Willy Bya: “Já me sinto Ribatejano”

 

Willy Bya é autodidacta e gosta de exprimir os seus sentimentos através das formas, das cores e dos relevos fortes do desenho com a tinta da china. Aos 80 anos e com todo o tempo “à sua disposição”, Willy Bya dedica-se inteiramente à paixão pelas artes, em particular ao desenho, à caligrafia e à fotografia. Mais recentemente, retomou uma outra forma de expressão: a modelagem em papel, para a qual “bastam papel, cola e uma boa dose de paciência”.

Este tipo de modelismo foi muito popular no século XX, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando o papel era um dos poucos materiais que não tinham sua produção estritamente regulada.

A arte do papel modelado chegou a perder espaço para os kits de montagem em plástico, mas parece ganhar agora um novo impulso. Willy Bya desenhou e “construiu” uma pequena cidade, com casas, prédios, ruas, carros e sítios emblemáticos, como o Jornal Correio do Ribatejo. A obra inspira-se em Santarém, mas contém elementos de outras cidades, “tudo elaborado de forma artesanal e básica”, conforme conta. O nível de detalhe é grande e facilmente se poderá deduzir que isto não será tarefa para os impacientes. A obra, que demorou cerca de meio ano a estar concluída, está exposta na loja ‘A Arte e as Coisas’, de Paulo Baptista, na Rua Serpa Pinto, em Santarém, até meados de Janeiro. Depois, rumará a Alcanena e, quem sabe, à capital

Quando é que o Willy despertou para as artes?

Sempre, desde pequeno, me senti atraído pelas artes e pela expressão artística. Já desde os 10, 11 ou 12 anos, que fazia postais para vender… fiz, ao longo da minha vida várias incursões nas mais diversas formas artísticas. Cheguei até a fazer tapetes de arraiolos – não os verdadeiros, claro – mas aprendi os pontos. Depois, ganhei um gosto especial pelo desenho em tinta da china, nunca acrílico porque não tenho muito jeito para esse tipo de material.

Fez algum tipo de formação em belas-artes, ou é fundamentalmente um autodidacta?

Fiz dois anos de Academia, na Bélgica, o meu país natal. Depois, por razões familiares e também de saúde, decidi seguir outro rumo, embora tenha tido sempre curiosidade. Mas, efectivamente, em termos práticos, parei alguns anos. Só agora – depois da minha reforma – e de chegar a Portugal é que iniciei esta actividade mais a sério. Todo o meu tempo agora é meu e agora posso dedicar-me a esta que é a minha verdadeira paixão.

É na arte que se sente mais realizado?

Sem dúvida nenhuma! Sempre foi o que quis fazer, mas as oportunidades da vida não permitiram. Agora, felizmente, posso  fazer o que gosto e me dá prazer.

Porque decidiu vir para Portugal e porquê a escolha de Santarém?

Foi, na verdade, uma oportunidade de trabalho. Toda a minha vida (45 anos) fui podólogo e exerci aqui quatro anos antes de me aposentar. Gostei da cidade, fui ficando, e já estou em Santarém há 18 anos. Já me sinto ribatejano (risos) e tenho orgulho nisso.

Foi difícil a sua adaptação?

Não muito. Sinto-me perfeitamente em casa. Sou natural de Liège (parte francófona), na Bélgica, mas sinto que esta cidade tem mais a ver comigo. Estou rodeado de muitos amigos e fui sempre muito bem recebido. Todos os trabalhos que faço sobre Santarém, são, de certa forma, um agradecimento pelo acolhimento que recebi.

Como olha para a cidade?

Gosto imenso de Santarém. Claro que é como tudo: nada é perfeito, mas nós também não somos, podemos sempre criticar. A cidade já melhorou bastante nos últimos tempos… vai melhorando. Fiz muitas pinturas sobre a cidade. Há sempre algo mais para descobrir. Levantar a cabeça, olhar, ver as fachadas, há sempre coisas interessantes para ver.

Qual o tipo de trabalho ou técnica que mais gosta de utilizar?   

Um pouco de tudo… não gosto de ficar parado numa só arte, gosto de experimentar tudo. Há um tipo de trabalhos que me diz muito, que é a filigrana de papel, o ‘Quilling’ que é um tipo de arte que utiliza tiras de papel enroladas que são moldadas e depois coladas para criar desenhos variados. Temos que ser sempre irreverentes, não ficar parados.

Como surgiu a ideia do trabalho que tem na loja ‘A Arte e As Coisas? O que o inspirou?

Eu já tinha feito modelismo há anos atrás, antes de vir para Portugal. Tinha, inclusive, uma peça grande em casa. Mas deixei tudo lá. Depois, esqueci-me completamente. Há uns meses atrás, estava à procura na internet de uma informação e, por mero acaso, vi peças de modelismo. “Ah!, mas eu fiz isto e gostaria de voltar a fazer”, pensei e meti mãos à obra. Fiz algumas casas, falei com o Paulo [Baptista], e ele desafiou-me a fazer uma montra, uma coisa um pouco diferente. E foi assim.

Quanto tempo demorou a fazer esta peça?

Um pouco mais de cinco meses, trabalhando 4 ou 5 horas por dia. Visto assim não parece (risos), mas algumas casas demoram duas horas ou mais a fazer. Trabalho em k-line, um material leve e rígido. Depois, é preciso imprimir as fachadas das casas, dar forma aos carros e cortar, colar. Algumas peças demoram muito tempo, mas vou continuar.

É arepresentação de uma cidade?

Não propriamente de uma cidade específica, embora existam muitos “piscar de olhos” para Santarém. Há muitas peças relacionadas com a cidade, edifícios e referências, como ao Correio do Ribatejo… mas há também edifícios de Lisboa e de outros locais. Enfim, há um pouco de tudo nesta maquete.

Tem alguma peça que o tenha marcado por alguma razão?

Tenho várias, sobretudo retratos, que fiz em filigrana de papel. E aguarelas, também: algumas nunca vou vender, por exemplo as do meu gato (risos). Mas, na realidade, tenho poucas obras em casa… tenho peças espalhadas quase pelo mundo inteiro: nos Estados Unidos, na Alemanha, na Irlanda, Bélgica, França… Tudo o que faço é para oferecer. Vendo muito pouco.

Como faz a divulgação do seu trabalho?

Faço pouca divulgação. As pessoas que gostam e que sabem que eu faço trabalhos procuram-me e pedem-me uma peça. A maioria das vezes ofereço. Eu não faço isto para ganhar dinheiro. Faço mais pelo prazer e pelo prazer de partilhar. O resto não me importa muito.

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