Igreja da Graça

Foi no coro alto da Igreja de São Francisco e nas fachadas da Igreja da Graça que o estilo de Afonso Domingues maturou e deu origem ao Mosteiro da Batalha. Pedro Redol, conservador do Mosteiro da Batalha e autor do livro ‘Afonso Domingues e a arquitectura do seu tempo’, explica ao Correio do Ribatejo como a Capital do Gótico serviu de laboratório a uma das figuras maiores da arquitectura portuguesa e europeia, revelando o homem por trás da lenda “A Abóbada” e as origens técnicas de um legado que se estende de Braga a Silves. 

Mestre Afonso Domingues

Ao percorrermos as ruas de Santarém, salta à vista um conjunto numeroso de igrejas conventuais góticas que fazem com que a cidade seja conhecida como a Capital do Gótico. Tais apelidações devem-se às construções destes monumentos em épocas históricas distintas e que contribuíram para uma circulação de diferentes mestres construtores, entre os quais Afonso Domingues, uma das figuras mais importantes da arquitectura portuguesa e europeia. 

“É nesse contexto que Afonso Domingues aparece em Santarém, depois de ter aprendido e exercitado o seu ofício nas obras de reconstrução da cabeceira da Sé de Lisboa”, explica Pedro Redol, conservador do Mosteiro da Batalha e que recentemente editou o livro ‘Afonso Domingues e a arquitectura do seu tempo: antecedentes, formação, obra e legado’.

Lançada em Julho de 2025, a obra surgiu da necessidade do autor em aprofundar mais esta figura da história nacional. 

“Uma figura tão importante da história da arquitectura portuguesa e europeia apresentava-se, na historiografia correspondente, com um passado pouco definido, no que se refere tanto às fontes da sua arte como ao contexto da formação que recebeu”, justifica. 

É possível observar a linguagem do mestre construtor através de elementos como “abóbadas de cruzaria de ogivas de perfil quadrangular, pilares quadrangulares de soco duplo, capitéis com grande relevo, deixando o núcleo à vista”, descreve. 

Ocupando-se de uma época da história da arquitectura portuguesa, entre 1324 e 1460, procurando compreender a relação desta com a arquitectura europeia, o livro permite ao leitor observar como se define um modo de traçar e construir edifícios religiosos abobadados. 

“Começam por ser episcopais – o claustro da Sé de Évora e a cabeceira da Sé de Lisboa -, passando depois a encomendas directas dos reis D. Fernando e D. João I, ou dos aristocratas e prelados que lhes foram mais próximos, culminado com o Mosteiro da Batalha”, conta o autor. 

Nesse sentido, a obra teve como base a aplicação da metodologia do conceito de transferência artística, que permitiu apreender como é que os mestres construtores “se apropriaram de linguagens arquitectónicas bastante diversificadas e as transformaram em algo seu”, através da sua circulação por vastos territórios e reinos do Ocidente Cristão. 

Por outro lado, os objectivos da investigação de Pedro Redol, incidem também na figura de Afonso Domingues, procurando entender o seu processo artístico e verdadeiros impactos e méritos da sua arte.

“Foi uma grande satisfação ultrapassar, espero que de vez, a narrativa romântica e nacionalista, cristalizada na lenda “A abóbada (1406)”, de Alexandre Herculano, que parece ter neutralizado o interesse pelo conhecimento das raízes da arte de Afonso Domingues”, declara. 

Conservador Pedro Redol

Para isso Pedro Redol recorreu à apreciação de mais de uma dezena de edifícios, construídos ao longo de um período de 136 anos, todos eles “significativos para compreender quem foi o mestre construtor” e do qual fazem parte a Igreja de São Francisco e a Igreja da Graça, em Santarém. 

Após ter aprendido e exercitado o seu ofício nas obras de reconstrução da cabeceira da Sé de Lisboa, Afonso Domingues inicia um “percurso de afirmação sua obra” na cidade ribatejana, com uma encomenda do rei D. Fernando (coro alto da Igreja de S. Francisco) e outra do conde Afonso Telo de Meneses (Igreja da Graça), que tinham como última finalidade “servirem como panteões nacionais ou familiares”, revela o autor. 

 Tais obras conferiram uma maturação no estilo do arquitecto, permitindo-lhe testar e definir as soluções arquitectónicas que viria a empegar mais tarde no Mosteiro da Batalha. 

“No coro alto de São Francisco, Domingues estabeleceu o desenho de abóbadas e pilares que utilizou na Igreja da Batalha”, enquanto na Igreja da Graça, “experimentou uma proporção que se reencontra na primeira traça (desenho arquitectónico) do Templo da Batalha, aplicada a um modelo de três naves que já era conhecido em Portugal, desde meados do século XIII”, elucida Pedro Redol. 

Coro Alto da Igreja de São Francisco

Deste modo, a Capital do Gótico serviu de base e inspiração para aquela que viria a ser a obra maior de Afonso Domingues, iniciada por si e concluída por David Huguet, subordinado do mestre construtor durante vários anos. 

São inegáveis o legado e a influência de Afonso Domingues sobre outros mestres e artistas, através da transferência directa de conhecimento em obra, a profissionais “que levaram esse mesmo conhecimento a obras que se estendem de Braga a Silves”, o que faz do mestre construtor um dos mais importantes arquitectos portugueses, bem como “um arquitecto europeu do seu tempo”. 

O livro ‘Afonso Domingues e a arquitectura do seu tempo: antecedentes, formação, obra e legado’, tem despertado interesse em países como Espanha, França; Inglaterra, Alemanha e Itália, aguardando-se recensões críticas na revista inglesa ‘The Burlington Magazine’ e no periódico francês ‘Bulletin Monumental’. 

Ricardo Santos Pereira

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