A igreja do Espírito Santo, matriz de Malhou, aldeia integrada na União de Freguesias de Malhou, Louriceira e Espinheiro, no Concelho de Alcanena, é um interessante monumento histórico-artístico que merece demorada visita.

Embora aquilo que hoje se admira seja já da fase da reconstrução de 1634 (época do valioso recheio de azulejaria polícroma, que se destaca para além da boa talha dourada barroca e de alguma imaginária sacra), a sua origem remete para os tempos da Reconquista cristã. Terra desde sempre ligada ao ofício dos ferreiros (o que justifica o seu topónimo), a aldeia teria sido designada, diz a tradição, por causa da passagem de D. Afonso Henriques em Março de 1147 quando o primeiro rei, nas vésperas da conquista de Santarém, terá sido acordado por um aio que lhe disse: ‘Levante-se vossa Alteza que o ferreiro daqui já malhou’. Verdade ou não, o facto é que a povoação assim se denomina desde épocas medievais muito remotas !

Embora não seja o elemento mais relevante do templo (artisticamente rico, como adiante se dirá), tem muito interesse olhar-se para uma das duas pias de água benta que existem, do lado da Epístola, pois ela nos oferece um verdadeiro enigma quanto à sua significação iconológica. Esta pia, de tosco lavor, é ainda da fase da reconstrução, ou seja, cerca de 1634 (a outra, de feição tradicional, é já do século XVIII).

A que nos interessa ladeia a porta lateral da igreja, envolvida pelo revestimento de azulejaria de padronagem, e será ainda da época de reconstrução seiscentista. Com a sua tosca secção rectangular de fruste entalhe, a pia revela-se um singular caso histórico-artístico e iconográfico-iconológico pelo facto de nos oferecer na face principal uma misteriosa decoração insculturada que tem suscitado várias interpretações.

Entre as opiniões que registei, consta a hipótese de se tratar de um alaúde, ou seja, viola de jogral ou outro instrumento musical de cordas (o que seria extremamente curioso, se fosse verdade, por destacar o cariz de festividade do acto sacramental do baptismo). Em frutuosas conversas com o senhor pároco, padre Dionísio Leite, com o historiador de arte Dr. Jorge Gabriel Henriques, e com o Dr. Gabriel de Oliveira Feitor, edil no Município de Alcanena, elenquei outras hipóteses que já foram aventadas para explicar a inusitada decoração desta tosca pia: já se pensou numa custódia do Santíssimo Sacramento com a sua hóstia consagrada, de uma sanfona, de um hissope, de um jarro eucarístico, de um frasco para água benta, de uma ampulha de romeiro ligado às rotas de peregrinação jacobeia, da simbologia de uma prensa mística, ou, ainda, de um mero arado rural.

O escritor Mário Rui Silvestre, com quem entretanto discuti o assunto, opinou já num antigo artigo de opinião que se tratasse da estilização de um rodízio, por este ser, como se sabe, a peça que transforma a energia da água do rio no pão eucarístico, o que teria, assim, um elevado valor simbólico, acrescido do facto de o próprio D. Afonso V o ter transformado em seu emblema régio. Mais tarde, o mesmo autor aprofundou esta primeira opinião destacando no alto relevo «a sua significação alquímica» a partir da «representação de uma vara de lagar usada para esmagar a azeitona, através da pedra a que estava solidária em baixo, apertada em cima por um parafuso de madeira».

… À luz do que pude observar na recente visita à igreja, porém, penso que todas estas hipóteses são de infirmar e que se trata de uma significação muito mais simples. Trata-se apenas e só de um malho toscamente representado, assente sobre (ou encimando) uma bigorna ! Ou seja, o instrumento de trabalho do ofício de ferreiro. A sua presença na pia de água benta derivará do facto de ser a aldeia de Malhou, como bem se sabe, uma terra onde desde épocas imemoriais existiram muitos artesãos desse ofício, a ponto de o topónimo da aldeia se dever à sua presença.

