crítica recorrente na cidade: a de que a frente ribeirinha sempre foi vista como espaço problemático, marcado pela proximidade do leito de cheia e por sucessivas intervenções de carácter provisório. Ao assumir uma engenharia adaptativa e reversível, o município pretende sinalizar que a devolução do rio à cidade não será feita contra a natureza, mas com ela — uma distinção que, mais do que técnica, é também simbólica na redefinição da relação histórica de Santarém com o Tejo.
O efeito multiplicador na Ribeira e no centro histórico
Se o Parque Natura Tejo é apresentado como intervenção ambiental e de lazer, João Teixeira Leite faz questão de o enquadrar numa lógica mais ampla de transformação urbana. “A requalificação de toda a frente ribeirinha vai ter um efeito multiplicador”, afirmou aos jornalistas, apontando consequências directas ao nível da habitação, comércio e restauração.
O presidente insiste que o investimento público na frente ribeirinha é condição para atrair investimento privado para a Ribeira e para o centro histórico, criando um “ciclo virtuoso” entre qualificação do espaço público e reabilitação do edificado. Na BTL, antecipou que a SIL (Salão Imobiliário de Portugal) será o palco escolhido para detalhar operações privadas em curso na Ribeira, remetendo para uma apresentação futura a identificação dos investidores e dos projectos concretos.
O raciocínio é linear: o município investe na infra-estrutura estruturante — o parque, os acessos, a requalificação da margem — e sinaliza confiança política e financeira; o sector privado responde com projectos de reabilitação, novas habitações e oferta comercial. O autarca sublinhou que a Câmara está “a fazer a sua parte”, criando condições para que os investidores percebam as potencialidades do território.
Esta articulação ganha particular relevo numa zona que durante décadas foi vista como periferia funcional da cidade alta, condicionada pela linha ferroviária e pela instabilidade das encostas. Ao recentrar a Ribeira como “zona premium” do concelho, expressão utilizada pelo presidente, a autarquia pretende inverter a hierarquia simbólica entre planalto e margem, transformando o espaço ribeirinho num pólo de atracção residencial e turística.
A estratégia não ignora, contudo, o contexto adverso. Na mesma conversa com os jornalistas, João Teixeira Leite revelou que o município enviou à CCDR um levantamento de prejuízos na ordem dos 34 milhões de euros, dos quais cerca de 28 milhões respeitam a intervenções nas encostas, após vários deslizamentos identificados.
A coexistência entre a necessidade de resolver fragilidades estruturais e a aposta num investimento de sete milhões na frente ribeirinha não é apresentada como contradição, mas como parte de uma visão integrada: estabilizar o território e, simultaneamente, potenciar as suas áreas de maior valor estratégico.
O Parque Natura Tejo deixa, assim, de ser apenas uma obra paisagística para assumir um papel de catalisador urbano. Ao abrir a cidade ao rio, o município pretende abrir também a Ribeira a uma nova centralidade económica, onde a qualidade do espaço público funcione como âncora para novas dinâmicas de habitação e comércio.
O turismo como consequência estratégica
Se o Tejo é apresentado como ponto de partida, o turismo surge como consequência lógica da nova relação da cidade com o rio. Na BTL, João Teixeira Leite procurou inscrever o Parque Natura Tejo numa estratégia mais ampla, alinhada com o Plano Estratégico de Valorização Turística de Santarém e com os instrumentos da Entidade Regional de Turismo da Lezíria do Tejo.
O município apresenta indicadores que sustentam a narrativa de crescimento. De acordo com os dados divulgados no guião da inauguração, Santarém registou um aumento de 30,6% nas dormidas entre 2019 e 2025, passando de 91 mil para cerca de 119 mil, com um reforço da componente internacional, que representa 35% das dormidas, num universo em que 52% dos visitantes são estrangeiros.
