“A comunidade educativa organizou-se de forma exemplar”

Duas semanas após o ‘regresso às aulas’ dos estudantes do 11º e 12º anos, o Correio do Ribatejo quis ouvir a opinião da vereadora com o pelouro da Educação no Município de Santarém sobre a forma como a comunidade educativa da capital de distrito respondeu, e está a responder, a esta crise provocada pela pandemia da Covid-19. Inês Barroso aponta a forma “admirável” como as Escolas se adaptaram, numa “autêntica jornada educativa solidária”.

Como classifica a reacção da comunidade educativa a esta crise pandémica?
Para responder a esta primeira questão tenho de começar por felicitar a comunidade educativa do nosso concelho. Classifico a reacção da comunidade educativa de exemplar. Ninguém fazia ideia do que se iria passar, ninguém previa que pudéssemos vivenciar dias de confinamento à escala global, ninguém se sentia preparado para se proteger, proteger os seus e proteger o próximo. Foi uma aprendizagem em “tempo record” e a comunidade educativa organizou-se de forma exemplar. Docentes, assistentes operacionais, pais e encarregados de educação, crianças e alunos uniram-se para ultrapassar os constrangimentos que se foram identificando, partilharam conhecimentos, divulgaram experiências, aprenderam juntos, “cresceram” todos na utilização de tecnologias, foi realmente admirável! Se se pretendesse instaurar um processo educativo assente, sobretudo, em meios tecnológicos, creio que estaríamos alguns anos a preparar a sua implementação. Como todos viveram os mesmos dilemas, todos fizeram parte de uma autêntica jornada educativa solidária. Permita que releve os senhores directores de Escolas e Agrupamentos de Escolas, que trabalharam arduamente e “ao minuto” para irem adequando meios, recursos humanos e equipamentos, por forma a assegurar equidade na leccionação pelos docentes e nas oportunidades de aprendizagem pelos alunos.

Analisando a situação à posteriori: considera que a decisão do encerramento das escolas foi tomada no timing certo?
Tenho o entendimento de que as análises à posteriori apenas deverão ser realizadas se o objectivo for melhorar a próxima situação análoga. A discussão do que é certo ou errado, do que poderia/deveria ter sido feito, só faz sentido quando a perspectiva é construtiva! Sou sempre apologista de que quem toma decisões difíceis, seguramente que o faz com um objectivo definido e com a melhor das intenções, face ao enquadramento social, técnico, económico e político desse momento. Em conformidade, entendo que o timing do encerramento das escolas deu resposta às preocupações nacionais: manter crianças e alunos em segurança e prevenir a propagação da doença COVID-19.

PUBLICIDADE

Foi importante tranquilizar as preocupações dos próprios encarregados de educação?
Muito importante! Os pais e/ou encarregados de educação constituem uma “peça chave” da comunidade educativa. Eles confiam às escolas o que de melhor têm no mundo: os seus filhos/educandos. Obviamente que têm que saber como funciona o contexto escolar, como é planeado o sucesso formativo e educativo dos filhos/educandos. No caso específico da situação que vivemos, diria que a sua envolvência foi ainda mais determinante, quer na criação de soluções alternativas de aprendizagem, quer no acompanhamento diário de aulas e trabalhos de progressão e consolidação de aprendizagens. Era, pois, muito importante que a informação entre o Agrupamento de Escolas, o docente ou o director de turma fosse, tal como foi, calma, reforçada e esclarecedora.

Acredita que o regresso às aulas dos estudantes de 11º e 12º anos pode ser feito em plena segurança?
Acredito que os estudantes podem regressar às actividades lectivas presenciais em segurança, mas não em plena segurança. Os Agrupamentos de Escolas planearam rigorosamente o funcionamento de toda a escola: os circuitos de circulação de todos, a limpeza e a desinfecção de espaços, a reorganização de horários de turmas e de professores, a divisão de turmas, os horários de assistentes operacionais, por forma a garantir a segurança dos estudantes, dos docentes e dos não docentes que, no dia 18, voltaram a “dar vida” às escolas secundárias e profissionais. Entendo que foram cuidadas todas as orientações da DGS e respeitadas todas as normas do Ministério de Educação, ao mais ínfimo pormenor. No entanto, a segurança plena é um estado que, no momento em que estamos, é difícil de se assumir que exista. A luta que travamos contra um vírus que não sabemos como extinguir definitivamente e a curto prazo, não é uma luta justa. Que fiquemos sempre com a consciência tranquila de que fazemos o melhor possível e o que deve ser feito no respeito por nós próprios e pelo próximo.

