Quando Platão descreveu a Atlântida, nos diálogos Timeu e Crítias, não estava a criar um mito desligado do mundo conhecido. A sua narrativa assentava numa geografia coerente, numa civilização com modelo económico reconhecível e numa ética política clara. Falava de uma grande civilização situada para lá das Colunas de Hércules, estruturada pela água, rica em metais, protegida pelo oceano e organizada segundo princípios de justiça e equilíbrio. Esta descrição não encontra paralelo mais consistente do que na civilização tartéssia, a única potência atlântica ocidental documentada pelas fontes clássicas.
Tartéssia desenvolveu-se de forma dual, com duas caras (?) entre o Atlântico e o Mediterrâneo, estruturada e articulada ao longo de grandes rios navegáveis, o Guadalquivir, o Guadiana, o Sado e o Tejo. Civilização que controlava os valiosos recursos minerais estratégicos, articulando redes agrícolas, piscatórias comerciais e rituais. Longe de ser uma periferia, o território do atual sul de Portugal constituiu uma frente atlântica essencial desta civilização dual, protegida pelo oceano e estruturada pela água doce.
Um modelo civilizacional antigo: de Salomão a Platão
O modelo de civilização descrito por Platão encontra um paralelo surpreendentemente claro nos salmos atribuídos ao rei Salomão. O Salmo 48, mostra-nos o poderio da civilização Tartéssia. Mostra-nos a existência de grandes navios mercantes (referindo-nos que as “naus de Társis” eram uma expressão para navios capazes de fazer longas viagens, independentemente do destino real) destruídos por uma tempestade para simbolizar a derrota dos inimigos de Deus.
O Salmo 72, texto de natureza religiosa e política apresenta-nos o poderio e o comparativo desta civilização com outras civilizações: “os reis de Társis e das ilhas trarão presentes; os reis de Sabá e de Sebá trarão tributos”
Este versículo sintetiza uma conceção antiga de poder: riqueza como fundamento da autoridade. É exatamente este o quadro descrito por Platão para a Atlântida e aquele que a arqueologia reconhece em Tartéssia. Não se trata de uma coincidência literária, mas de uma matriz cultural, oriunda do Mediterrâneo oriental e difundida através do comércio e da migração de ideias desde o antigo Crescente Fértil.
Tal como Platão adverte que a Atlântida caiu quando os seus governantes perderam a virtude e a medida, Salomão recorda que nenhuma civilização subsiste apenas pela técnica, pela riqueza ou pela força. A queda se é que houve, resulta sempre da rutura entre poder, ética e território.
Da pré-história ao romano: uma paisagem civilizacional contínua
O Sul do atual território português, abaixo do Mondego, apresenta uma continuidade de ocupação humana desde o Neolítico. A construção em terra e o megalitismo aqui existente não pode ser reduzido a antas, menires ou cromeleques e isolados dos seus conjuntos urbanos. Trata-se de paisagens culturais completas, integrando estruturas habitacionais, produtivas, rituais, simbólicas e outras. No âmbito das componentes pétreas há ainda a referenciar as cabanas, as grandes mós manuais, os açudes, muros para raspagem de peles e bancadas para tratamento das mesmas, fumeiros, galinheiros, lagares, templos e elementos de culto zoomórficos (como cavalo, toiro, golfinho, porco) e outros, e ainda tronos, mesas de sacrifício (as simples atuais bancas de matança em madeira), lagaretas, guardiões e outros. Podem-se visualizar em vários locais do Alentejo, em Pedrogão do Alentejo (concelho de Vidigueira) no Alqueva Rural Eco Camping, na Herdade do Pedrogão, na Herdade do Freixo do Meio (ambos no concelho de Montemor-o-Novo) e em todos os outros locais com vestígios certamente.
A recente identificação, em sítio classificado no Alqueva Rural Eco Camping, do primeiro lagar rupestre, romano, conhecido no sul de Portugal confirma a existência de uma economia agrícola estruturada, profundamente integrada no ritual e na organização comunitária, muito anterior à romanização. O mundo romano não apagou esta paisagem: reutilizou-a, adaptou-a e integrou-a.
