Cerca de 20 trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes concentraram-se na terça-feira (5 de maio) à porta da instituição, denunciando o pagamento faseado de salários desde janeiro e admitindo avançar para greve se a situação não for regularizada.

A ação, que decorreu no exterior do lar da Misericórdia de Abrantes, foi convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas, tendo culminado na aprovação, por unanimidade, de uma moção que admite novas formas de luta, incluindo greve.

“Este é um grito de alerta dos trabalhadores”, afirmou à Lusa a dirigente sindical Teresa Faria, sublinhando que, desde o início do ano, os funcionários “chegam ao fim do mês e vêm metade do ordenado nas suas contas”.

Segundo a responsável, no final de abril foi pago “cerca de 55% do salário”, sendo o restante liquidado “uma semana ou duas depois”, situação que, disse, “tem vindo a agravar-se”, depois de inicialmente terem sido pagos cerca de 80% dos vencimentos.

“Há trabalhadores que ganham o salário mínimo e têm rendas para pagar no início do mês. Isto pode prejudicar bastante as famílias”, alertou.

Durante a concentração, Teresa Faria acusou a instituição de justificar os atrasos com falta de verbas, defendendo que “não pode ser fazer obras e depois os trabalhadores ficarem sem o ordenado”.

A dirigente sindical apontou ainda falhas na fiscalização, considerando que a Segurança Social “tem aqui um papel fundamental” para averiguar o funcionamento destas instituições.

A moção aprovada será enviada à União das Misericórdias, ao Ministério do Trabalho e à Segurança Social, tendo o sindicato admitido marcar uma greve caso a situação se mantenha.

“Se o ordenado não for pago por inteiro no fim do mês, uma greve vai ser marcada”, avisou, tendo alertado ainda para o atraso no pagamento de retroativos salariais desde janeiro.

Em declarações à Lusa, o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, João Pombo, reconheceu dificuldades financeiras, mas garantiu que a situação é temporária e está a ser resolvida.

“Não escondemos que estamos a atravessar uma fase complicada”, afirmou, apontando o aumento dos salários mínimos e a atualização das tabelas remuneratórias como fatores que agravaram os encargos.

Segundo o responsável, a instituição optou por pagar os salários de forma faseada, mas assegura que os montantes em falta são regularizados “ao fim de quatro a seis dias”.

João Pombo adiantou que a misericórdia aguarda ainda a atualização das comparticipações da Segurança Social e está a recorrer a um empréstimo bancário e à venda de património para reforçar a tesouraria.

O responsável apontou também o aumento dos custos operacionais como fator de pressão, referindo que a fatura mensal de gás subiu de cerca de 4.000 euros para mais de 5.300 euros, a par da subida dos combustíveis e de outras despesas correntes.

Segundo o provedor, o maior encargo da instituição continua a ser a massa salarial, que ascende a cerca de 2,7 milhões de euros anuais, num universo de 135 trabalhadores, tendo o orçamento previsto para 2026 aumentado face a anos anteriores devido à atualização de salários.

“Estamos a tomar medidas para ultrapassar esta situação e estabilizar a instituição”, afirmou, apontando ainda a entrada em funcionamento de um equipamento atualmente encerrado como forma de gerar receita e aliviar a pressão financeira.

O provedor admitiu, contudo, que a comunicação inicial com os trabalhadores “pode não ter sido a melhor”, garantindo que têm sido realizadas reuniões para explicar a situação.

A Santa Casa da Misericórdia de Abrantes conta com cerca de 135 trabalhadores e várias valências sociais, incluindo lar, centro de dia, apoio domiciliário e creche.

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