Foi inaugurada, no passado dia 14 de Fevereiro, no Fórum Mário Viegas do Centro Cultural Regional de Santarém, a exposição ‘Torture Garden’, da autoria de João Belga. A mostra de pinturas inéditas, criadas entre 2022 e 2026, convida-nos a entrar no “universo mais íntimo” do artista. Em entrevista ao Correio do Ribatejo João Belga desvenda as inspirações e as “angústias dos novos tempos” por detrás das suas criações artísticas. 

Esta exposição mostra um lado mais auto confessional do seu trabalho. Quais foram as “angústias dos novos tempos” que mais o assombraram durante o processo criativo?

As angústias a que me refiro, “dos novos tempos modernos”, são aquelas que todos nós experienciamos hoje. Esta sensação de vivermos num tempo acelerado e instável, com excesso de informação e pouco espaço para o silêncio. Essas angústias não estão representadas de forma literal nas pinturas, mas estão presentes no ritmo, na intensidade e na insistência do gesto.

O seu ateliê foi o espaço onde as suas criações ganharam forma, habitando as paredes deste. Como é que o “quotidiano reservado” desse espaço moldou a identidade desta colecção?

Prefiro olhar para esta exposição não tanto como uma colecção, mas antes como um corpo de trabalho que foi amadurecendo dentro do espaço de recolhimento e liberdade, que representa o ateliê. Esse quotidiano mais reservado, habitado pela prática da pintura, permitiu que este conjunto de trabalhos florescesse de forma orgânica, ao ritmo do seu tempo.

Sentiu alguma resistência em “retirar” estas obras da privacidade do seu atelier para olhar público do Fórum Mário Viegas?

Nenhuma. Porque para mim o ateliê funciona como um espaço de recolhimento, não de clausura. A pintura ganha sentido pleno quando é partilhada e a exposição no Fórum Mário Viegas representa precisamente esse momento de passagem – quando o trabalho deixa de ser apenas meu e passa a existir também na interpretação de quem o vê. O ateliê é o lugar do processo, mas a exposição é o lugar do diálogo.

A mostra cobre um período de quatro anos. Existe algum tipo de mudança no traço ou paleta de cores entre as obras iniciadas em 2022 e finalizadas nos primeiros dias de 2026?

Durante esses 4 anos houve naturalmente pequenos deslocamentos, tanto no traço como na paleta. Essas mudanças foram acontecendo através de um processo de sedimentação, não de rutura. Na minha prática artística a continuidade do gesto é tão importante quanto a necessidade de testar novos caminhos de representação. E esta exposição, em particular, foi pensada para que ao longo do seu percurso o observador seja confrontado com esse deslocamento constante.

Como surgiu o interesse pela pintura e a vontade em seguir uma carreira artística?

Em termos das artes em geral e da prática do desenho em particular, o interesse surge no secundário. Os primeiros contactos com a pintura surgem na E.S.B.A.L. no início dos anos 90, mas é com a entrada no curso de pintura na E.S.A.D. das Caldas da Rainha, que surge o meu real interesse pela prática da pintura. Situo o início do meu percurso artístico, não tanto como carreira, mas como finalista do terceiro ano de pintura em 1997, com a exposição Atelier no âmbito do projecto caldense ART ATTACK. Foi nesta primeira exposição individual que utilizei pela primeira vez o atelier como mote, no momento de pensar o desenho da exposição. Algo que fui revisitando ao longo de quase 30 anos de percurso e cuja última versão está reflectida neste Torture Garden.

O título da exposição ‘Torture Garden’ une o jazz experimental de John Zorn ao decadentismo de Octave Mirbeau. De que forma estas obras artísticas se manifestam visualmente nas suas telas?

Não existe uma tradução directa destas obras nas minhas telas. Nem o jazz experimental do colectivo Naked City liderado por John Zorn nem o universo decadentista de Octave Mirbeau surgem como ilustração. O que me interessa principalmente nestas referências é a sua intensidade – a tensão entre beleza e violência, entre harmonia e dissonância. Essa intensidade manifesta-se na pintura como o ritmo que marca o gesto na construção da composição na tela.

O que espera que o público sinta ao entrar neste ‘Torture Garden’?

Não espero que sintam algo em particular, mas que entrem disponíveis para a prática do olhar e se sintam confortáveis a ocupar o lugar de espectador em frente à tela. Se existir esse momento de confronto silencioso, entre o observador e o exposto, então o jardim cumpriu o seu propósito.

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