O ano de 2020 ficará marcado pelo início da pandemia de COVID-19 e suas consequências. Além do impacto severo na Saúde, na Economia e na forma como nos relacionamos, fica também um efeito menos evidente: o público assistiu em direto ao desenrolar da investigação científica sobre o vírus SARS-CoV-2, como a um reality show televisivo. De súbito, a investigação científica, tida como “bela, recatada e do lar”, apareceu aos olhos de todos com a sua verdadeira natureza: criativa e contraditória na formulação de hipóteses, útil mas falível na previsão de cenários, probabilística nos resultados, e feita por gente irrequieta, nem sempre concordante entre si.

Até 2020 a Ciência foi vista como os resumos dos jogos de futebol mostrados em compacto nos noticiários: um condensado de golos, jogadas emocionantes, lances polémicos. Os lances inconsequentes, as jogadas falhadas e os tempos de espera ficam de fora. Só em 2020 o público assistiu a um jogo completo no relvado da Ciência: os passes falhados, as táticas, as contradições entre jogadores, treinadores e dirigentes, as jogadas que deram em nada, e as jogadas que ficaram por fazer. A Ciência ganhou visibilidade e adquiriu estatuto de modalidade por completo.

Tal como no futebol, ou noutro desporto coletivo, a Ciência revelou-se também como um fiel de balança entre a competitividade individual de cada jogador e a necessidade de construir um bem coletivo. Apesar de cada jogador competir com outro para ser titular na equipa principal, o individualismo tem de ceder à necessidade de um bom jogo coletivo porque o sucesso é uma construção da equipa. Em Ciência é assim também: uma atividade extremamente competitiva para cada uma das pessoas e instituições que a faz mas aos problemas de todos, como uma pandemia, por exemplo, tem de corresponder uma solução de todos. Só assim seremos bem sucedidos a derrotar a pandemia. E na Ciência, como no futebol, uma verdade é indesmentível: o jogo só acaba no fim.

Miguel Castanho – Investigador em Bioquímica

Leia também...

40 Anos do Festival Nacional de Gastronomia: O Melo Lapa

Seriam seis da tarde daquela véspera do dia da abertura do segundo Festival de Gastronomia, quando alguém me veio dizer que estava lá fora…

40 Anos do Festival Nacional de Gastronomia: No rescaldo do 1º Festival

O primeiro Festival de Gastronomia foi um sucesso, como bem atestam os 163 registos de imprensa que consegui recolher, com a preciosa ajuda da…

Celestino Graça – Passado, Presente e Futuro!

Cumpriu-se no domingo, dia 9 de Janeiro, cento e oito anos sobre a data de nascimento de Celestino Graça – um Homem de excelsas…

A Contradança do Malaqueijo

Anualmente Malaqueijo cumpre a mais que centenária tradição da “Contradança”, uma original dança praticada espontaneamente por ocasião dos tradicionais festejos em honra de São…