Vasco Vilaça cumpriu em Pontevedra o destino de se tornar campeão do Mundo de triatlo Elite, igualando, 19 anos depois, o feito da sua musa inspiradora no desporto, Vanessa Fernandes, campeã em 2007.
Aos 26 anos, o amadorense atingiu um dos maiores objetivos da carreira, pelo que agora pode focar-se totalmente na ambição de uma vida, no “sonho de criança”, ser coroado campeão olímpico, já em Los Angeles2028.
Foco não lhe falta, como testemunhou João Silva, o primeiro triatleta masculino luso com expressão internacional: “O Vasco é um competidor nato, eu quase o chamaria de ‘sniper’ do triatlo. Ele fixa um objetivo e não se desvia, mantém o foco absoluto nesse objetivo”.
Vasco Vilaça sempre deixou bem claro o seu modo de pensar, assumindo que o destino está invariavelmente nas suas mãos, a derrota é apenas responsabilidade sua e o adversário é puro combustível que o faz querer melhorar.
“Se falhar, falhei eu, e não tenho de ficar à espera que as coisas corram bem ou mal aos outros”, preconiza, e foi assim em Pontevedra: Vasco Vilaça foi segundo, atrás do detentor do título Matthew Hauser, que precisava de vencer e colocar cinco atletas entre si e Vilaça.
A ligação de Vasco Vilaça ao desporto começou aos três anos, quando foi para a ginástica, sendo que aos seis foi desafiado para fazer um duatlo e aos oito fez o primeiro triatlo, no Cartaxo, onde superou o medo de nadar em águas abertas, fora de pé.
Através da televisão, com a irmã Vera, que o acompanhava na atividade física, ficou maravilhado a ver Vanessa Fernandes ser vice-campeã olímpica em Pequim2008 e desejou poder imitá-la.
Em 2013, com 14 anos, os pais emigraram para a Suécia, onde continuou a treinar e a estudar, deixando para trás os amigos com os quais se aventurava a visitar casas abandonadas, mas mantendo o medo a tubarões e o desejo de um dia subir os Himalaias, algo que metaforicamente tem feito no triatlo.
Em 2018 ingressou em engenharia informática na Universidade de Linköping, um ano após ter sido vice-campeão do Mundo júnior, batido por Matthew Hauser, rival histórico que hoje destronou.
O primeiro êxito nas Elites surgiu aos 20 anos, quando em 2020 foi vice-campeão do mundo em prova única em tempo de covid-19, a somente dois segundos do francês Vincent Luis.
Esse resultado, recorda, foi “decisivo” para conquistar as condições que lhe permitiram dedicar-se somente ao triatlo, enquanto desfrutava de badminton, ténis de mesa e esqui.
Em 2022, conseguiu condições de excelência ao juntar-se a um grupo de treino em Girona, Espanha, com alguns dos melhores atletas e treinadores internacionais.
Foi aos Jogos Paris2024 apostado em lutar por uma medalha olímpica, acabou traído por uma indisposição derivada ao calor e à humidade, que se juntou a uma infeção gástrica por causa da sujidade das águas do Rio Sena. Mesmo com os planos “arruinados” foi quinto, logo seguido de Ricardo Batista.
Em 2025, três pratas e um bronze em etapas Mundiais levaram-no à finalíssima em segundo do ranking, mas acabou a superfinal em quinto e fechou a época em terceiro.
Este ano, ganhou em Samarcanda, Uzbequistão, estreando-se a vencer em Mundiais, e Alghero, Itália, onde Ricardo Batista foi terceiro, na primeira vez com dois portugueses num pódio: foi segundo em Quiberon, Hamburgo e Londres, chegando a Pontevedra a bastar-lhe o quinto lugar.
Hoje, numa prova em que contou com muito apoio do público, Vasco Vilaça foi segundo, numa prova em que no último segmento, o de corrida, se ‘bateu’ até ao fim com o australiano, e viu o seu compatriota Ricardo Batista ser quarto.
Confessa que não seria triatleta sem a inspiração de Vanessa Fernandes e deseja deixar igual legado, que um dia alguém possa igualmente dizer “eu também não estaria cá se não fosse o Vasco”.
Por tradição, antes das provas, Vasco Vilaça ouve o tema “We are the Champions”, mas, agora, essa canção imortalizada pelos Queen deixou de ser uma espécie de ritual de superstição para se tornar, definitivamente, uma profecia cumprida.
