VÍDEO | Arte do bunho “corre mundo” pelas mãos de ‘Manecas’ Ferreira

Manuel Ferreira é um dos raros artesãos que fabrica mobiliário exclusivamente a partir do bunho. Hoje, são poucos os que exercem este ofício. É um trabalho duro e mal pago: só sobrevivem aqueles que realmente gostam e se entregam à arte. O profissional do bunho, o bunheiro, é hoje uma raridade.

xsSe contarmos os existentes, “não dá para encher uma mão”, começa por contar ao Correio do Ribatejo o artesão que se lançou nesta vida há mais de três décadas.

As mãos são, precisamente, há 31 anos, o seu principal instrumento de trabalho. É com elas que mede a “macheia” de bunho – uma erva parecida com o junco que cresce na margem dos rios – com que tece cada peça, que ata os caules num molho, que molda as curvas, que puxa com força a agulha e entrelaça as meadas até formar uma espécie de um tecido grosso e resistente. Dali há-de nascer um banco, uma cadeira, uma cesta ou qualquer outro objecto que a imaginação queira e a técnica permita.

Fomos encontra-lo num fim de tarde, na sua oficina, situada no antigo quartel da Cavalaria, de onde saiu o capitão Salgueiro Maia e a sua coluna militar em 25 de Abril de 74 para ajudar a derrubar a ditadura em Lisboa.
Manuel Ferreira acabara de chegar também da capital, onde participou no Summer Camp 2019 – Tecnologias de Cestaria Portuguesa, entre os dias 15 de Julho e 2 de Agosto, no Museu de Arte Popular.

Este “summer camp” foi uma iniciativa do Ministério da Cultura, que tem planos não só para programar mais actividades naquele espaço, em Belém, como também para reabrir o museu de forma permanente e lançar um programa de valorização das artes e ofícios tradicionais portugueses.
A iniciativa juntou cinco artesãos vindos de Viseu, Guarda, Santarém e Loulé, que ensinam técnicas ancestrais que foram aplicadas por estudantes em peças desenhadas por estes.

“Esta actividade consistiu em adaptar as técnicas tradicionais ao design actual, numa tentativa de preservar as nossas raízes e tradições”, explicou Manuel Ferreira.

Neste ‘campo de férias’, dez jovens estudantes de design e arquitectura de seis nacionalidades (cinco portugueses, e cinco internacionais – França, Bélgica, Chipre, Polónia e Itália) aprenderam técnicas de cestaria em vias de extinção e desenvolveram peças contemporâneas.

O artesão de Santarém trabalhou com a portuense Francisca Patrocínio, estudante de Escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade Porto, no desenvolvimento da peça “Quebra-Luz”, composta por bunho, fio e pedra.

Tratou-se de um trabalho inspirado na esteira tradicional, usada para dormir, mas com ‘nuances’ actuais, e que fez “grande sucesso” neste “summer camp, conforme nos transmitiu Manuel Ferreira.

“Esta colaboração de gerações entre estudantes de design, mentores e os mestres funcionou como uma partilha de conhecimentos e experiências, que permitiu valorizar esta arte”, declarou.

Em Setembro do ano passado, Manuel Ferreira já tinha embalado algum material, ferramentas e o seu inseparável “tanho” (pequeno banco redondo fabricado com bunho) e mandou-os para o porão do avião que o levaria a Veneza.

Durante uma semana, trocou a oficina de Santarém pelos holofotes da Homo Faber, na ilha de San Giorgio Maggiore. O artesão foi mostrar à Europa que arte é esta do bunho que, devidamente cortado e trabalhado, se transforma em peças de mobiliário ou cestaria.
Esteve na feira de artes e ofícios de excelência a fazer bancos e cadeiras de bunho perante o olhar ora curioso ora incrédulo de quem visitava a sala Best of Europe. “Foi uma experiência fantástica”, recordou.

“Trabalho pesado”
Estas técnicas ancestrais têm cativado o interesse crescente mas não há quem queira sujeitar-se a um “trabalho muito pesado para o corpo”, diz Manuel Ferreira.

Aos 64 anos e “à espera da reforma”, Manuel garante que já não consegue passar um dia inteiro sentado no seu “tanho”, nem tem a força que costumava ter: “Antes fazia dois bancos por dia, agora demoro dois dias para fazer um banco”, brinca.

Contudo, e sob o olhar atento da cadela Linda, Manuel trabalha todos os dias na oficina que partilha com outra artesã, Maria das Neves, que se dedica aos cestos e às malas.