Água, símbolos e poder
Tal como na Atlântida platónica, a água era o elemento estruturador da civilização tartéssia. Rios navegáveis permitiam alimentação, transporte, irrigação e defesa natural. Controlar os rios e os lagos era controlar o território. O Tejo, em particular, deve ser entendido como eixo atlântico estratégico, ligando o interior mineiro e agrícola ao oceano, num modelo que corresponde plenamente ao arquétipo descrito por Platão e por Salomão. O lago artificial de Pedrogão, no Rio Guadiana, também é digno da exuberância e particularidades desta cultura.
Os cultos ao touro e à serpente, documentados em locais como Beja e Serpa, e em Pedrogão do Alentejo, reforçam este quadro simbólico. O touro representa fertilidade, força, poder e abundância; a serpente, proteção, regeneração e ligação à terra. São símbolos universais, presentes tanto na tradição mediterrânica oriental como na narrativa atlante.
Património arqueológico: um bem finito e não renovável
A Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, consagra o património arqueológico como bem cultural de valor finito e não renovável, essencial para o conhecimento das origens do homem na Península Ibérica. Cada destruição representa uma perda irreversível de informação científica e histórica.
Este princípio articula-se com as grandes convenções internacionais de proteção do património cultural, sob a égide da UNESCO, do Conselho da Europa e do ICOMOS, que reconhecem a necessidade de inventariar, classificar e gestão integrada das paisagens arqueológicas, incluindo a arquitetura vernacular.
O protocolo IFAP – AG PDR 2020 – DGPC: uma resposta eficiente, tardia mas já ultrapassada
Após alguns anos de destruição quase maciça de património arqueológico em contexto agrícola, em 2017, foi assinado o Protocolo de Salvaguarda do Património Arqueológico entre o IFAP, a Autoridade de Gestão do Plano de Desenvolvimento Rural 2020 e a Direção Geral do Património Cultural. Este protocolo reconheceu finalmente a necessidade de articular os apoios agrícolas com a salvaguarda, o inventário e a avaliação patrimonial, corrigindo o erro de financiar com recursos públicos páginas de história. Está ultrapassada porque as ações agrícolas proliferam por territórios sem avaliações de impacte patrimonial, que as CCDRs devem exigir.
Um alerta ao presente passado e próximo
Apesar dos avanços, está-se oficialmente a inventariar e a classificar este património, mas teme-se que se cinja apenas aos cromeleques, antas e menhires. Pelo que o risco de destruição de património arqueológico (arquitetónico) mantém-se muito elevado. A expansão de grandes plantações de olivais intensivos, ou em sebe como foram rebatizados, e de outras culturas, agora a avançar para o norte alentejano, sem os necessários estudos de impacte ambiental e patrimonial. O mesmo ocorreu, e ocorre, fora dos perímetros de rega do Alqueva, sob gestão da EDIA.
Agricultores, técnicos e autoridades lidam hoje com um património sensível, frágil e irrepetível. Destruí-lo é comprometer o conhecimento do passado e empobrecer o futuro.
A Atlântida que existe
A Atlântida de Platão aparenta não ter sido uma ilha submersa mas uma realidade palpável no nosso território, onde a ultima expressão vivida parecem ser os Avieiros (atlantes que também navegavam em águas calmas interiores, acompanhando as migrações de populações de trabalho que se deslocavam às lezírias a quem davam apoio de fornecimento de alimento). Tartéssia, porém, existiu, e existe na paisagem, na pedra e nas memórias dos territórios. Como advertiam Platão e Salomão, nenhuma civilização sobrevive quando destrói os fundamentos que a sustentam.
Vidigueira
Assim, salvar a Atlântida, a Tartéssia, e a herança das componentes megalíticas como um todo, componentes que nos chegaram até hoje pelas suas características, a par das mobilizações de solos tão visíveis nas paisagens construídas, da vegetação, mas também da pecuária, é salvar a origem dessa nossa brilhante história civilizacional, que urge estudar, divulgar e colocar ao uso da civilização atual. Já se estrutura um bom campo de arqueologia experimental na Herdade do Freixo do Meio, um doutoramento no Sítio Arqueológico de Vale Poejos (CNS 40278 Vidigueira) e noutros três, onde está já instalado e em evolução um Micro-Museu privado, destacando-se o Projeto Doutoral do arqueólogo Marco Valente (projeto Ataegina) na Universidade de Évora, e as recentes apostas museológicas municipais, algumas outras dinâmicas particulares e o perfilar de investigação nas academias do Algarve, Évora, Coimbra e Lisboa, que já estão no terreno a colaborar neste trabalho.
José Vasco Serrano









