A próxima abertura de um Museu de Arqueologia instalado em ampla dependência lateral da igreja matriz de Nossa Senhora da Purificação de Alcanede só pode mesmo constituir razão de elogio e justificar referências de parangona: trata-se de uma mais-valia cultural, que enriquece a região dotando-a de um novo pólo de visita. Além de contribuir para valorizar um património histórico-artístico que era, no caso, praticamente desconhecido, o núcleo arqueológico vem aduzir-lhe novos saberes, pois se trata de mostrar ao público uma série de peças de lapidária medieval e moderna que foram, na sua maioria, achadas em campanhas arqueológicas realizadas durante as recentes obras de conservação que o templo sofreu. 

É inestimável, naturalmente, o contributo que o núcleo museológico vem trazer para o conhecimento histórico regional e nacional, aspirando a atrair um turismo cultural qualificante.  Como se sabe, a vila de Alcanede foi fundada em 1163 por D. Afonso Henriques e instituída (desde então e até 1855) como sede de um próspero Concelho extinto no liberalismo, quando passou a integrar o Concelho de Santarém. Com a doação em 1211 por D. Afonso II aos freires de São Bento de Évora, o Castelo de Alcanede, com a vila e o seu vasto termo, passou a integrar os bens da poderosa Ordem de Avis, sob cuja tutela se manteve até 1789. 

Os saberes históricos, compulsados em trabalhos de referência como o do memorialista Simão Froes de Lemos no século XVIII e os do historiador Luís Duarte Melo em anos recentes, têm destacado a importância regional da vila e a qualidade do seu património edificado, tanto militar como religioso e civil. Não admira, por isso, que tantos vestígios de eras passadas ressurjam agora e possam ser condignamente expostos como uma espécie de livro aberto sobre um historial outrora florescente.

Apesar de adiada devido à imensa tragédia que, com a Depressão Kristin, se abateu sobre o nosso país, a abertura do Museu de Arqueologia de Alcanede é já um acontecimento que deve ser assinalado com encómio. Trata-se de projecto abraçado e viabilizado pelo Padre Tiago Moita, o historiador de arte que dirige a paróquia (e que, aliás, já merecera a atenção do anterior pároco, Padre António Vicente Gaspar, aquando das obras de intervenção que a igreja sofreu). Foi no âmbito dessas obras, com o devido enquadramento arqueológico, que muitas das peças agora expostas ressurgiram, desenterradas ou deslocadas para casario urbano da vila. Outras, localizadas em datas mais recentes, poderão vir a enriquecer em futuro próximo os depósitos do núcleo museológico.

A ideia de utilizar um espaço anexo à igreja matriz de Alcanede para criar este importante Museu de Arqueologia é, por todas estas razões, digna de encómio: nem tudo são más notícias, afinal, quando se fala de Património Histórico-Artístico! Neste acervo museológico se reúnem peças de lapidária, incluindo uma dúzia de cabeças de sepultura, peças de numismática da 1ª Dinastia e, com maior destaque, do reinado de D. Afonso V, e outras de intenção votiva ou militar (botões de fardas de soldados das guerras napoleónicas, por exemplo), peças de vivência doméstica, etc. Estes testemunhos, que se estendem da Pré-História ao século XIX, com incidência nas épocas medieval e moderna, tornam a selecção, organizada pelo Padre Tiago Moita, um exemplo de boas práticas no campo do património nacional. 

É especialmente notável, como se disse, o acervo de estelas medievais e modernas da antiga necrópole (séculos XIV a XVI), achadas em pesquisas arqueológicas no decurso de obras recentes, sendo de prever outros casos de peças deslocadas e possivelmente entaipadas noutros espaços urbanos da vila.

Entre estas estelas, avulta uma extraordinária cabeceira de sepultura com características do século XV avançado e com a raridade absoluta de ostentar, numa face, uma espécie de emblema representado por uma mão que segura uma espécie de cruz em árvore seca, simbolizando a Árvore da Vida, enquanto na outra face se releva em bons caracteres góticos uma raríssima identificação de defunto. Segundo uma consagrada especialista, a Doutora Filipa Avellar, pode ler-se com clareza o nome em referência: «V(asc)o marty(n)z Alqayde». Ou seja, a cabeceira de sepultura identifica um dos alcaides quatrocentistas da vila, com o seu nome inscrito em caracteres relevados na imaginária mandorla que acompanha a forma circular da estela.

A qualidade estética desta cabeceira, achada numa dependência da Junta de Freguesia e já brevemente assinalada em livro de Luís Duarte Melo, é deveras singular. Entre largas centenas de estelas medievais recenseadas e estudadas em todo o país por um grande especialista, o Prof. José Beleza Moreira, é raríssimo assinalarem-se exemplos onde a decoração não se restringe à cruz funerária (apresentada nas suas diversas formas tipológicas). Recordo, pela decoração verdadeiramente incomum, o caso excepcional de uma estela achada na antiga necrópole da igreja de São João das Lampas (Sintra) pelo arqueólogo José Cardim Ribeiro no início dos anos 80 do século passado, onde a face surge lavrada com um requintado programa de romãs, símbolos da unidade cristã, obra de um bom alvenel das primícias do século XVI com características gramaticais do naturalismo ‘manuelino’, o que permitiu a José Beleza Moreira uma fixação cronológica mais exacta. Também existem outros exemplos assinalados pelo mesmo especialista, como uma das estelas do Museu Municipal de Torres Vedras com um Cristo crucificado numa face e, no Convento de Cristo de Tomar, uma outra com instrumentos agrícolas relevados. Todavia, estas ‘estelas historiadas’, digamos assim, são casos muito menos frequentes. E mais o são no caso de conterem os nomes dos defuntos (registo que no Museu do Bombarral uma das estelas preserva a inscrição gótica ‘Aq(ui) jaz fernã gill’ e uma outra, mais rara ainda por incluir datação precisa, diz: ‘Aqui jaz maria da mota molher de Simã morejra… 1514’).