Então este regresso às aulas levanta-lhe algumas dúvidas…
Sim, tenho dúvidas que se justifique. Mas, é só a minha opinião e admito, claro, estar equivocada. Respeito, obviamente que possa ser uma fase de um processo de planeamento para a escola do ano lectivo 2020/2021. Mas partilho apenas a minha preocupação, para que reflictamos conjuntamente. Primeiro: o regresso presencial à escola implica que os alunos dos 11º e 12º anos testem a primeira fase de desconfinamento nas escolas, com todos os receios que os próprios e os respectivos pais e encarregados de educação possam ter relativamente ao perigo de contágio; em segundo lugar, os alunos que se deslocam de freguesias rurais ou que tenham de se deslocar em transportes públicos na cidade, têm de se sujeitar aos horários que as entidades transportadoras conseguem garantir, para irem a duas horas de aulas presenciais, permanecendo largas horas no espaço público, já que as escolas devem ter os espaços de convívio social encerrados; em terceiro lugar, as condições excepcionais que são criadas agora para seis semanas de aulas, não são comparáveis para se testar o início do próximo ano lectivo, quando todos os alunos voltarem ao ensino presencial; por outro lado, estamos a obrigar os docentes que são considerados doentes de risco, e que como tal deviam, segundo as orientações DGS e preferencialmente, manter-se em teletrabalho até final do mês, a voltar já ao trabalho ou a apresentar atestado médico para não ter que ir à escola; por fim, o regresso à escola por motivo de realização de exames nacionais, não devia ser equacionado, porque haveriam, seguramente, outras formas de cálculo de classificações para finalização de ciclo ou para acesso ao ensino superior. Mas, repito, é só a minha opinião.

Que feedback é que a Autarquia tem recebido durante este período?
Como é do conhecimento geral, a autarquia scalabitana disponibilizou aos Agrupamentos de Escolas do concelho, 300 PC/Tablet e 600 conjuntos de equipamentos para aceder à internet por 3 meses (até final do ano lectivo). Fê-lo assegurando assim condições para minimizar a maior dificuldade que os Agrupamentos de Escolas comunicavam ao Ministério de Educação e às Câmaras Municipais. Era muito importante garantir no 1º Ciclo e contribuir nos restantes ciclos, para a equidade de oportunidades de aprendizagem. Foi um investimento que os Agrupamentos de Escolas, bem como os pais e encarregados de educação, reconhecem ter sido crucial para a prossecução do acompanhamento das aulas em situação de confinamento.
Na fase que iniciámos, com o retorno às escolas dos alunos dos 11º e 12º anos, o feedback que temos recebido das Direcções de Agrupamentos de Escolas e de pais e/ou encarregados de educação é que as aulas decorreram com serenidade, estando identificada como merecedora de atenção apenas a questão dos transportes escolares dos alunos que se deslocam das freguesias rurais. Tal como referi anteriormente, é muito difícil conseguir conjugar-se as necessidades de transportes de poucos alunos, com a rentabilidade de realização de carreiras públicas e com horários completamente reestruturados ao longo do dia.