O número de unidades de alojamento terá passado de 61 para 88, com crescimento da capacidade de camas de 1.150 para 1.500 e um aumento da estadia média de 1,4 para 1,6 noites.
Na entrevista concedida no final da apresentação, o presidente sublinhou ainda que o concelho ultrapassou a barreira do meio milhão de visitantes nos monumentos, apontando o número de 505 mil desde a assinatura de um protocolo com a Diocese e com o ISLA.
Estes dados são apresentados como evidência de que a presença em feiras como a BTL ou a SIL constitui “investimento” e não mera exposição institucional, numa lógica em que o benefício social e económico supera o custo da participação.
A estratégia turística tem, contudo, um ponto crítico assumido pelo próprio autarca: a necessidade de reforçar a oferta hoteleira de qualidade. João Teixeira Leite defende que Santarém tem produto — património, monumentos, gastronomia, natureza — mas precisa de mais camas para captar eventos e aumentar a permanência dos visitantes. Nesse contexto, enquadra a intenção de instalar unidades hoteleiras na antiga Escola Prática de Cavalaria e no Presídio Militar, processos que o município prepara em articulação com investidores interessados.
O Parque Natura Tejo encaixa nesta equação como peça que reforça a atractividade global do destino. Ao qualificar a frente ribeirinha, o município pretende aumentar o tempo de permanência, diversificar a experiência do visitante e criar uma nova imagem de Santarém enquanto cidade que combina património histórico, natureza e fruição urbana. No guião da inauguração, essa identidade é sintetizada na fórmula “Património – Natureza – Gastronomia – Rio”.
A aposta no Tejo não é, assim, apenas paisagística. É estratégica. A cidade que reencontra o rio é também a cidade que procura consolidar-se como destino turístico estruturado, capaz de cruzar investimento público e privado, qualificação urbana e crescimento económico.
A escala regional e o mercado externo
A ambição municipal encontrou eco na leitura regional. À margem da apresentação, o presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, José Santos, confirmou que o Ribatejo passará, pela primeira vez, a integrar de forma estruturada uma campanha internacional dirigida ao mercado espanhol, num investimento de 150 mil euros entre 15 de Março e 30 de Junho.
Segundo explicou, as campanhas anteriores não incluíam conteúdos específicos do Ribatejo. A nova estratégia passa a incorporar paisagens, referências à gastronomia e ao enoturismo ribatejanos, bem como conteúdos audiovisuais ancorados na sustentabilidade, com presença em múpis digitais nas regiões da Extremadura e Andaluzia, campanhas em rádio e activação nas redes sociais. “O que vai acontecer é que vamos ter Ribatejo nas campanhas em Espanha, quando não tínhamos”, sintetizou.
O dirigente regional reconheceu, contudo, que o território enfrenta um desafio estrutural: a necessidade de reforçar o produto hoteleiro. Admitindo que o mercado internacional registou decréscimo recente, apontou a insuficiência de promoção externa nos últimos anos — com apenas três visitas de jornalistas internacionais ao Ribatejo em cinco anos — e defendeu que os investimentos anunciados em Santarém são determinantes para elevar a competitividade do destino.
“Quando tivermos mais produto hoteleiro, as oportunidades de promoção internacional serão muito maiores”, afirmou, referindo também a construção de novas unidades na região e os esforços de modernização de hotéis existentes.
A estratégia inclui ainda reforço de presença digital em mercados como Brasil e Reino Unido, com conteúdos específicos sobre o Ribatejo nas plataformas internacionais de promoção turística.
Neste enquadramento, o Parque Natura Tejo deixa de ser apenas uma obra local para integrar uma narrativa mais ampla de afirmação territorial. A requalificação da frente ribeirinha, a expansão da capacidade hoteleira e a promoção externa surgem como peças complementares de um mesmo desígnio: consolidar Santarém e o Ribatejo como destino estruturado, capaz de cruzar património, natureza e investimento.
Filipe Mendes

