O primeiro Festival de Gastronomia foi um sucesso, como bem atestam os 163 registos de imprensa que consegui recolher, com a preciosa ajuda da Ana Castelo, técnica da Biblioteca Municipal de Santarém. Já o Seminário de Gastronomia, não correu tão bem, sendo que uma das sessões teve que ser transformada em mesa redonda e uma outra não se realizou por falta de público.

Em todo o caso, ficou-nos a certeza de terem sido alcançados os seus principais objetivos, nomeadamente, no que diz respeito à defesa da gastronomia como expressão de cultura, tão rica e variada como outras, particularmente salientes num país como o nosso de microclimas, micro territórios, microculturas.

Neste aspeto, a presença do artesanato e da cultura popular / folclórica, em pé de igualdade com expressividades artísticas da contemporaneidade da época terão sido marcantes na consolidação destas ideias.

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Entre todos os participantes: promotores / organizadores, representantes das várias regiões, cozinheiros/as tasqueiros/as, artesãs e artesãos, gerou-se um clima de comunhão e partilha assinalável, o que levou Eduardo Leonardo a escrever no seu Jornal (de Notícias), em artigo publicado a 6 de novembro de 1881: “Escutámos louvores e elogios pela forma como os organizadores e gentes de Santarém receberam e acompanharam os elementos das embaixadas regionais.” Uma das moças que atendia num dos “stands” disse-nos: “- Eu até vinha apreensiva. Falaram-me que iria estar numa feira. Sabia lá como isto era. Afinal estou contente. As pessoas interessam-se e fazem perguntas. São educadas. Vou com pena de não ficar aqui mais tempo.”

É ainda da reportagem de Eduardo Leonardo que respigamos o seguinte: “Maria de Fátima da Delegação de Turismo de Ponta Delgada, confidenciou-nos do seu entusiasmo: – Eu julgava que no continente ninguém sabia o que eram os Açores. Mas enganei-me. É consolador. O interesse dos visitantes por saberem pormenores do nosso artesanato, do folclore, da nossa cozinha, da forma como somos e vivemos, está além, da expectativa. A organização foi muito boa, tanto mais que é a primeira vez que a fazem.”

De facto, todos os almoços e o jantar regionais esgotaram praticamente assim que os respetivos ingressos foram postos à venda, muito antes do início do certame e, portanto, de serem servidos no grande salão da Casa do Campino. E, como foi assinalado na imprensa, muitas pessoas puderam provar pela primeira vez, especialidades da gastronomia tradicional portuguesa, das muitas das várias regiões do país.

Nas tasquinhas, as provisões desenhadas para todo um certame de nove dias, esgotaram, após o primeiro fim de semana, pelo que a partir do terceiro dia do Festival (segunda-feira), se começou a assistir a uma verdadeira romaria de carros, com os quais se procurava garantir o abastecimento de produtos provenientes das diversas regiões.

Francisco Sampaio, presidente da Região de Turismo do Alto Minho, em momento de rescaldo, alertava para o facto de o Festival, (…) “tem a vantagem, entre outras de alertar para a urgência de se proceder à recolha de receitas culinárias regionais. Se tal se não fizer, irão sendo perdidas a pouco e pouco, porque morrem os detentores do segredo. Temos um manancial riquíssimo que muita gente desconhece. A industrialização tende a dar cabo do artesanato se não tivermos cuidado. E a receita de culinária de raízes populares, é artesanato. É um dever preservar todo o nosso património. Desde a doçaria conventual, até ao prato forte.”

É ainda Francisco Sampaio que na altura acrescentava: “Estas receitas têm que ser conhecidas do grande público e dos turistas, mas também dos profissionais de cozinha e doceiros.

É mais uma vez Eduardo Leonardo que, no texto antes citado, nos informa que Manuel Francisco Castanheira, chefe de cozinha do Hotel Alvor e que preparou a refeição do dia do Algarve, afirmou considerar “este aspeto abordado no Seminário de Gastronomia, como da maior importância até para a promoção turística.”

Na sua primeira edição, em 1981, nos seus nove dias, o Festival de Gastronomia serviu mais de 3500 refeições no grande salão da Casa do Campino e foi visitado por um número superior a vinte e quatro mil pessoas… Um enorme orgulho para todas e todos as/os escalabitanas/os.

Reflexos – Nuno Domingos

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