Como declaração de interesses, quero dizer que o texto de hoje tem o apoio indispensável do jornalista Miguel Pinheiro, autor da biografia de Sá Carneiro, obra editada em 2010, depois de cinco anos de muito pesquisar documentos, recolher depoimentos, falar com familiares e ouvir até inimigos políticos, o que permitiu contribuir em muito para que ficássemos a conhecer, muito mais a fundo, quem foi este homem, figura central dos primeiros anos da então jovem democracia portuguesa.

Lembrei-me deste livro, porque encontrei ali muita similitude com o ambiente político que estamos a viver, quatro décadas depois. Em 1979, viviam-se os tempos dos sucessivos governos de iniciativa presidencial, mas era mais que evidente que Eanes acabaria por marcar eleições intercalares, pedido aliás feito há meses por Sá Carneiro, o que na realidade viria a acontecer. No VII congresso do PSD, em Julho, Sá Carneiro ouviu repetidos argumentos de que era insensato fazer um acordo com o CDS, deixando o PS de fora; que o partido estava a entrar numa aliança “fascista” e que o PPM e que os “reformadores” António Barreto, Medeiros Ferreira e Francisco Sousa Tavares, também admitiam entrar, mas só queriam um acordo com o PSD. Muito a custo, o congresso aceitou a coligação pré-eleitoral, mas com a condição de cada partido concorrer isoladamente, isto é, sem listas conjuntas. Só em Setembro desse ano e depois de perder as votações em dois conselhos nacionais, é que o líder do PSD conseguiu inverter esta posição, potencialmente suicida para as aspirações de vir a ganhar (sic).

Afinal, bastava fazer as contas: por causa das particularidades do sistema eleitoral português, os três partidos não chegariam à maioria absoluta separados, mas juntos, talvez fosse possível. Sá Carneiro mandou António Capucho, Carlos Macedo, Helena Roseta, Ângelo Correia e muitos outros, percorrerem o país com um mapa eleitoral e uma calculadora nas mãos, para convenceremos eleitores e até os militantes, do virtuosismo e da vantagem desta coligação. No fim do verão de 1979, a Aliança Democrática (nome inventado por Adelino Amaro da Costa e Pulido Valente) estava pronta. Governariam em união se vencessem, seriam oposição em união se perdessem.

Numa entrevista ao Expresso, Sá Carneiro foi, como sempre, directo: “Aqui não há volta a dar-lhe. Quem quer a mudança, vota em nós; quem quiser o que está vota no PS ou no PC”.

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Ora hoje, pelo que parece, a hipótese de uma coligação pré-eleitoral, que junte PSD – IL e CDS parece uma utopia, porque todos estão com urticária. Calculem que já se chama radical à Iniciativa Liberal (Pedro Nuno Santos em Aveiro) enquanto ele reclama para si um papel mais moderado e de pose governamental. Por outro lado, o CDS não quer ser apontado de ir arranjar uma barriga de aluguer só para voltar ao parlamento. Só olham para o umbigo próprio. No fundo, todos se esquecem do objectivo maior que a demissão de António Costa colocou nas mãos do centro e da direita. Têm de saber aproveitar esta possibilidade para alterar o rumo do nosso país, se é que acreditam naquilo que andam por aí a dizer.

A matemática tem essa grande virtude. Os seus resultados, não admitem contestação credível. São uma soma, um resultado final e ponto. Se aplicada agora, a velhinha máquina calculadora de Sá Carneiro ainda daria os mesmos resultados.

Em 2011 se PSD e CDS tivessem concorrido coligados, teriam tirado 3 deputados ao PS e 2 ao BE. Já nas legislativas de 2022 uma aliança PSD / IL / CDS teria conseguido mais 10 deputados, o que teria evitado a maioria absoluta do PS, que deu no que deu.

Ele há coisas que custa a entender, sobretudo quando os políticos andam de mão no peito a clamar que querem mudar Portugal. 

Mas querem mesmo senhores?… Se nem sabem fazer contas!!!! Aprendam com os mais velhos, os que deixaram os orgulhos pessoais de lado pelo nosso bem comum.

Irra!!! Até parecem que andam a gozar connosco…

Francisco Morgado

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