Santarém em Cena evoca Bernardo Santareno e Mário Viegas

O teatro não é só a plateia onde nos sentamos e emocionamos com dilemas ou comédias. Há mais palco para além das tábuas onde vemos personagens darem vida a tantas histórias.

Com um percurso intitulado ‘Santarém em Cena’ durante o sábado, dia 14 de Setembro, Nuno Domingos, encenador do Veto Teatro Oficina e mentor do projecto In.Santarém presenteou os cerca de trinta participantes com uma visita guiada por vários espaços onde se cruzam a história, o teatro, os actores e autores da cidade de Santarém, e a arquitectura.

Uma viagem repleta de curiosidades e de nomes marcantes, singulares e incontornáveis do teatro português do século XX como o dramaturgo Bernardo Santareno e o actor, encenador e recitador Mário Viegas.
No Teatro Taborda, outrora uma cavalariça, perante uma plateia de cerca de trinta pessoas, Nuno Domingos, começou por falar de teatro “esta arte, que nos emociona e nos transforma enquanto espectadores, e da qual encontramos muitas referências na cidade”.

Referiu também que este espaço, O Teatro Taborda – que hoje acolhe a Associação Cultural Círculo Cultural Scalabitano (1954) – nasceu das mãos de grupo de amantes e amadores do teatro, dando-lhe o nome do actor Taborda, que ali levou a cena com muito êxito a peça “Médico à Força” de Molière em 1891.

Desde, então, que este espaço marca a formação cultural da cidade de Santarém, incentivando músicos, artistas e escritores, para a composição musical para teatro e também para orquestra, a criação teatral, em todas as suas vertentes e, mesmo, a dramaturgia e a poesia.

Foi também nesta casa que se iniciaram importantes nomes do teatro como é o caso de Mário Viegas.

Aproveitando a ocasião (visita guiada), os actores Eliseu Raimundo e Paulo Domingos do Veto Teatro Oficina, leram alguns contos do “Gin Tónic”, fazendo saltar gargalhadas do público. Obras de Henrique Leiria (apreciador convito de Gin).

Esta viagem intitulada ‘Santarém em Cena’ não podia passar em branco a história do Teatro Rosa Damasceno, que recebeu o nome da actriz Rosa Damasceno.

No decorrer do percurso sempre comentado por Nuno Domingos foram percorridos ainda o São João de Alporão, palco de actividades teatrais de 1849 a 1875, a casa onde nasceu o dramaturgo Bernardo Santareno, no Terreirinho das Flores, o Teatro Sá da Bandeira, edifício que sofreu uma remodelação profunda em 2004, o Ginásio do Antigo Seminário, hoje, Sala de Leitura Bernardo Santareno, no Largo Padre Chiquito a Casa de Manuel Sousa Coutinho.

A queima da azinheira

Na mesma visita, Nuno Domingos aproveitou para desvendar algumas histórias, nomeadamente a queima da azinheira de Fátima, na Praça Sá da Bandeira (Largo do Seminário).

Joaquim Martinho do Rosário, pai do dramaturgo Bernardo Santareno era totalmente anti -clerical e entrava em todas as revoluções. Conhecido como “Joaquim das Bombas”, estava no grupo que foi cortar a azinheira, onde se diz que apareceu a Nossa Senhora de Fátima.

Ele e mais sete homens trouxeram-na para Santarém e queimaram-na em pleno Largo do Seminário. Tal feito levou Santarém a ser excomungada.
Ao contrário do marido, a mãe do famoso dramaturgo era profundamente religiosa. Quando estava às portas da morte e às escondidas do “Joaquim das Bombas” pediu ao filho, Bernardo Santareno, que na época estudava medicina em Coimbra para a levar a ver a imagem da Virgem a Almeirim. Bernardo Santareno assim o fez. Veio até Santarém e cumpriu o último desejo da mãe.

De seguida visitou-se ainda o monumento a Frei Luís de Sousa, obra escultórica de Erika Braz (a mesma de D. António, Prior do Crato), inaugurada a 24 de Junho de 2010 e colocada no Jardim da Liberdade, em frente ao Tribunal.

De acordo com Nuno Domingos “a escultura reporta-se ao terceiro acto da peça em que o velho aio Telmo Pais questiona o Romeiro (D. João de Portugal): Romeiro, Romeiro! Quem és tu?”.

Mário Viegas, o sonho ao poder

Depois do Veto Teatro Oficina ler uma passagem da peça ‘O Lugre’ de Bernardo Santareno, junto à casa onde viveu, perto do antigo Presídio Militar, Nuno Domingos recordou ainda Bernardo Santareno, Gil Vicente e a visita terminou na casa onde viveu Mário Viegas, actor, encenador e declamador, situada na Rua António Bastos (S. Bento).

A comitiva foi recebida por Hélia Viegas, irmã de Mário Viegas e pela sobrinha, Ana Viegas.

Mário Viegas foi um homem do teatro, do cinema, da poesia, da arte, que quis transportar o sonho ao poder.

Chamava-se António Mário Lopes Pereira Viegas. Representou pela primeira vez, em Santarém, no Círculo Cultural Scalabitano, num Auto de Natal, encenado por Carlos Mendes.

Estreou-se como profissional em 1968 no Teatro Experimental de Cascais (TEC) com a peça “O Comissário de Polícia”, de Gervásio Lobato. Passou pelo Porto (1969), integrando o Teatro Universitário dessa cidade, para, depois, retomar o seu lugar de ator no TEC (1970-1971).

A partir dos anos 70, começa a impor-se como declamador, tanto em rádio, como em televisão, para além da gravação de discos de poesia. Co-fundador de vários grupos de teatro, como o Grupo de Teatro da Feira da Ladra, A Barraca e Novo Grupo (no Teatro Aberto), em 1990 criou a Companhia Teatral do Chiado, sediada no Teatro São Luís, onde encenou e interpretou diversas peças, com destaque para o espectáculo a solo ‘Europa Não, Portugal Nunca!’, em 1995. Foram notáveis os seus desempenhos em filmes como ‘O Rei das Berlengas’, 1976, ‘Kilas, o Mau da Fita’, 1979, ‘A Culpa’, 1979, ‘Sem Sombra de Pecado’, 1982 e ‘A Mulher do Próximo’, 1988.

Foi premiado, com a Medalha de Mérito do Município de Santarém, em 1993, e com o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, que recebeu das mãos de Mário Soares, em 1994. Morreu a 1 de Abril de 1996, com muitas palavras por dizer.

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