DAVID DIAS – VICE-PRESIDENTE DA ACES

As tradicionais campanhas natalícias ganharam, este ano, maior relevância face a anos anteriores. A promoção e dinamização do comércio local assim o exigiram, pela necessidade urgente de incentivo ao consumo e apoio aos pequenos negócios, bastante fustigados pelas medidas adoptadas no combate à pandemia de covid-19. De norte ao sul do País – e a região não foi excepção – os municípios, em parceria com as associações comerciais e empresariais, criaram incentivos para fazer compras de Natal no comércio local. Fizeram-no à base de vouchers, vales e sorteios, numa estratégia que serviu para colmatar os danos económicos da pandemia. O Correio do Ribatejo foi saber, junto de duas associações de comerciantes, a MovAlmeirim e a Associação Comercial, Empresarial e Serviços dos Concelhos de Santarém (ACES) que impactos tiveram estas campanhas promocionais nas vendas da quadra que representa cerca de 30 por cento da facturação anual do comércio tradicional.

Em termos gerais, que balanço é que a ACES faz da campanha desenvolvida durante o Natal?
A campanha de natal para a ACES, sempre representou um ponto alto no seu calendário associativo. Mas, pela conjuntura actual de pandemia, dedicamos uma atenção redobrada para este evento: logo no final do mês de Setembro, lançámos a campanha com a frase “Neste Natal Compre Local”, com o único objectivo de aumentar a sensibilidade da nossa comunidade para com comerciantes e empresários locais.
No seu término, a 6 de Janeiro, o balanço desta campanha foi muito positivo, pois vimos a comunidade a responder de forma activa e envolvida no dia-a-dia da cidade, a fazer as suas compras no comércio local. A campanha de Natal ocorreu nos diversos concelhos onde actuamos, e culminou, este ano, com a entrega de recompensas à sua comunidade, pelo facto de terem adquirido as suas prendas de Natal no comércio de proximidade. Esta recompensa traduziu-se no chamado ‘Sorteio de Natal’, no qual, este ano, tivemos o privilégio de ter diversos prémios para sortear, desde uma estadia de sete noites, para duas pessoas, nas Maldivas, a três fins-de-semana em território nacional, bem como três cabazes de Ano Novo.
As actividades realizadas foram diversas, sempre com o objectivo de animar e relembrar a comunidade a circular e visitar as ruas das cidades e vilas. Tivemos, como exemplo, o projecto de “Contos de Natal”, Acções de Sensibilização, e campanhas digitais e físicas na promoção da campanha “Neste Natal Compre Local”. A campanha só foi possível, com o apoio dos nossos associados e foi reforçada com os diversos apoios que obtivemos, nomeadamente das autarquias e patrocinadores privados. E aproveito para deixar aqui um agradecimento especial às instituições que apoiaram o projecto, nomeadamente a Câmara Municipal de Santarém, Viver Santarém, a Águas de Santarém e União de Freguesias de Santarém, bem como, às organizações privadas como, Fitness Factory, Ecoboo Maldives, Aníbal Carvalho e Filhos, Visão Valor, entre outras.

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Qual é o feedback dos vossos associados?
Os nossos associados partilharam connosco uma resposta muito positiva à campanha promovida pela associação. Acho que se sentiram envolvidos e mostraram que, em tempo de crise, o movimento associativo está vivo, uma vez que todos eles contribuíram para esta campanha de Natal. O resultado foi um “balão de oxigénio” para os comerciantes e empresários, em termos financeiros, bem como em termos de motivação para continuar, apresar das diversas dificuldades, que todos atravessam.

A quadra serviu, então, de ‘balão de oxigénio’ para os empresários?
Um redondo “Sim”: acho que, se a campanha de Natal não tivesse tido um resultado positivo, hoje teríamos uma dificuldade acrescida. Muitas empresas só sobreviveram devido a este balão, mas o futuro ainda não está claro como, por exemplo, o fim das moratórias em Setembro. É um sinal, que o caminho vai ser bastante longo e difícil. Mas, desde já, quero deixar claro que podem contar com ajuda do movimento associativo, em particular a ACES, que sempre estará, lado a lado, para enfrentar as dificuldades que se avizinham, como, por exemplo, o próximo confinamento geral, em que, partilhamos em tempo real, todas as medidas de apoio prestadas pelo poder governativo.

