“A ponte é uma passagem, p’rá outra margem” é o verso mais famoso da canção “Ribeira” da banda portuguesa Jafumega, lançada em 1981. Este êxito, inspirado na zona ribeirinha do Porto, tornou-se um dos hinos do rock português.
Chamo o verso a este texto porque na passada semana Santarém esteve sob ameaça de ficar sem “passagem para a outra margem” pelo fecho das duas pontes que a ligam aos concelhos vizinhos de Almeirim e ao Cartaxo, pela Ponte d’Asseca.
A sucessão de depressões veio comprovar que a rede de travessias sobre o Tejo é insuficiente e antiquada e dar mais força às reclamações dos autarcas que pedem urgência nos investimentos para o Médio e Lezíria do Tejo de forma a descomplicar a mobilidade quotidiana, o transporte de mercadorias e até a actuação dos serviços de emergência. Na verdade, no distrito, há quem precise de fazer dezenas de quilómetros para conseguir atravessar o Tejo, o que cria enormes fragilidades na emergência, na saúde, na protecção civil e no transporte de pessoas e bens.
As pontes são poucas, quase todas centenárias, e estes momentos de aperto põem à tona de água a necessidade de novas soluções e da concretização de infra-estruturas previstas e sucessivamente adiadas, como o IC9.
Na tarde de quinta-feira, dia 5, o trânsito esteve caótico em Santarém com poucas opções de saída da cidade. E até quem queria sair para o concelho do Cartaxo a opção foi usar a autoestrada A1 devido ao corte da Ponte d’Asseca.
Uma palavra para as populações ribeirinhas, por natureza habituadas a conviver com a água ao pé da porta, como no Reguengo do Alviela ou na Ribeira de Santarém, onde a cheia não tem o peso de outros locais, porque desde sempre têm na memória estes momentos em que o rio galga as margens e entra casa a dentro.
Os mais velhos encaram esse transtorno (que não deixa de o ser) com naturalidade e os agricultores salientam o bem que toda esta água faz aos campos do Ribatejo. Daí que, em anos de cheia, nestas duas localidades, haja sempre quem solte um sorriso maroto assim que vêem os repórteres das televisões aproximarem-se: “Olha, lá vêm eles outra vez…”
Outro problema que se arrasta no tempo, bem mais grave do que as cheias, é a instabilidade das encostas de Santarém que dura há séculos e que provém da saturação dos solos, resultante do excesso de precipitação. A situação é grave e já há famílias deslocadas por se temer o pior.
Coesão territorial, competitividade e segurança precisam-se com urgência, pelo que é tempo de passar dos lamentos aos investimentos que em face dos valores em causa terão, forçosamente, de merecer as ajudas de Lisboa.
A ministra do Ambiente em visita à região, na terça-feira, afirmou que o Governo vai ter de redireccionar verbas dos fundos europeus para responder aos estragos provocados pelas sucessivas depressões. Registe-se.