No caso da óptima cabeceira de sepultura de Alcanede, os estilemas mostrados no trabalho do seu anónimo escultor (ou ‘alvenel esculpidor’) apontam para data avançada do século XV. Segundo anotou Filipa Avellar, «a opção pela letra ‘q’ na palavra ‘Alqayde’ pode ter tido um intuito estético porque a haste descendente da letra permitiu realizar uma pequena decoração vegetalista que preencheu a parte inferior do campo epigráfico que de outra maneira ficaria vazia desequilibrado a composição». O labor é, de facto, cuidadoso e revela uma intenção iconográfica e iconológica bem definida pelo encomendante, tanto no simbolismo da Árvore Seca como na fina epigrafia com identidade do sepultado.   

Outra estela apresenta uma rosácea numa das faces e na outra duas aves encimando uma espécie de ferragem, o que foi interpretado por Beleza Moreira como um par de gansos, o que remeteria essa estela do séc. XV-XVI para algum sepultado de Gançaria, povoação que até 1985 integrou a freguesia de Alcanede quando foi desanexada e passou a ser a mais jovem freguesia do Concelho de Santarém. Creio, porém, que a identificação iconográfica não está fechada e pode tratar-se, sim, de um par de corvos, símbolos de São Vicente Mártir, o padroeiro do Reino. Mas podem também, segundo Luís Duarte Melo, e com maior dose de probabilidade, remeter para a heráldica da Ordem de Avis, donatária da vila (cruz de Avis e duas aves), sendo por isso tumulação de algum freire dessa ordem militar.

Outra peça rara do Museu Arqueológico em vias de inauguração já mereceu atenção em crónica anterior: a pedra votiva oriunda da capela de Nossa Senhora das Neves em Mata de Rei. A peça, em cujas quatro faces corre um texto latino de muito bom desenho epigráfico, é encimada por uma mutilada cabeça de difícil interpretação (mas que bem pode ser a da Virgem Maria). A lição epigráfica muito discutida por vários especialistas, aparenta ler-se assim: ‘Dai ouvidos ao céu… Escuta, vivo no Céu, rende-te!  (AVDI VEVO CELO CEDE)’. Ligada muito provavelmente ao culto local registado por Frei Agostinho de Santa Maria (1707) num dos tomos do ‘Santuário Mariano’, parece assinalar o sítio em que, em tempos arcanos, um caçador que deambulava pela serra contígua à aldeia alcanedense descobriu uma imagem de pedra de Nossa Senhora sobre um penedo. O achado miraculoso deu origem a uma rústica ermida e a um surto devocional que, após várias interrupções, prossegue nesse lugar sempre no primeiro domingo de Janeiro. No início do século XVII, com o crescimento do culto, construiu-se capela maior no coração da aldeia, onde se venera a imagem tardo-gótica da Senhora, vinda da serra. Imagino que a peça epigrafada se tenha mudado então para a actual capela de Mata de Rei. A peça ligar-se-á, assim, ao culto da Senhora das Neves (muito raro em terras portuguesas!), como o texto latino parece indicar, podendo tratar-se de parte de um pequeno memorial referenciando o sítio do achado da imagem mariana. 

A abertura do Museu Arqueológico de Alcanede é mesmo uma boa notícia. Vem oferecer aos visitantes e investigadores alguns ‘casos de estudo’ que merecem atenção. Constitui, em suma, mais um elemento-chamariz de oferta cultural no Concelho de Santarém com várias peças do maior interesse arqueológico e histórico-artístico. 

NOTA: cf. José Beleza Moreira, Cabeceiras de Sepultura do Museu de Torres Vedras, CMTV, 1982; idem, Cabeceiras de sepultura em Portugal, Lisboa, Abel Edições, 2019; Simão Froes de Lemos, Noticia Historica e Topographica da Villa de Alcanede, manuscrito de 1726, publicado com transcrição, apresentação e notas de José Raimundo Noras, Santarém, CIJVS, 2017; Luís Duarte Melo, Crónica da Igreja de Alcanede, Alcanede, 2022; e Vítor Serrão, «Pedra com falares: a misteriosa pedra epigráfica da aldeia de Mata do Rei (Alcanede)», Correio do Ribatejo de 7 de Março de 2025.

Uma palavra final de agradecimento pelas úteis informações, comunicação de dados ou conversas frutuosas, ao Padre Doutor Tiago Moita, ao Doutor José Beleza Moreira, ao Dr. Luís Duarte Melo, à Doutora Filipa Avellar, ao Padre Vicente Gaspar, ao Dr. José Cardim Ribeiro, ao Dr. Aurélio Lopes e, ainda, aos Drs. Nelson Borges e Célia Silva, envolvidos nas campanhas arqueológicas durante as obras de restauro da igreja.

 

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