Os livros de Banda Desenhada do Texas Jack transformaram-me num leitor compulsivo. Há cinquenta anos, estes livros chegavam-me pelo correio e eu lembro-me de esperar, ansiosamente, pelo carteiro para ter o prazer de os folhear, mesmo antes de os ler. As mensagens escritas eram muito fortes e as imagens, a preto e branco, de um realismo impressionante. O tema era a guerra entre índios e cowboys (cáboys como lhe chamávamos), na altura em que os Estados Unidos da América fizeram a anexação das terras onde moravam gerações e gerações de populações indígenas, vulgarmente chamados de índios. E lembro-me bem de que, invariavelmente, estava do lado deles e ficava satisfeito quando os Sioux, os Apaches, os Shoshones ou os Cherokees ganhavam as batalhas aos cowboys americanos. A minha satisfação devia-se ao facto de considerar uma enorme injustiça alguns desenraizarem outros das suas terras, à força de tiros de espingardas e pistolas, não somente por um desejo expansionista, mas porque a ganância do ouro cegava os americanos.
As mensagens eram acompanhadas de uma parte desenhada a preto e branco, que eu achava tão bem desenhada que conseguia ver os verdes das pradarias, o vermelho do sangue que lhes escorria quando a seta do índio ou a pistola perfurava o corpo do inimigo. E as onomatopeias que enchiam os balões de fala e de pensamento – que exprimiam os esgares de dor, o ódio e a soberba – faziam-me pensar, ainda duma forma muito naïf, em temas talvez ainda avançados demais para a minha idade, mas que eu traduzira de forma simples, o que me permitia perceber o sentimento dos índios e estar do seu lado quase ao ponto em sonhar dormir naquelas tendas com eles, depois de ouvir as suas histórias à volta das enormes fogueiras. O que sentiria eu se me proibissem de ir dar um mergulho ao Tejo, o que sentiria eu se me dissessem que eu não poderia ir mais à minha Ribeira de Santarém, o que sentiria eu se me poluíssem o Tejo, impedindo me de beber da sua água, o que sentiria eu se me impedissem de estar em contacto com a natureza linda da minha terra, eram reflexões que tinha e, por isso, ficava contente quando a última página daquele fascículo era um índio com um escalpe na mão. Não que ficasse satisfeito com a violência, mas aquelas eram batalhas de matar ou morrer e, se assim era, que o índio continuasse nas suas terras, onde os seus tetra-avós haviam vivido e os seus bisnetos viveriam. E que os cowboys recuassem e parassem com as anexações e atentados à dignidade daqueles seres humanos apenas diferentes na cor da pele.
Tudo isto era uma fase – apenas uma fase menos boa – da vida coletiva por que passava a Humanidade, pensava. Uma fase de direitos humanos incipientes e sem direito internacional, em que vigorava a diplomacia da pistola que fazia parte da indumentária de xerifes que ditavam as leis, à lei da bala.
Em cada tempo, e em todos os tempos, houve visionários, homens uns passos à frente dos demais, homens que se imortalizaram pela presença perene das suas ideias e ideais.
Uma das personagens maiores desta época de barbárie – cujo desenho num dos fascículos do Texas Jack me fascinou pela pose serena e altiva de uma altivez humilde – era o Grande Chefe Sitting Bull, chefe dos Sioux. Prevendo o extermínio do seu povo, dividido entre isso e a venda das suas terras, e da sua honra, optou por mudar de armas, substituindo as flechas pelo carvão feito lápis, e escrever uma carta, de cariz lendário, ao presidente dos EUA, Franklin Pierce, que ficou na História.
Nessa “carta”, Tatanka Yatanka manifesta a desconfiança para com a ganância do homem branco perante a oferta de dinheiro para compra das suas terras, destacando que a terra é sagrada e o povo conecta-se com ela. Nela se destacam outras reflexões como a crítica à exploração da terra sem respeito, exaurindo os seus recursos.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. A terra não é sua irmã, nem sua amiga. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos.
“Quando a última árvore for cortada,
quando o último rio for poluído,
quando o último peixe for pescado,
aí sim eles verão que dinheiro não se come…”
A carta, que em bom rigor é a Carta do Cacique Seattle, Chief Seatlle, data de 1855, muitas luas depois, voltou a fazer sentido. A cena internacional recrudesceu-me o pensamento sobre proibições, anexações, pistolas e xerifes; e voltei a pensar se algum dinheiro pode comprar terras, ostracizando pessoas, e outras coisas que não têm preço.
Há apenas uma diferença significativa relativamente há um século atrás: as setas e os tiros de pistolas são agora misseis de longo alcance e bombas nucleares. A semelhança, inverosímil, é o regresso dos xerifes que tentam evangelizar o mundo do alto da sua ignorância, anexando, erguendo muros, invadindo, matando; exterminando, se necessário for. Aliás, nós, em Portugal, temos tanta coisa boa que temos de estar atentos a estas manobras de anexação. O anticiclone dos Açores que atua como um bloqueio meteorológico, crucial para o clima ameno da Península Ibérica, poderá ser reclamado e desviado, por artes mágicas, para proteger as terras do Tio Sam.
A imagem de hoje poderia ser de um novo livro de Banda Desenhada. Aguardo, como no passado, ansiosamente, por novos desenvolvimentos, esperando os fascículos que me vão chegar, autênticas cartas fechadas sobre um devir histórico imprevisível.
Tudo é possível acontecer, mas, uma vez mais quero ser positivo e acreditar que as imagens serão de entendimento entre cowboys e índios. Se os Sioux, os Apaches, os Shoshones ou os Cherokees dos tempos modernos se unirem, o poder dos menos poderosos impedirá que só os poderosos decidam a seu bel-prazer. Mas, para isso, como disse Winston Churchil, é inútil dizer “estamos a fazer o possível”; precisamos de fazer o que é necessário, para que o mundo seja de todos e um lugar aprazível para todos, digo eu.
