D. José Traquina, Bispo de Santarém, diz que é preciso desenvolver o verdadeiro sentido do Natal, sendo que a sua celebração “é uma oportunidade para renovar o nosso propósito positivo de colaborar com bondade e esperança na edificação da vida humana em sociedade, assumindo o projecto de reino de amor, justiça e paz”.

Nesta entrevista concedida ao Correio do Ribatejo, o prelado faz o balanço do trabalho que tem desenvolvido à frente de uma diocese que se tem preocupado em assegurar, junto da comunidade, o apoio espiritual e pastoral.

O também presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana lança o seu olhar para a actual realidade da crise dos refugiados, das pressões migratórias, da Guerra na Ucrânia e da recente aprovação parlamentar da lei que permite a eutanásia, dizendo que “é necessária a consideração pela vida humana como um direito inviolável”.

A diocese escalabitana, criada a 16 de Julho de 1975, pela Bula ‘Apostolicae Sedis Consuetudinem’ do Papa Paulo VI, tem cerca de 3 mil quilómetros quadrados, e abrange 13 dos 21 concelhos do distrito, num total de 7 vigararias e 113 paróquias.

O Natal transformou-se numa celebração do consumo?

A dimensão da Festa, qualquer festa, supõe algum excesso ou fartura. Mas quando isso acontece sem entender o significado que lhe deu origem, então a festa perde valor. Se a festa de Natal for entendida apenas como festa dos membros da família, obviamente, milhões de pessoas são excluídas porque não têm família. E se não têm nenhum conhecimento de Jesus, a celebração do Natal pode ter muito consumo, mas carece de significado.

Qual o sentido do Natal? Como deve cada cristão vivê-lo?

O Natal de Jesus entrou na cultura do mundo ocidental com manifestações que se prendem com promessas proféticas de bem-estar e de paz entre os homens. Os sinais de festa, iluminação, convívio e alegria justificam-se por um significado. Se não se sabe o que significam, há vazio de sentido.

O cristão consciente deve ser contemplar e interpretar os sinais que lhe são dados. O Menino do presépio de Belém nasce pobre e reflete a humildade de Deus. Celebrar o Natal é uma oportunidade para renovar o nosso propósito positivo de colaborar com bondade e esperança na edificação da vida humana em sociedade, assumindo o projecto de reino de amor, justiça e paz. E há muito por fazer!

As questões sociais devem estar na ordem do dia da comunidade católica?

A acção social não é um apêndice da missão da Igreja. Está ao mesmo nível da responsabilidade de evangelizar ou de celebrar os sacramentos. Claro que se supõe que a acção social aconteça como um testemunho de quem escutou a página do Evangelho do Bom Samaritano (Lc 10) nos faz superar egoísmo e atendermos às necessidades de quem está carenciado de apoio.

Entretanto, a expressão “questões sociais” designa um problema mais vasto que diz respeito a toda a sociedade. Por isso, a missão da Cáritas na actualidade não é apenas responder a emergências, é também observar e colaborar em reflexão sobre a realidade social. Não é possível resolver problemas estruturais da sociedade com respostas e cuidados próprios de emergências.

Os pedidos de apoio têm aumentado face a este aumento exponencial do custo de vida?

Sim, além do apoio recorrente, têm surgido novos pedidos de apoio financeiro para responder a compromissos familiares, mensalidades que as famílias deixaram de ter capacidade de pagar.

Olhando já para 2023, receia o agravamento da crise económica e social?

Depende da extensão da guerra na Ucrânia. É decisivo para bem de todos que a guerra termine. Mas também é necessária uma promoção nos rendimentos dos portugueses que trabalham. É um problema que não pode ser resolvido pelas empresas e instituições particulares; é um problema estrutural que compete ao Estado resolver; os baixos rendimentos estão na origem das centenas de jovens portugueses formados que emigram para trabalhar noutros países da mesma União Europeia.

Como presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, como olha para a actual realidade da crise dos refugiados, das pressões migratórias e da Guerra na Ucrânia?

