Teatro do Vestido estreia em Alcanena mais uma etapa da “Viagem a Portugal”

O projecto “Viagem a Portugal”, do Teatro do Vestido, traz ao Festival Materiais Diversos, que decorre desta sexta-feira, 27 de Setembro até 5 de Outubro em Minde, Alcanena e Cartaxo, “uma viagem afectiva, sentimental”, por locais da vila de Alcanena.

Resultado de uma residência artística desenvolvida ao longo do último ano em Alcanena e outras localidades da região, no âmbito da “Viagem a Portugal”, projecto que levou já o Teatro do Vestido ao Minho e à Figueira da Foz, e que culminará em Viseu, esta “paragem” no Festival Materiais Diversos resultou num espectáculo com apenas três récitas que se estreia sábado, às 19:00, no auditório do Sindicato dos Curtumes.

“Acabámos por compreender que a natureza deste projecto era ele ser único em cada local que nós vamos, que é uma coisa que artisticamente é muito desafiante e muito estimulante para nós e depois também acarreta um enorme sacrifício, de estar a criar sempre criações diferentes, mas na verdade é isso que os lugares nos pedem, os lugares em si, não são as pessoas dos lugares, o lugar em si, com as suas pessoas, com as suas histórias”, disse à Lusa a directora da companhia, Joana Craveiro.

O texto de Joana Craveiro para a peça foi criado a partir do que as pessoas de Alcanena, Moitas Vendas e Zibreira (Torres Novas) contaram durante o trabalho de campo, conversas que foram transcritas e que resultaram num ‘dossier’ que integra o cenário.

O espectáculo começa logo à entrada do auditório do Museu dos Curtumes de Alcanena, prossegue na sala e depois sai para a rua, passando por vários locais da vila, com um jantar pelo meio.

Com a “Viagem a Portugal”, de José Saramago, a pairar e o recurso a citações de Eduardo Galeano, o texto segue “pela estrada fora” a “escutar o pulsar do país”.

“Procuramos sempre fazer uma citação directa das conversas que tivemos com as pessoas e fazer também uma súmula de tantas histórias e de tantas camadas daquilo que nos foi contado”, trabalhando “nesta intercepção do pessoal e do colectivo e da autobiografia com a história do país”, disse.

“O nosso trabalho é muito sobre essas camadas. Não há ninguém com quem se fale que não acabe por contar ou referenciar a sua vida na relação com os acontecimentos históricos”, acrescentou.

No caso de Alcanena, os relatos, não forçosamente representativos de uma identidade local, deixaram transparecer uma “ligação profunda à história da vila e dos seus antepassados” e um “grande orgulho” na identificação como “vila republicana”, salientou.

Neste espectáculo, “há um ponto de partida” mais pessoal, a ligação de Joana Craveiro à Zibreira, onde ainda tem uma tia-avó, com 87 anos, uma história que aparece “como uma memória que parece que é um espectro que surge”, porque nem é da vila de Alcanena.

“A mim fez-me reflectir muito sobre o que é que é ter uma raiz, e o que é ter uma ligação a um lugar, até mesmo quando nós achamos que não temos essa ligação”, afirmou.

Dramaturga, actriz, performer, professora, também com uma licenciatura em antropologia, Joana Craveiro sublinha que a dramaturgia do Teatro do Vestido não é jornalismo nem história, embora possa ser “um bocadinho de historiografia”, documental sem que os factos sejam tratados como uma coisa estanque.

Sem pretender “ser as pessoas”, antes interpretando ou representando, muitas vezes parafraseando aquilo que elas disseram, a sua dramaturgia está “sempre à procura”, de “outras portas, outros questionamentos”, misturando “outros autores, outras histórias”.

“Interessa-nos às vezes diluir um bocadinho as pessoas com eles e elas e não dizer a sua identidade, há alguns que nós anonimizamos e alguns que pusemos outros nomes porque os próprios nos pediram e acaba tudo por ser um bocadinho um retrato universal ou no qual as pessoas particularmente podem-se rever em pequenas partes”.

“Às vezes entrevistei três horas uma pessoa e se calhar só está aqui uma frase que ela disse, mas foi muito importante aquela conversa, ela deu-nos matéria para que eu possa escrever muitas coisas sobre a memória, que o espectáculo também tem esse lado reflexivo”, disse.

O facto de o espectáculo durar três récitas, só, suscita “a natureza muito efémera destes projectos (ainda mais inserido num festival, que por natureza também é efémero)” e que decorre de um trabalho “que é feito para cada lugar”.

“Agora quero fazer um espectáculo no final disto tudo que seja a súmula de todas as coisas, mas nunca será isto que aqui fizemos, isto será como uma memória para quem vê”, não receptível, salientou.

O Festival Materiais Diversos, que celebra a sua 10.ª edição, arrancou hoje com a estreia nacional da performance “As Far as My Fingertips Take Me”, de Tânia El Khoury, e prossegue até 5 de Outubro com mais de 60 eventos agendados.

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