Fachada renascentista da igreja do Santíssimo Milagre

A igreja de Santo Estêvão, vulgarmente chamada do Santíssimo Milagre, é sem dúvida uma das mais importantes de Santarém tanto em termos históricos como artísticos e devocionais. Sob este último aspecto, o Santuário de há muito se tornou um dos mais concorridos do país (é o maior, a seguir a Fátima, a fixar grandes romarias) devido à presença de surtos peregrinatórios oriundos de todo o Mundo e envolvendo, ano após ano, centenas de milhares de pessoas.

Segundo o cronista santareno padre Luís Montês Matoso (1738), já em 1190 existe referência ao prior da igreja de Santo Estêvão, mas devem ter ocorrido obras nos anos seguintes, pois se sabe que em 16 de Fevereiro de 1241 se procedeu à sua sagração. O templo, que já nada preserva das suas origens medievais, pois sofreu total reconstrução após o terramoto de 1531, destaca-se pela altíssima qualidade da decoração escultórica renascentista que envolve o arco triunfal e o espaço da antiga ‘iconostase’, obras essas devidas à equipas dirigida pelo mestre escultor Diego de la Zarza (1540-1545), conforme à documentação já recenseada e que tem merecido espaços de análise por vários especialistas. 

Importa agora relembrar o fenómeno devocional suscitado pelo Santíssimo Milagre, ocorrido na vila em pleno século XIII (em 1247, ou em 1266, segundo rezam as fontes cronísticas) e que desde então foi alvo de intensa e ininterrupta veneração, tanto nacional como internacional. Como se sabe, trata-se de um milagre de tipo eucarístico, que se deveu, segundo é tradição, ao facto de numa casa na Travessa das Esteiras, junto à igreja de Santo Estêvão, viver uma pobre mulher a quem o marido muito maltratava. Por influência de uma bruxa que lhe recomendou certo feitiço, a mulher foi-se confessar e comungar à igreja e roubou, furtivamente, a Hóstia consagrada, embrulhando-a no véu. Diz a lenda que logo começou a escorrer sangue do regaço onde a escondera, e que a mulher, para ocultar o furto, encerrou a partícula consagrada numa arca antes de a entregar à bruxa. Mas à noite a mulher e o seu marido foram despertos por uma atmosfera resplandescente que envolvia a arca de onde brotavam mil raios luminosos e era audível um melodioso coro de anjos. De manhã, o casal (alegadamente reconciliado face ao acto sobrenatural a que assistiam) foi informar o pároco daquilo que sucedera, e meia Santarém acorreu para acompanhar a procissão que levou a Hóstia ensanguentada de volta à igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro de uma âmbula de cristal numa espécie de custódia feita de cera. 

Marcos da Cruz, Milagre Eucarístico de Billets em 1290 Tela de c. 1660 da igreja de Bucelas

Como se sabe (e foi já tema de outra crónica) expõem-se quatro grandes telas a óleo nas paredes laterais da igreja, as quais narram os passos deste famoso Milagre da Rua das Esteiras. São uma oferta mecenática de Maria Pinta de Gouveia, rica devota da vila, e foram executadas em 1646 pelo pintor santareno Miguel Figueira (c. 1620-pós-1690), o mesmo que por esses anos andava a pintar a têmpera os arcos, frisos, colunas e entablamento do arco triunfal (restam ainda, em parte, essas decorações de brutesco). 

O impacto do milagre de Santarém desde cedo atraíu as principais figuras do Reino, caso da Rainha Santa Isabel que, a caminho de Coimbra, veio a Santarém admirar o prodígio e promover uma procissão de preces, onde teria acompanhado a relíquia descalça e com baraço, a fim de pacificar as discórdias entre D. Dinis e seu filho D. Afonso. Muito mais tarde, em 1664, também D. Afonso VI visitou a igreja do Santíssimo Milagre e deslocou-se também ao Mosteiro de São Domingos, onde era tradição guardar-se a toalha, manchada der sangue, que envolvera a Hóstia Consagrada após o furto. Outros foram os monarcas portugueses e personalidades ilustres a visitar Santarém por causa desta devoção multissecular em torno da relíquia eucarística. Nessa altura, é erguida no local onde alegadamente ocorrera o milagre, por iniciativa do médico Dr. Manuel dos Reis Tavares e sua mulher Margarida César de Almeida, uma pequena capela como memorial do sucesso, Neste caso, os doadores julgaram ser 1266 a data certa do milagre, que assim perpetuavam com a construção da ermida, quatro séculos volvidos…

Independentemente de a cronologia do Santíssimo Milagre de Santarém se poder fixar em 1247, a crer em Pedro de Mariz, Jorge Cardoso e outras fontes seiscentistas credíveis, ou em 1266, segundo outra hipótese cronológica, é de destacar o facto de que, sendo de todos os modos anterior a 1290, quase de certeza inspirou outro sucesso francês muito parecido: o milagre de Billetes, ocorrido nesta data em Paris ! 

