“Todo o teatro é de amadores, porque é uma coisa que se faz por amor”

Frederico Corado é o novo encenador e director artístico do Grupo de Teatro da Sociedade Recreativa Operária (SRO) de Santarém. Encenador profissional e detentor dum largo curriculum no teatro nacional, Frederico Corado é fascinado “desde o berço” pelo cinema e pelo teatro. Colaborou com Filipe La Féria, Graça Lobo, Maria do Céu Guerra, António Feio, João Pereira Bastos, Francisco Nicholson, entre outros, e fundou no Cartaxo a Área de Serviço – Associação Cultural.

Como é que o Frederico Corado vem parar à SRO?
O projecto de teatro já existia na Sociedade Recreativa Operária (SRO), coordenado pelo Carlos Oliveira (Chona), que continua ligado a este Grupo, que se chama ‘Os Cómicos’. Entretanto, a nova direcção contactou-me, para ver se eu podia, como se diz na gíria, vir dar uma mãozinha e eu, que já estava assoberbado com várias coisas, mas que não consigo dizer que não a iniciativas que têm a ver com teatro, acedi. Não consigo dizer não e a quem faz teatro por motivos altruístas, pelo prazer. Aqui, na SRO, são pessoas que fazem teatro pelo prazer e estavam, de certa forma, um pouco desamparadas. E eu disse que vinha, que podia vir dar uma mãozinha e cá estou.
Tenho o meu projecto no Cartaxo, tenho espectáculos no Casino de Lisboa, mas, dentro do meu limite de tempo, tenho todo o prazer de ajudar. Temos, aqui, um novo projecto que a mim me dá muito gozo em poder fazer avançar.

A questão do amadorismo no teatro é uma coisa que o seduz?
Sim, de facto. Aliás, todo o teatro é de amadores, porque é uma coisa que se faz por amor, todos temos um pouco de amadores, mesmo quando somos grandes profissionais. Todos fizemos teatro na sala de casa em miúdos, todos os grandes actores passaram por colectividades e associações, que apoiam os actores quando eles começam. O teatro dá tanto às pessoas que, sempre que podemos, devemos ajudar este tipo de iniciativas.

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Quantas pessoas estão envolvidas neste grupo?
Ao todo, somos cerca de 20 pessoas Grande parte são senhoras, com faixas etárias transversais, até aos 70.

Encenar toda esta gente é desafiante?
É. Sobretudo porque eu não os conheço ainda bem. Eu criei esta ideia da homenagem ao poeta António Botto [apresentada num jantar temático a 2 de Outubro] que foi feito propositadamente para eles. Tivemos uma conversa, sobre o que gostavam ou não de fazer, sobre as suas pretensões e fui criando uma coisa para eles, partindo dessa conversa. Esse é o lado mais complicado, quando se conhece as pessoas há pouco tempo e é preciso criar algo específico para eles. No Cartaxo já conheço os actores há muito tempo, aqui é mais complicado. Este é um trabalho de continuidade.

Como é fazer teatro em tempo de pandemia?
É muito complicado, é um desafio. Além de todos os outros desafios que já existiam, temos todos os novos desafios relativos à Covid… Temos a limitação de número de pessoas em sala. Aqui, especificamente, falamos de pessoas já com uma certa idade, em grupos de risco, e há toda uma preocupação acrescida. O teatro já é tão desafiante, na criação, no lado financeiro… para além de todos os desafios criativos há os desafios financeiros e agora estes desafios acrescidos.

Como avalia o teatro feito no País?
O teatro divide-se em várias áreas. Eu creio que o teatro podia estar melhor em algumas áreas e existem outras em que se desenvolve bem. Claro que, neste momento, há claras dificuldades. É muito difícil fazer teatro por uma questão financeira. Não há dinheiro para teatro, mas, a nível de panorama nacional, eu acho que há companhias a desenvolver um trabalho muito interessante. O dinheiro estatal é canalizado para certas áreas, porque há outras capazes de se financiar, o teatro mais popular é suposto ser capaz de se financiar. No entanto, não é essa a realidade. Esse teatro vai optando por caminhos mais fáceis. Há zonas onde o teatro está muito bem, ir mais longe, outras em que não consegue, onde se faz sempre a mesma coisa, e é uma pena.

O que ambiciona fazer na sua carreira como encenador?
Tanta coisa, fiz tão pouco ainda. Tenho muitas peças por encenar. Comecei a trabalhar com a UAU (uma empresa de entretenimento especializada na concepção, produção e agenciamento de espectáculos e produção de eventos) em Lisboa, e fiquei completamente apaixonado por trabalhar com eles, uma equipa de produção notável, um elenco extraordinário.
Tenho vários projectos que gostava de desenvolver com eles. Eu gosto de vários géneros de teatro e não me esgoto, quero tentar muita coisa.
Quero continuar o meu trabalho no cinema, tenho projectos para fazer filmes, séries, documentários, há muita coisa que quero fazer. Comecei a escrever um livro, um dicionário. Há muita coisa que quero fazer.

Do que conhece de Santarém, como avalia a relação da cidade com o teatro?
Eu dei uma entrevista há uns anos onde eu disse uma coisa, e depois ‘caíram-me’ em cima (risos) porque eu disse que Santarém era uma cidade culturalmente apagada. Nessa altura, o teatro Sá da Bandeira não estava com a actividade que tem hoje. Há algumas iniciativas em Santarém com algum interesse. Eu tenho uma imagem de Santarém um pouco diferente, eu vinha cá mais nos anos 80 com os meus pais. Era frequentador do festival de Cinema de Santarém onde o meu pai foi júri. E tinha uma imagem de Santarém muito dinâmica a nível cultural. E tenho pena que o não seja hoje…

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