Qual é o maior desafio que a Educação actualmente enfrenta?
No meu entender, o maior desafio da Educação é a conversão da escola num local de aprendizagens adaptadas ao mundo actual. Há cerca de um ano, um aluno do 12º ano dizia-me: “Professora, eu estou a terminar o Ensino Secundário, mas eu não sei preencher uma declaração de IRS, desconheço o elementar de literacia financeira, pouco sei sobre a cultura no meu concelho… Eu queria ter mais competências para o dia-a-dia, quando saísse desta escola! Eu e os meus colegas que até já nem vão prosseguir estudos.” E o problema é este mesmo: a Escola já não é um lugar onde se ensina para se medirem depois os conhecimentos por provas escritas e exames. Os jovens de hoje, quando procuram emprego, são avaliados por competências e valores, pelo Saber Fazer e pelo Saber Ser, e já não é só pelo Saber. Então, que ferramentas devem ser inseridas na Escola para que o professor permita a descoberta, a aprendizagem ao ritmo de todos e de cada um, e tantas outras preocupações pedagógicas que permitam aos alunos a aquisição de saberes e o desenvolvimento de competências?, pergunto.

Que planos municipais existem para que as disparidades entre os vários alunos sejam colmatadas?
A Lei define claramente as obrigações que as autarquias têm na Educação. A delegação de competências da Educação por parte do Estado às autarquias está em fase de implementação no país. Na conjectura actual o Município de Santarém tem pautado a sua acção pelo garantir da igualdade de meios, condições, equipamentos e actividades para todo o concelho. A dispersão geográfica e a localização da sede de concelho no extremo sul do mesmo, conjecturam algumas assimetrias que o Município, em articulação com as Juntas de Freguesia e os Agrupamentos de Escolas, vão colmatando. Há pouco reportei-me a um exemplo claro de uma medida adoptada há pouco tempo para nivelar assimetrias identificadas: a aquisição de equipamentos para mais de 600 alunos poderem usufruir do ensino à distância. O princípio é sempre o que que todos os apoios, as medidas, as actividades e/ou programas, quando são promovidos, o sejam para todos os alunos do concelho, naquele ciclo de escolaridade.
Os programas de apoio implementados pelo Município de Santarém são vários e em diversificadas áreas, e são direccionados para todos os níveis de ensino. Não querendo discriminar exaustivamente a sua totalidade e especificidades da sua aplicação, partilho apenas alguns exemplos: no âmbito da acção social escolar concretizam a oferta de material escolar para as actividades lectivas, o transporte para visitas de estudo, o projecto de Oferta de Recursos Educativos que contempla quase uma centena de actividades para Jardins Escola e Escolas do 1º Ciclo, essencialmente, transporte dos alunos do Agrupamento de Escolas D. Afonso Henriques para poderem ter Natação/Desporto Escolar nas piscinas da cidade, aulas de hipoterapia ou com cães terapeutas para alunos com NEE, iniciativas de índole cultural, através do projecto Escala, adequadas a toda a população escolar (desde bebés a adultos), festividades e iniciativas para comemorações de efemérides com a presença de alunos de todo o concelho, entre outros programas e outras acções.
O trabalho que o Município desenvolve traduz-se também no apoio aos projectos educativos dos Agrupamentos de Escolas e Escolas do concelho, na análise das políticas educativas em contexto do Conselho Municipal de Educação e da Rede Territorial das Cidades Educadoras, da qual Santarém faz parte.

Que mensagens e ensinamentos é que a Educação poderá levar daqui para o futuro?
Para o futuro, a Educação deverá reter a constatação de que as escolas trabalharam muito, muitíssimo bem e num extremamente curto espaço de tempo. As adaptações constantes que estes dias exigiram, assim o provaram e a própria sociedade assim o reconhece!
A Educação poderá levar daqui para o futuro que é possível ensinar à distância! Que é possível repensar a metodologia de ensino, potenciando as tecnologias! Que é urgente o investimento do Estado nessas mesmas tecnologias nas escolas, para minimizar assimetrias entre os alunos e para as escolas serem mais digitais e terem melhores ligações de internet! Que é assertivo que se revalorize a profissão docente! Que há que rever o acesso ao ensino superior! Que…
Em suma: que apesar de desconhecermos as profissões do futuro e de estarmos em plena era da tecnologia digital e da inteligência artificial, nada substitui o professor e nada se assemelha à relação pedagógica e de afectividade que se estabelece entre alunos e professor!

Filipe Mendes

PUBLICIDADE

PARTILHE COM OS SEUS AMIGOS