Fernanda Narciso apresenta amanhã, dia 8 de Março, às 16h00, no Fórum Mário Viegas do Centro Cultural Regional de Santarém, a sua nova exposição, “Surpresa”, uma colecção composta por 18 telas e quatro instalações que revisitam o quotidiano e refletem sobre as incertezas do nosso tempo. 

A mostra pretende provocar reflexão sobre o papel da mulher na arte, prestando homenagem às artistas que, ao longo da história, tiveram de ocultar as suas identidades, assinando como homens para poderem expor os seus trabalhos. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, a artista fala sobre a nova exposição, a sua relação com a arte e a necessidade de um olhar mais atento sobre a realidade que nos rodeia.

A exposição “Surpresa” apresenta um olhar sobre a sociedade actual e as surpresas deste novo tempo. O que a motivou a explorar esta temática e de que forma as suas obras traduzem essa reflexão?

Sempre me interessou a capacidade que a arte tem de provocar. A vida é feita de surpresas, algumas boas, outras menos agradáveis, e este trabalho nasce da observação do mundo que me rodeia. Hoje vivemos tempos de grande incerteza, onde os contrastes entre o belo e o violento são cada vez mais evidentes. Na minha pintura, exploro essa dualidade, dando forma a uma realidade que oscila entre a esperança e a desilusão.

A exposição conta com 18 telas e quatro instalações. Como descreve a relação entre a sua arte e o quotidiano?

A arte tem a capacidade de revelar aquilo que muitas vezes passa despercebido. Como artistas, temos o privilégio de ver o invisível e de transformar esse olhar em expressão plástica. Os pequenos gestos, os olhares, os cheiros, tudo pode ser ponto de partida para uma obra. No meu trabalho, gosto de cruzar várias técnicas e materiais, criando uma ligação entre o abstracto e o figurativo, que dá voz às histórias que quero contar.

Esta exposição é também uma homenagem às mulheres artistas que, ao longo da história, tiveram de esconder as suas identidades para poderem expor. Como surgiu esta ideia e que impacto espera que tenha no público?

Foi uma coincidência feliz que a exposição ocorra no Dia da Mulher, mas serviu de mote para trazer à tona esta realidade. Durante séculos, muitas mulheres tiveram de se esconder por detrás de nomes masculinos para poderem criar e mostrar a sua arte. Esta invisibilidade ainda tem repercussões nos dias de hoje, e sinto que é importante dar-lhes voz através do meu trabalho. Espero que o público reflicta sobre isso e perceba que há muitas histórias por contar.

A arte tem sido frequentemente um espaço de resistência e questionamento. Acredita que a representação feminina na arte ainda precisa de avançar?

Sem dúvida. Embora tenhamos evoluído, ainda existem desigualdades gritantes no mundo da arte. A escrita já conseguiu avançar bastante, mas na pintura e na escultura ainda vemos uma predominância masculina. Nomes como Paula Rego e Graça Morais ajudaram a abrir caminho, mas o percurso está longe de estar concluído. É fundamental continuar a questionar e a reivindicar espaço.

Das obras que compõem “Surpresa”, há alguma que considere mais simbólica?

Cada obra tem um significado especial, mas destacaria uma instalação que aborda o problema da violência doméstica. Infelizmente, é um tema que continua actual e que precisa de ser debatido. Outra peça que me marcou foi um biombo revestido a cordões de algodão, onde pequenas figuras femininas de argila representam as mulheres que tiveram de se ocultar na história da arte.

Quais são os seus projectos futuros? Há mais exposições ou publicações em vista?

Quero continuar a explorar novos formatos e temas e a fazer com que as pessoas se questionem.

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