A constante evolução económica, social e cultural de uma comunidade determina a alteração de costumes e de padrões de vida da respectiva população, pelo que o seu estudo nos permite compreender o fundamento dessas mesmas alterações, e, outrossim, conhecer os processos que lhes estão subjacentes.

A domesticação de animais pelo Homem, ocorrida desde há pouco mais de dez mil anos atrás, constituiu um passo deveras significativo na evolução da espécie humana, pois a partir daí, em complementaridade com o início, ainda que incipiente, da agricultura, o Homem se sedentarizou, abandonando progressivamente a fase de caçador e recolector que caracterizava o anterior período de nomadismo.  

O Homem passou a ter o destino nas próprias mãos, pelo que cultivando as terras para daí extrair a base da sua alimentação, e domesticando os animais – uns para o ajudarem no trabalha das terras, outros que criava para a sua alimentação e, finalmente, alguns para lhes fazer companhia – o seu padrão de vida alterou-se radicalmente, complexificando as práticas sociais a caminho do progresso e do desenvolvimento até aos nossos dias.

A incerteza e as contrariedades imprevistas destas actividades, aliadas às dimensões espiritual e religiosa que, entretanto, também se desenvolveram no seio das comunidades, fez com que amiúde se invocasse a intercessão de alguma entidade sagrada em quem se tinha fé e convicção.

Terá sido, assim, que se desenvolveu o culto a alguns deuses, primitivamente, e mais tarde a alguns santos, o qual persiste até aos nossos dias, embora em registos e processos que o tempo foi mitigando. As festividades pagãs dedicadas a alguns deuses mais não eram do que o suposto reconhecimento da intervenção divina na vida e na actividade humana, aspecto que a ciência e a cultura não lograram erradicar por completo.

Como é sabido, a igreja cristã apropriou-se, ou aliou-se, a estas festividades pagãs para engrandecimento do seu calendário religioso, sendo que em boa medida este tipo de manifestações persistiu envolto num misto religioso e profano, não sendo fácil definir onde acaba uma dessas dimensões e onde começa a outra.

No panteão cristão encontramos vários santos que são considerados protectores de animais, embora destaquemos apenas alguns dos que são mais vezes referenciados como tal. São os casos de S. Francisco de Assis, São Lázaro, São Roque, Santa Gertrudes de Nivelles e Santo Antão.

Santo Antão (251-356) é venerado como protector contra a peste e contra doenças contagiosas, nomeadamente o “fogo de Santo Antão”, espécie de erisipela resultante de um fungo do centeio, mas é, igualmente, considerado o protector dos animais domésticos, sobretudo dos porcos. 

Na iconografia tradicional, Santo Antão é representado com uma longa barba, com uma vara com um sino e um porco, companheiro inseparável do santo em todas as suas representações. É celebrado pela Igreja no dia 17 de Janeiro, dia que antigamente era aproveitado para fazer a bênção de animais e dos estábulos. Por isso, neste dia, ou no domingo seguinte, em muitas igrejas ainda é comum levar os animais para serem benzidos durante a celebração da missa.

Nas comunidades rurais a festa consagrada a Santo Antão era vivida com muita fé e esperança, pois a economia familiar nestas comunidades dependia muito da criação destes animais, uns para ajudarem na agricultura, outros como base da alimentação. 

Mais do que se pensa, no Ribatejo, especialmente na região do Bairro, a matança do porco, que geralmente ocorria nos meses de Novembro ou de Dezembro, era um dia de festa, pois, tal significava que o animal que tinha sido criado com tantos cuidados não tinha sido afectado por doenças durante a sua criação e iria repôr a salgadeira, onde haveria de durar uns largos meses, pois o consumo de carne tinha de ser muito moderado. Apenas para dar unto ao caldo…

Em dia de Santo Antão realizavam-se festas, feiras e romarias onde se pedia a bênção do Santo para os animais que estavam em fase de crescimento, a par do leilão e da ingestão de carne de porco, ou seus derivados, como é o caso dos enchidos, sendo que, curiosamente, este dia era celebrado em Salir de Matos, em Óbidos, em Valado de Frades, na Nazaré, e em tantas outras localidades rurais, como a “festa dos chouriços” como era também o caso de Vila Nova de S. Pedro, no concelho de Azambuja.

As festas dedicadas a Santo Antão foram perdendo devoção, até porque, em regra, o mês de Janeiro era muito chuvoso e os campos reclamavam muitos braços de trabalho, pelo que apenas na missa do domingo seguinte se fazia a bênção do gado, mas sem outros festejos, que, em regra, passaram a realizar-se no verão, em tempo de maior acalmia nos trabalhos agrícolas e que coincidia com o regresso de membros da comunidade que, entretanto, haviam emigrado para a estranja em busca de melhor futuro.

Quando começaram a aparecer os primeiros frigoríficos e os estabelecimentos comerciais passaram a vender carne durante todo o ano, o que coincidiu com o êxodo rural em consequência da mecanização da agricultura, que dispensou milhares de braços de trabalho, foi-se abandonando a tradição da criação do tão apreciado porco e a relação entre o Homem e os animais para alimentação foi-se reduzindo substancialmente. Os tractores e outras alfaias agrícolas motorizadas reformaram as juntas de bois e os muares que lavravam as terras ou puxavam as carroças.

Com o posterior acesso à rádio, à televisão e ao cinema, e desfrutando de melhores vias rodoviárias e da massificação do automóvel, o povo rural foi desvendando um novo mundo, que pouco tinha a ver com a sua realidade social. O povo tem vindo a urbanizar-se, cortando a relação com os campos, que agora, com a morte dos seus avoengos, ficaram ao abandono.

Hoje quase apenas se criam os animais (ditos) de companhia – o cão, o gato, o periquito, o papagaio, o coelho, o rato, o hamster, a cobra, a tartaruga, e por aí adiante – e algumas famílias ainda têm um cavalo para passear nos campos, porque os animais de carne ou de leite são criados em regime intensivo, destinado a uma engorda rápida, e os bovinos de raça brava são combatidos pelos anti-taurinos, aliados aos ambientalistas, porque a criação de bovinos leva ao aumento dos gases-estufa na atmosfera, agravando o problema do aquecimento global.

Contra este radicalismo urbano-depressivo não há Santo Antão que nos valha, nem que para nossa salvação convoquemos a ajuda de todos os Santos protectores dos animais, porque o fundamentalismo político é uma das principais cegueiras da nossa sociedade contemporânea. Em consequência desta atitude, quase todos seremos, mais cedo ou mais tarde, obrigados a converter-nos à alimentação vegetariana.

 

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