Duas das telas do pintor Miguel Figueira, de 1646, com a História do Santíssimo Milagre de Santarém

Esse milagre parisiense também envolveu o roubo da Hóstia consagrada por parte de uma mulher pobre e endividada, sendo o furto, neste caso, feito a pedido de um agiota judeu que depois quis destruír a Partícula com um martelo. Nesse momento, a sagrada partícula jorrou sangue para espanto dos presentes, dando força à hostilidade contra a comunidade judaica, acusada de profanação de hóstias. 

Esta história gerou, também, um impactante surto devocional que teve eco no nosso país, a crer no facto de existir, pelo menos, uma tela seiscentista que o representa. Por volta de 1660, o pintor lisboeta Marcos da Cruz (1600-1683) tratou este tema, raro na iconografia portuguesa, num muito bom quadro da igreja matriz de Bucelas. O quadro mostra, em pleno século XVII, o forte pendor catequético atingido por este tipo de narrações moralizantes. Era o tempo áureo da Contra-Reforma católica, a cuja propaganda serviam muito bem iconografias deste teor, aptas a sensibilizar largas massas de fiéis. Ademais, histórias assim podiam ser usadas como teses demonstrativas da fé, à luz dos cânones tridentinos do convencimento, reforçando a vigilância sobre minorias desalinhadas, como era o caso dos cristãos-novos, sempre o alvo maior da feroz repressão por parte das Inquisições.

Terá o milagre de Billetes de 1290 tomado inspiração no de Santarém, ao tempo muito conhecido além-fronteiras devido ao formidável surto devocional que logo criou por toda a Europa cristã ? Parece-me uma hipótese muito plausível, tratando-se, o sucesso de Santarém e o de Billetes (Paris), de dois dos maiores milagres eucarísticos de toda a Cristandade.

Por outro lado, sempre me intrigou a data e 1247 atribuída ao ‘milagre da Rua das Esteiras’ por autores do século XVII como Pedro de Mariz e o padre Jorge Cardoso. Ora nessa data passava precisamente um século sobre a conquista de Santarém por D. Afonso Henriques ! Será tentador, pois, ver-se no sucesso do Santíssimo Milagre uma espécie de consagração necessária da Reconquista cristã, fortalecendo os laços santarenos nessa saga militar. A ser assim, o milagre de Billetes podia ter sido «levado» para França por descendente dos cruzados envolvidos na tomada da vila ribatejana, e inspirar na sua pátria um surto devocional com idêntica força cultual. Seja como for, é de estranhar o facto de a representação da igreja de Bucelas seguir o milagre de Paris e não o de Santarém, o que só pode ser explicado por se integrar num cenário proselitista de inflamação dos devotos contra a ameaça dos judeus e demais círculos judaizantes, cenário esse não adaptável directamente ao caso do Milagre de Santarém…

Estas ligações luso-francesas apenas ajudam a reforçar o fortíssimo carácter simbólico de um grande «acontecimento» com quase oito séculos de História como é o Santíssimo Milagre da Rua das Esteiras.

Nota: sobre o milagre da Rua das Esteiras, cf. Padre Jorge Cardoso, Agiologio Luzitano, Lisboa, 1652; Padre Luís Montês Matoso, Santarem Ilustrada, 1738; Padre Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarem Edificada, 1740; Joaquim Veríssimo Serrão, Santarém História e Arte, C. M. de Santarém, 1959 (2ª ed. revista); Martinho Vicente Rodrigues, O «Santíssimo Milagre» de Santarém, Santarém, Santuário do Santíssimo Milagre, 2010 (nova reedição ao presente no prelo); Vítor Serrão, «O Santíssimo Milagre de Paris em 1290, o congénere milagre de Santarém, e uma tela seiscentista do pintor Marcos da Cruz», Correio do Ribatejo, 27 de Fevereiro de 2015; e idem, Santarém, Ed. Presença, 1990.

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