Desde o início da pandemia, a actividade económica em Portugal e a confiança das pessoas registou uma acentuada quebra. Como estão as empresas da região a enfrentar esta paralisação da economia?
A empresas deram uma das respostas assertivas na questão pandémica: apostaram forte na sua digitalização. Pelo facto de estarmos a atravessar esta crise, os empresários e comerciantes voltaram-se para o on-line, como resposta à visibilidade dos seus produtos, à forma de venda e entrega em casa dos mesmos. O que levou a um grande investimento por parte das empresas na conversão para o on-line. A ACES, estando consciente que este seria um passo muito importante, logo em Março de 2020, desenhou um programa de apoio à digitalização das empresas, intitulado “CONFORT-E”, um consórcio entre a Mazars e a Consulset e a ACES. Conseguimos, em tempo real, reunir apoios privados para a sua execução e tivemos a oportunidade de apresentar a todos os municípios o programa de apoio para obtenção de mais financiamento, no qual, e até ao momento, não tivemos respostas. Deixando aqui uma mensagem clara, que nós estamos atentos à realidade e queremos apresentar soluções que iram ajudar as empresas a enfrentar esta crise pandémica.

Já é possível à associação fazer um balanço do impacto da pandemia covid-19 no tecido empresarial da região, nomeadamente no comércio, restauração e alojamento turístico?
A ACES já tem um balanço muito negativo relativo a pandemia de covid-19, visto que perdeu diversos associados, pelo facto de muitos deles terem encerrado de vez as portas. Isto é: perante estas dificuldades colossais que muitas empresas enfrentaram, mandaram a toalha ao chão, e fecharam as portas. As reservas financeiras que possuíam, agora, neste momento, estão esgotadas. O que irá levar a um desfecho muito mais negativo, com este novo confinamento, que se avizinha. Temos de ter respostas claras de apoio por parte no poder governativo e autárquico, se não, muitas mais empresas que conseguiram enfrentar o primeiro confinamento, não vão conseguir superar esta nova barreira.

As sucessivas medidas de apoio do Governo têm sido adequadas, no tempo e na sua expressão qualitativa e quantitativa?
Nós sabemos que esta situação é nova para todos, mas achamos que podiam ir mais longe nas medidas de apoio. Temos de passar uma mensagem clara de apoio financeiro à tesouraria das empresas. Por outro lado, os fundos de apoio devem ter uma percentagem grande a fundo perdido. Só assim podemos ultrapassar esta barreira, bem como, reanimar a economia local e nacional.

E da parte do Município? O que tem sido feito foi o possível ou há outras medidas que possam considerar tendo em vista o prolongamento dos impactos económicos da pandemia?
Numa guerra como esta, as lideranças são muito importantes, pois todas as acções dependem de um sentido de comunidade e união. Com as autarquias, mostramos sempre a nossa disponibilidade para ajudar a encontrar as soluções adequadas às diversas situações com as quais a pandemia nos confronta.
Agora, na nossa opinião, devia existir uma maior coordenação na área económica, na execução de como, por exemplo, propostas como o CONFORT (da qual já falei) e no apoio à digitalização, e na dinamização económica dos concelhos. Uma maior coordenação entre concelhos vizinhos por forma a unir esforço e ter respostas mais assertivas à crise também seria expectável.

E que medidas a associação tomou no apoio aos sócios? Fizeram algum apoio específico ao sector da restauração?
Desde o primeiro confinamento, em Março último, uma solução implementada foi a construção de um directório de empresas, por forma a dar a visibilidade aos nossos associados que não tinham presença no on-line. Este directório foi importante, porque reunimos todos os dados das empresas, como, exemplo, número de telefone, email, redes sociais e colocamos disponíveis para que os clientes habituais pudessem requisitar os seus serviços e falar directamente com o seus comerciantes e empresários habituais.
Este directório não foi exclusivo para os associados da ACES: numa visão de união e sentido de comunidade, foi aberto para todos os comerciante e empresários pudessem aderir.

É possível antever 2021? Estima-se a recuperação económica a partir de quando?
Sabemos, desde já, que a recuperação económica levará no mínimo dois a três anos para voltarmos ao período homólogo do ano 2019…

Por vezes, estas situações de crise económica exigem novas respostas e apelam à criatividade. Que novos negócios e/ou produtos têm surgido desta situação?
Claro que nós somos um povo resiliente, somos constituídos pelo fado, pela sensibilidade de união e sentido de comunidade, e queremos acreditar que vamos encontrar – com a consciência nas dificuldades e com um “canivete de soluções” – as soluções adequadas aos problemas.
Também sabemos que são as crises que trazem formas de pensar e de actuar diferentes do período anterior, e acreditamos que muitos negócios se vão reeditar e outros vão florescer em negócios diferentes. É através desta superação, face a crise, que nós todos aqui estamos presentes hoje.

Quer deixar uma mensagem final para os associados?
A ACES já tem 146 de existência. É um dos movimentos associativos mais antigos do país. Já passou por duas guerras mundiais, uma ditadura, e está a passar a segunda pandemia. A mensagem, para todos os comerciantes e empresários, é que, se nós, no passado, já estivemos presentes para ajudar a ultrapassar as dificuldades, dizer que, hoje, estamos cá, no mesmo sítio a prestar o apoio necessário a todos vós. Como o nosso slogan diz: ‘Reconectar, Unir e Superar’.

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