VÍDEO | “Se não dermos nada em troca àqueles que tudo dão, dificilmente teremos bombeiros”

Diamantino Duarte foi reeleito presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém (AHBVS). Esta candidatura, única, assume, assim, os destinos da instituição nos próximos três anos. Entre os objectivos apontados para este mandato estão a manutenção da actual estrutura de equipamentos de socorro e a preparação das comemorações dos 150 anos daquela que é a segunda associação humanitária de bombeiros voluntários mais antiga do País.

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O que é que o move como presidente desta Associação? Este ano, completo 26 anos como membro da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém (AHBVS), instituição que presido há 24. Não era minha intenção voltar a recandidatar-me ao cargo. Aliás, tinha comunicado esta decisão a todos os elementos e, inclusive, aos operacionais. Mas, atendendo a que ninguém – nenhum associado – apresentou, em tempo oportuno, uma lista, eu assumi essa responsabilidade. Precisamente porque sinto esse dever com esta casa e com os homens e mulheres que cá estão. E foi isso que fiz: evidentemente que quem está nesta casa aos que eu estou e que passou por um conjunto de situações e adversidades e as ultrapassou, tem a responsabilidade de não deixar, a qualquer momento a associação e é esse o compromisso que eu tenho. Enquanto eu puder, a AHBVS nunca deixará de ter os seus Órgãos Sociais eleitos. É evidente que, quando nos recandidatamos – e para quem, como eu, já tem estes anos todos de casa – há sempre motivos novos. E, nesse sentido, os grandes motivos que me levaram a apresentar uma lista aos Órgãos Sociais prendem-se, por um lado, como já referi, com a obrigação de não deixar a associação cair num vazio directivo e, por outro lado, porque, neste mandato, vai-se assinalar os 150 anos de vida desta associação. 150 anos de vida numa associação como esta – que é a segunda mais antiga do País – obriga a que pessoas com responsabilidade não pudessem deixar passar ao lado esta efeméride.

Quais são as prioridades para este mandato? Em termos de prioridades, temos claramente a operacionalidade do nosso corpo de bombeiros. Em primeiro lugar, é este o aspecto que tem que estar assegurado. E, depois, como já referi, temos a questão da celebração dos 150 anos. Queremos que esta efeméride seja assinalada de uma forma marcante, e que a cidade e o concelho e toda a comunidade se possa rever nesta celebração. Um dos primeiros actos já aconteceu com a nomeação do presidente da Comissão que terá essa missão. A escolha recaiu sobre Ludgero Mendes, actual secretário da direcção, que acolheu este desafio que lhe lancei. É uma pessoa com conhecimentos na área, que já foi presidente desta casa e com uma vida associativa sobejamente conhecida quer na cidade quer no País. A intenção é lançar, já em Dezembro próximo, o primeiro acto destas comemorações. Hoje, felizmente, somos considerados um corpo de bombeiros com um nível de operacionalidade muito bom. Temos muita gente nova, empenhada, e que, realmente, faz parte do corpo bombeiros. Esse é um trabalho que o corpo tem vindo a fazer e a nossa obrigação é manter este nível de operacionalidade e continuar a focar o nosso trabalho nas questões do socorro. Cada vez faremos menos transporte de doentes não urgentes. Queremos, efectivamente, estar vocacionados para o socorro. Estamos empenhados em que, finalmente, o INEM nos atribua um Posto de Emergência Médica (PEM), que se destina a dar resposta a emergências médicas pré-hospitalares, através de uma ambulância de socorro, disponibilizada pelo INEM, para responder aos pedidos de ajuda de quem liga para o 112. O trabalho que fazemos já como reserva INEM e o volume de trabalho e de ocorrências que temos a isso justifica. Portanto, estes são os grandes pilares daquilo que vai ser este mandato tendo sempre em atenção a boa saúde financeira da instituição.