Mas a igreja do Espírito Santo de Malhou tem muitas outras razões de estudo e que justificam visita mais atenta. Visitara-a, antes, para admirar certa escultura pétrea do início do século XVI que representa a Santíssima Trindade na forma de Trono da Graça e mostra, ao contrário de muitas das Trindades tardo-góticas de feição mais ou menos ‘popular’, abundantes na Diocese, uma certa maestria e erudição no seu lavor, que deixam adivinhar uma encomenda vultosa para a anterior igreja. Desta, restam também três painéis a óleo sobre madeira do fim do século XVI, de fraca pintura provincial, que representam São Vicente, São João Baptista e São Gregório Magno, o primeiro dos quais se expõe no Museu de Arte Sacra Diocesano em Santarém.

Mas é sobretudo o valioso espaço barroco que se destaca (e que justifica mesmo, diria, uma classificação oficial do templo no conjunto de igrejas da Diocese). A azulejaria de padronagem do segundo quartel do século XVII, valorizada pelo grande especialista João Miguel dos Santos Simões no seu monumental ‘corpus’ (Azulejaria em Portugal no Século XVII, FCG, 1971) como um dos bons exemplos de revestimento cerâmico seiscentista do Distrito de Santarém, merece toda a atenção, mesmo que parcialmente desmontado no silhar. O revestimento, de fabrico lisboeta, datará de cerca de 1634 e inclui um registo figurativo com a figura de São Sebastião. Um segundo registo, alusivo a Santo António de Lisboa, está reduzido aos restos de alguns painéis avulsos que mais tarde foram mal remontados na fachada, ladeando o portal.

O inventário artístico de Gustavo de Matos Sequeira (12949) deu pouca atenção aos cinco retábulos barrocos dos altares da igreja, que são especialmente interessantes no seu conjunto e nas suas especificidades. Datam de várias fases entre o fim do século XVII e o meado do século XVIII, marcadas pelo gosto do Barroco proselitista. O mais antigo é o retábulo-mor, patrocinado pelo padroado dos barões do Alviela, um dos quais, Sebastião Duarte de Alviela, foi cavaleiro da casa real e jaz no pavimento da capela-mor em campa datada de 1664. A um dos seus descendentes coube, por certo, a encomenda dessa obra de talha, de ‘Estilo Nacional’, de cerca de 1700, obra que revela similitudes de estilo com alguns retábulos coevos nas igrejas de Torres Novas (Salvador, São Pedro e São Tiago), podendo mesmo ser obra da oficina do mestre Manuel da Silva, responsável por tais empreitadas torrejanas e, também, por uma intervenção na famosa Capela Dourada de Santarém.

Quanto ao altar lateral direito, de ‘Estilo Joanino’, inclui uma imagem em madeira pintada e estofada do titular, São José, representado de botas altas, peça de bom lavor escultórico. A data de 1714 no cruzeiro pode corresponder a uma segunda fase da retabulística da igreja. Acresce a estes acervos, ainda, o tecto de caixotões da nave da igreja, com cinquenta painéis de brutesco, e ainda, por certo já posterior ao terramoto de 1755, o vistoso ‘stucco’ do tecto da capela-mor e do arco do triunfo, que remete para outras decorações de estuque, rococó e neoclássico, da zona de Alcanede.

Em suma, trata-se de uma das boas igrejas da Diocese de Santarém que se estimam pelo aparato barroco dos seus acervos e que, como tal, justificam visita atenta e, mais ainda, cabal classificação.

Nota: agradeço ao Dr. Jorge Gabriel Henriques a sugestão de estudo que me levou a revisitar agora a igreja, bem como aos senhores Dr. Gabriel Feitor, vereador da Câmara Municipal de Alcanena, Dr. Luís Duarte Melo, Mário Rui Silvestre, padre Tiago Moita e, em especial, ao pároco de Malhou, padre Dionísio Leite, pela inestimável atenção e apoio.

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