Sobre a sua profissão, Manuel confessa que o que mais gosta é o facto de poder ser o seu próprio patrão: “posso fazer os meus horários e faço o que gosto”, declara, enquanto vai terminando o objecto em que está a trabalhar. Tratam-se de bases para tachos, em bunho, uma “invenção” que tem tido bastante procura.

Ao lado direito, coloca as pontas de bunho com que vai trabalhando. Ao esquerdo o “enchume” com que vai formando as “mãos-cheias”. À frente, um recipiente com água serve para manter, quer as pontas quer o enchume, borrifados e as mãos molhadas, o que vai facilitar o trabalho do alisar do bunho.

Manuel Ferreira estende as mãos para mostrar a pele gretada, os dedos grossos, as articulações salientes: “é um trabalho duro e não rende assim tanto”, lamenta. Actualmente, já não faz feiras, por não compensar. Trabalha por encomenda e trabalho não lhe tem faltado.

“Para começar, é preciso aprender, ter um espaço, ter os materiais, e depois trabalhar algum tempo até começar a ganhar algum dinheiro. E não é assim tão fácil. Os jovens preferem outros trabalhos”, diz.

Manuel é um bom exemplo de que os cursos de formação profissional ainda servem para alguma coisa. Foi após ter frequentado uma acção dessas que ganhou apego à arte.

Depois, foi aprendendo sozinho, ganhando destreza e jeito com a prática, pondo mãos à obra para ganhar o sustento de cada dia.

“Há 30 anos, éramos dez no curso do bunho e outros dez no curso de cestaria, agora só restamos nós. Os outros desistiram todos”, explica. Na região, só há mais um artesão que trabalha o bunho.

Manuel Ferreira veria, por isso, com bons olhos, a possibilidade de dar formações nesta área, garantindo que tem as portas da oficina abertas a quem queira aprender esta arte.

Plano Nacional do Saber Fazer Português
A iniciativa Summer Camp 2019 – Tecnologias de Cestaria Portuguesa, esteve inserida numa estratégia mais vasta do Governo que está apostado em criar o Plano Nacional do Saber Fazer Português, assente em quatro pilares: preservação, educação, capacitação e promoção.

“Hoje em dia, felizmente, as artes e ofícios deixaram de ser uma coisa rejeitada pelas novas gerações, já não têm problemas em trabalhar com as mãos”, refere a ministra da Cultura, Graça Fonseca, sublinhando que os jovens estão a redescobrir esse tipo de trabalho manual que além de ter uma componente de sustentabilidade (ligada à ecologia) pode também abrir possibilidades de negócio.

Para isso, o Ministério da Cultura, em parceria com a Fundação Michelangelo e com a colaboração da Fundação Ricardo Espírito Santo, começou por programar aquela iniciativa, ligada à cestaria.
Depois de se avaliar o sucesso deste “summer camp”, o passo seguinte é tornar este tipo de iniciativas mais regulares. Primeiro, há que conhecer artes e ofícios de Portugal, diz Graça Fonseca. Depois, há a componente da educação, com o passar do conhecimento.

Essa capacitação passa por “trabalhar junto das unidades de produção que existam e dos indivíduos que têm o saber”, o que será feito em colaboração com o Ministério do Trabalho e o Instituto de Formação Profissional.
Por fim, o último eixo prende-se com a promoção para chegar ao mercado nacional e internacional. “Estes produtos são gourmet e estão muito bem posicionados para o mercado do luxo mas também para um mercado ligado à sustentabilidade”, em ambos os casos podem ter um papel importante não só para a economia como para a promoção da imagem do país e para o turismo.

O que é o bunho
“O bunho ou buinha, é uma planta herbácea, da família das ciperáceas que se distingue das outras do mesmo género por ser uma planta vivaz. robusta, de caules solitários, roliços, muito compressíveis, de folhas inferiores reduzidas a bainhas e as superiores com limbo curto, espiguetas em antela e flores com perianto formado de sedas.

É espontânea em Portugal, é frequente nos pântanos e ribeiros sobretudo do centro e sul do país, sendo impossível o seu transplante e sementeira.
E utilizado nas salinas (Aveiro), para tapar as medas de sal protegendo-as contra a chuva. Depois de seco e preparado, tem a sua aplicação na indústria artesanal: fabrico de esteiras, mobiliário e objectos decorativos.

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