Como está a situação financeira da Associação? Os apoios que têm dado à instituição são suficientes? O financiamento dado à associação é sustentável? A situação financeira da AHBVS está estável. Não temos contas a prazo no banco, mas também não temos dívidas. A associação terminou o exercício de 2019 com uma situação equilibrada e não temos dívidas a fornecedores. Estes resultados aparecem porque temos um grande rigor naquilo que se adquire e na forma como se adquire. Para além disso, não desperdiçamos recursos. Claro que também somos apoiados por algumas entidades e beneméritos, nomeadamente a Câmara de Santarém que, nos últimos três anos tem sido inexcedível. Estas casas não conseguem sobreviver sem os apoios das autarquias. É evidente que são também estas as entidades responsáveis pela protecção civil ao nível concelhio e têm que perceber isso. Mas, felizmente, nos últimos anos, tem sido possível manter e estreitar este diálogo.

Sentem-se, então, devidamente apoiados por parte da autarquia? A Câmara de Santarém fez um esforço, nos últimos anos, por forma a ajudar as associações. Isso tem de ser reconhecido. E é de louvar também, no último mandato, a forma como o presidente da Câmara e o comandante dos Bombeiros Municipais têm sabido trabalhar com as diferentes corporações de voluntários do concelho. Agora, se olharmos para o nível de serviço de socorro – e falo em relação estritamente a este aspecto – somos, a seguir aos Municipais, a corporação que, de longe, possui maior prontidão. Se calhar, por isso, deveríamos ter uma compensação, uma diferenciação positiva. E já tenho dito isto várias vezes, com toda a frontalidade e sem nenhum menosprezo por nenhum dos meus companheiros dos outros corpos de bombeiros

Defende o incentivo ao voluntariado, de modo a não só captar novos elementos como a criar condições para que eles permaneçam nas corporações de bombeiros? Há umas décadas envergar uma farda de bombeiro dava estatuto social e isso ajudava a atrair candidatos. Actualmente, o estatuto social é conseguido mais facilmente de outras formas e além disso os jovens passaram a ter outros interesses e isso, a par da falta de espírito de sacrifício, está a criar uma crise no recrutamento de novos voluntários em muitas corporações de bombeiros da região. Nesta casa, já passámos por diversas fases. Neste momento, temos um número de voluntários estável o seu trabalho é inexcedível. Estamos agora a iniciar mais uma escola, com 11 cadetes inscritos. Mas é evidente que, quer na região, quer no País, nem sempre as entidades responsáveis têm acompanhado em termos daquilo a que eu chamo de responsabilidade social, que é a de possibilitarem aos bombeiros algumas regalias e algum estatuto. Felizmente, nesta altura, as autarquias e a própria administração central começaram a perceber que esse é um dos seus papeis e uma das formas de continuarmos a ter voluntários e está em análise, nomeadamente em Santarém, um regulamento de benefícios para os bombeiros. Eu penso que é por aí o caminho: se não dermos nada em troca àqueles que tudo dão, dificilmente teremos bombeiros voluntários daqui a uns anos.

Como está, neste momento, a situação do transporte de doentes não urgentes? Aqui a prioridade é o socorro. Nesta casa, não fazemos transporte de doentes não urgentes para qualquer entidade abaixo do preço que está estabelecido em termos da portaria do Ministério da Saúde. Claro que ficamos em desvantagem em relação a alguns companheiros nossos que fazem o serviço abaixo do que está tabelado. Nós não o fazemos, até porque eu fui um dos que, na altura, mais se empenhou, enquanto presidente da Federação, nesta luta e, portanto, não poderia ser incoerente com esta posição. Os bombeiros existem para prestar socorro urgente em caso de incêndios ou acidentes, por exemplo. Não existem para fazer transporte de doentes não urgentes. O transporte de doentes apareceu por necessidade de gerar receitas, uma vez que, infelizmente, as entidades responsáveis não comparticipam nas despesas das associações com montantes suficientes para elas sobreviverem.