Olho com preocupação e esperança. Os migrantes estrangeiros são necessários a Portugal, mas não existe uma coordenação assegurada para o acolhimento, acompanhamento e integração. As dificuldades dos serviços do SEF têm sido muito denunciadas como um grande problema para a vida dos migrantes e refugiados. A Igreja, na medida das possibilidades, está disposta a colaborar, como já estamos, mas não podemos assumir a coordenação de acompanhamento do fenómeno dos migrantes estrangeiros.

No passado mês de Fevereiro, quando emergiu a guerra na Ucrânia, as Câmaras Municipais assumiram, e bem, a coordenação da vinda dos ucranianos a Portugal.

Parece-me a melhor solução. As Câmaras Municipais conhecem em pormenor todo o território, população e instituições do respectivo Município. Parece-me o caminho a seguir, mas, obviamente, o Governo tem de dotar as Câmaras Municipais das condições para assumirem a responsabilidade de forma estável.

Que balanço faz destes anos à frente dos destinos da Diocese de Santarém?

Faço avaliações anuais da caminhada pastoral com os Vigários e com o Conselho Presbiteral, mas balanço da minha missão nos últimos anos na Diocese não fiz, nem vou fazer agora, para não cair em abatimento pessoal. O que posso adiantar é que o Bispo é referência, mas tem de funcionar

em equipa com os seus padres. E é isso que procuro pôr em prática. Depois, temos Religiosas consagradas e cristãos leigos que dão um bom testemunho de vida dedicada aos outros, procedimentos muito positivos que são resultado de quem escutou a Palavra do Evangelho. Estou muito grato por isso.

Desde o Verão que a cidade colocou à fruição as suas Igrejas e Monumentos. Como tem corrido este projecto conjunto da Diocese, Câmara de Santarém, Misericórdia e ISLA?

Tem corrido bem. Parece-me um bom projecto que está a dar os seus frutos na resposta que se desejava na promoção das visitas à riqueza do património edificado que existe em Santarém. Não me constou nada de negativo, relativamente ao funcionamento das igrejas de portas abertas, com jovens a assegurar o acolhimento.

Como vê o papel e a missão de um padre na sua comunidade, em particular nos tempos que se avizinham?

A missão de um padre, pároco de uma paróquia, está amplamente desenvolvida nos ensinamentos da Igreja. Porém, a realidade humana das paróquias altera-se com o decorrer dos anos e também o número de padres não é o mesmo do início da Diocese em 1975. Assim, um pároco necessita de bom discernimento para se distribuir e assegurar a missão nas diversas comunidades que lhe estão confiadas para acompanhar.

Ao padre pede-se que esteja próximo das pessoas das suas comunidades. É difícil a concretização, mas o sentido de proximidade, mais do que espaço é uma característica pessoal, uma qualidade ou virtude que se cultiva no ministério. Não significa que o padre tenha de permanecer no mesmo lugar. Pode estar distanciado, mas os cristãos reconhecem-no como próximo porque sabem que podem contar com ele.

Como olha para a questão vocacional na actualidade? A chamada crise das vocações ainda se mantém? De que forma se podem captar os jovens para esta missão?

Não necessitamos apenas de mais padres, mas de bons padres. A minha preocupação centra-se na qualidade e santidade pessoal. O povo de Deus necessita de padres que façam parte da solução das suas vidas. É a qualidade do exercício do ministério que pode testemunhar e atrair algum jovem a interrogar-se vocacionalmente. E isso, ainda que poucos, continua a acontecer.

As Jornadas Mundiais da Juventude poderão ter aqui um papel nesta captação?

Na verdade, as Jornadas Mundiais da Juventude têm sido marcantes para muitos jovens e alguns definiram o seu caminho de vida cristã a partir dessa experiência.

Penso que devemos estar livres e interpretar à luz da Fé; a JMJ não é um truque para convencer jovens, é um evento eclesial com beleza, alegria e profundidade espiritual que pode proporcionar aos jovens uma experiência da presença de Deus. A partir daí pode despertar uma interrogação vocacional, mas tudo tem de acontecer em respeito pela liberdade pessoal e com acompanhamento qualificado.