Na sua opinião, o que se passa no nosso país para, todos os anos, ‘se bater na mesma tecla’ relativamente ao combate de incêndios florestais? Existem, na minha opinião, dois factores essenciais. Temos de ser realistas e olhar o mundo que nos rodeia de uma forma mais atenta: por um lado, é fácil de observar que o clima está a mudar de uma forma acentuada. Não é por acaso que estamos a assistir à devastação que está a acontecer na Austrália. Ou que assistimos na Flórida, ou em Espanha…. Aquilo que o homem tem feito ao longo dos anos, em termos de acção sobre o clima, começa agora a dar os seus resultados. e é bom que todos nós percebamos que temos que mudar muitos dos nossos hábitos, paradigma e forma de viver. Por outro lado, e em termos nacionais, há um problema enorme relacionado com o abandono do mundo rural. Houve nas últimas décadas uma mudança abrupta nas zonas rurais, quer pelo envelhecimento das populações devido a uma migração acentuada, quer pelo abandono de vastas áreas anteriormente cultivadas, que deram lugar a matos e a florestas desordenadas. O lado negativo é não terem surgido actividades económicas que sejam sustentáveis tanto do ponto de vista económico, como ambiental. Perante este problema, de regiões vastas do país muito envelhecidas e empobrecidas, o Estado Português lançou legislação para limpeza de terrenos. É de facto importante limpar as áreas florestadas em torno das casas, mas faltou razoabilidade. A lei funciona para grandes propriedades, mas é ineficaz em zonas mais pequenas onde nem se sabe quem são os proprietários dos terrenos. O efeito deste tipo de actuação é empobrecer ainda mais populações já empobrecidas e tornar ainda menos atractivas as zonas rurais. Este é um problema complexo, mas inevitavelmente isso terá que tocar no problema da fragmentação da propriedade. Temos todos de fazer uma reflexão séria para, efectivamente, se investir na prevenção. Por exemplo, em vez de estarmos a subsidiar a electricidade que é produzida nas centrais de biomassa seria preferível o Estado assumir a limpeza das matas e fornecer a biomassa para isso. Muitas das vezes, as soluções encontradas vêm de gabinetes em Lisboa sem grande contacto com a realidade.

O corpo activo dos BVS é composto por quantos elementos? É um número suficiente face ao número de serviços que prestam? Neste momento, o corpo dos BVS é composto por 70 elementos efectivos. É um efectivo jovem, com uma média de idades que ronda os 25/30 anos, e que conta já com muitas mulheres nas suas fileiras. É um número que está perfeitamente dimensionado para dar resposta às necessidades de socorro à população do concelho.

O parque automóvel, de que dispõem neste momento, é suficiente? No que se refere a veículos de combate a incêndio, o nosso parque automóvel está muito bem equipado. Posso dizer que estou descansado relativamente à chamada época de fogos porque já fizemos toda a manutenção dos veículos e estão todas perfeitamente operacionais. Em termos de ambulâncias de socorro, são veículos que apresentam algum desgaste, porque os Km. são muitos. E, por isso, neste mandato, a nossa perspectiva é a de, já no próximo mês, trocar o motor de uma das nossas ambulâncias, uma vez que a célula está perfeitamente funcional. Temos também o compromisso, por parte da autarquia de nos subsidiar uma ambulância de socorro, para o próximo ano. E, além disso, temos a perspectiva de adquirirmos uma outra, a expensas da AHBVS.

A proximidade da comunidade às iniciativas da associação tem correspondido aos esforços nesse sentido? A instituição está perfeitamente voltada para a comunidade que serve. Inclusive as nossas instalações estão sempre de portas abertas para acolher iniciativas de vária ordem. Neste momento temos a funcionar, no nosso salão, diariamente, aulas de zumba. E isso trás cá muita gente. É uma casa sempre aberta e disposta a apoiar, no que pode. De resto, a comemoração dos 150 anos da associação será também uma oportunidade para reforçar esta ligação com a cidade e a comunidade que serve.


Os órgãos sociais da associação para o triénio 2020/2023 ficam assim definidos:

Assembleia Geral

Presidente – Hermínio Paiva Fernandes Martinho

Vice-presidente – Vitor Manuel Delgado Prata Leal

Secretário – António Manuel Simião Mendes

Conselho Fiscal

Presidente – Joaquim Alberto Pereira Serrão

Vice-presidente – António Ramiro Lopes Anjinho

Secretário – José António Silva Lima

Direção

Presidente – Diamantino Cordeiro Duarte

Vice-presidente – Custódio Alves Tomé

Secretário – Ludgero António Vieira Mendes

Tesoureiro – Rui Manuel Piedade Gomes Costa

Vogal – Mário Manuel Veiga Rodrigues

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