Vivemos numa sociedade da comunicação e do imediato. De que modo a espiritualidade esbarra neste modus vivendi? Há espaço para Deus nesta cultura do efémero?

É muito curioso saber que a par de algum abandono da Igreja, existe uma enorme busca de espiritualidade. É uma questão de sentido da vida. Por mais dinheiro que tenha, por mais viagens que realize, por mais prazeres que experimente, um jovem corre sempre o risco de cair num vazio existencial. Direi que nascemos com a habilitação de acreditar, o problema é saber se acreditamos bem, com verdade e segurança ou se acreditamos mal, confiando em amuletos e propostas de espiritualidade que não correspondem à verdade de Deus e à vocação de realização humana.

A boa experiência da fé cristã reside na descoberta de Deus que se comunica. Deus é comunicação. Deixa-se encontrar quando alguém comunica em sintonia com o Amor generoso que reside no mais íntimo da pessoa e lhe gera alegria. Também sabemos que existem forças no mundo que teimam em apagar a presença de Deus na pessoa humana. É um esforço inútil, porque a ‘obra de arte’ tem um autor, não é fruto do acaso.

Acontece que essa busca é feita sem referência à Fé da Igreja….

É verdade que muita busca de espiritualidade é feita à margem da Igreja. Fazem a distinção entre espiritualidade e religião e consideram negativamente a Igreja como religião.

Aquilo que é distinto é acreditar na mesma Fé dos apóstolos de Cristo, Fé apostólica que é a Fé professada na Igreja, e outra coisa é a espiritualidade pessoal alimentada como num supermercado em que se adquire um pouco de efeitos espirituais à medida e necessidade de cada pessoa sem nenhum compromisso com ninguém.

Compreende-se assim o abando da Igreja; a espiritualidade cristã que cultivamos motiva-nos a um compromisso de amor para com Deus para com os nossos semelhantes.

Em perspectiva cristã e católica, nascemos para crescer e viver uns com os outros e uns para os outros.

Que leitura faz da recente aprovação parlamentar da lei que permite a eutanásia?

O que aconteceu foi a persistência em afirmar a liberdade acima do direito natural. Sem escutar a Ordem dos Médicos e outros profissionais de saúde, a maioria dos deputados da Assembleia da República afirma o direito à liberdade para solicitar a antecipação da morte ou suicídio assistido. A ideia de que se for expressão de liberdade é bom e pode ser lei, não é aceitável.

É necessária a consideração pela vida humana como um direito inviolável. A Constituição portuguesa consagra-o peremptoriamente: “A vida humana é inviolável”.

Mas mesmo que o não afirmasse, importa reconhecer que a vida humana é um direito natural; não resulta de um direito constitucional.

Por sua vez, a eutanásia não acaba com o sofrimento, acaba com a própria vida humana. O que é necessário é anular ou aliviar o sofrimento na pessoa, para isso existem os cuidados paliativos. É mais caro, mas é isso que é necessário promover. Existindo em Portugal centenas de pessoas doentes a aguardar pelos cuidados paliativos, o que dizer da aprovação da eutanásia? “É de lamentar que, numa altura em que as carências do sistema de saúde estão muito longe de ser superadas, possamos correr o risco de apresentar a proposta de recurso à eutanásia como solução mais rápida e menos onerosa” (CEP).

O que parece esconder-se no processo em curso é a desvalorização da pessoa doente e isso é mau, é perigoso e muito preocupante.

Neste tempo de Advento, que mensagem deixa?

Diante do Menino do presépio sugiro que contemplemos como Deus assumiu a nossa natureza; rebaixou-se para valorizar a pessoa humana, a sua obra de arte. Maria e José representam toda a cooperação humana no desígnio de justiça e de paz para a humanidade e lembram-nos que toda a pessoa humana é frágil e carece de protecção e cuidados.

Que a celebração do Natal seja para todos um tempo de graça, saliento os jovens que se prepararem para a Jornada Mundial da Juventude 2023; os que, por estes dias, trabalham mais que o habitual para que outros tenham festa e as pessoas mais idosas, doentes ou com deficiência. O Evangelho da infância de Jesus revela-nos que a Bênção da sua vinda é para todos.

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