Há alguns anos tirei uns cursos sobre segurança e defesa na ESDC – Colégio Europeu de Segurança e Defesa, entidade autónoma da União Europeia com ligações à NATO, sediada em Bruxelas. Nunca consegui concluir um teste todo certo, por causa de uma malfadada pergunta, que sempre errava. A pergunta era: “O mundo é unipolar, bipolar ou multipolar?”. Para mim, a resposta certa era “multipolar”. Para a ESDC/NATO, a resposta certa era “unipolar”.

Trago este episódio para abordar o que sempre foi a filosofia ocidental no pós-Segunda Guerra Mundial, na qual só era reconhecida a existência de uma superpotência, os Estados Unidos da América. Durante mais de 75 anos vivemos sob este dogma, que influenciou estratégias militares, políticas e até económicas. Pelo que temos visto nos últimos tempos, este dogma tende rapidamente a mudar.

Sempre tive algumas reticências em classificar líderes políticos de forma leviana. Menosprezar a inteligência de Putin só nos tem trazido problemas, pois um lider incontestado de uma nação enorme, será tudo menos obtuso, pouco inteligente ou rudimentar. Putin é um político praticamente nascido dentro do KGB, onde ambos os seus progenitores eram agentes. Foi lá que aprendeu, com os melhores e nas melhores escolas. Cerebral, impiedoso, premeditado e estratega isso sim, serão adjetivos que ajudam bem melhor a definir o líder russo.

O que é válido para Putin é igualmente válido para Donald J. Trump. No seu estilo de “americano Liberace”, Trump parece uma anedota, os seus mais próximos os bobos da corte. Nada mais errado. Por trás desta capa, estão homens impiedosos, hiper-ambiciosos que assumem a presidência dos EUA como o trono do mundo. Apesar disso, Trump é um experimentado negociante, que sabe muito bem quem conta e não conta na geopolítica mundial, ou seja, os EUA, a China e a Rússia. Apesar do conceito estratégico da NATO, definido em Madrid em junho de 2022 e que dava a Rússia como o principal inimigo e a China como principal ameaça, Trump sabe que a realidade é inversa: a Rússia é apenas uma ameaça e a China, sim, é o seu principal inimigo. Político americano “old fashioned”, Trump considera os que os EUA são a maior economia do mundo, a sua indústria a líder mundial, os seus produtos os mais reputados e consumidos. O “Make America Great Again” da sua primeira campanha não era para o exterior, mas para dentro, galvanizando assim os operários da cintura do aço e cativando o seu voto.

A esta luz, os acontecimentos da Venezuela ganham contornos diferentes. Para começar, a extração de Nicolas Maduro ocorre precisamente 36 anos depois de operação semelhante, que levou Manuel Noriega, à altura presidente do Panamá, mais ou menos pelos mesmos motivos para uma prisão norte-americana. Para além dos processos judiciais (sempre os mais mediáticos), o que resultou da prisão de Noriega? Um domínio absoluto dos EUA sobre o canal do Panamá. No Panamá, o sucessor de Noriega foi Guillermo Endara, opositor interno do primeiro, mas igualmente opositor da invasão norte-americana. Este ano na Venezuela, a sucessora foi Delcy Rodriguez, vice-presidente de Maduro e cujo relacionamento com os EUA é, no mínimo, uma incógnita.

Se em 1990, no Panamá, Endara fez um volt-face no regime colocando-se ao lado dos americanos, já com Delcy a situação não é assim tão linear. Durante as suas presidências, quer Hugo Chavez quer Nicolas Maduro colocaram imensas armas nas mãos da população. Ora estas armas, o treino militar e a selva venezuelana poderiam, em caso de invasão, tornar-se um importante problema para os EUA. Assim, um entendimento com Delcy, que permita aos americanos explorar o petróleo do Lago Maracaíbo e à presidente venezuelana manter a sua soberania nacional, parecem criar as condições para evitar uma guerra civil.

Mas a situação da Venezuela indicia algo mais amplo e global. Há cerca de 2 anos, por altura do conflito entre a Venezuela e a Guiana sobre o Esequibo, o país tinha no seu território um número volumoso de mercenários russos do Grupo Wagner. Estes mercenários não respondem apenas por golpes de mão ou preparação de soldados, preferindo sempre estadias prolongadas que possam rentabilizar. No entanto, tal não correu na Venezuela. Porquê?

Se ao contexto venezuelano juntarmos o reforço do interesse dos EUA na Gronelândia, começamos a entender que está em curso um ciclo de ajustamento do xadrez geoestratégico mundial. Na América do Sul, os EUA irão tentar reverter o domínio comercial que a China logrou alcançar nos últimos 25 anos, nos quais se transformou no maior parceiro comercial da grande maioria dos países, com exceção da Argentina. Não será tarefa fácil, tanto mais que um novo fator acaba de ser introduzido, com o recente acordo União Europeia – Mercosul.

Mas voltemos à Gronelândia, que representa um dos pontos de vista mais importantes da geopolítica atual: o domínio posicional da região do Ártico. É importante lembrar que, em agosto de 2000, se afundou com 118 tripulantes a bordo no mar de Barents o submarino nuclear russo Kursk. Embora atribuído a um problema mecânico com um dos torpedos, este acidente enquadrava-se já nessa altura nas expedições árticas que a Rússia estava a levar a efeitos. O objetivo era claro: marcar nas regiões remotas do Círculo Polar Ártico o máximo número de localizações como propriedade da Federação Russa, assegurando desde logo para si os direitos de exploração desses ricos subsolos.

Posteriormente, em 2018, a China lançou a sua Polar Silk Role, que visava não apenas a exploração de recursos e de rotas comerciais submarinas como criar uma estratégica de “near-artic state” em termos de segurança e defesa, pois não tinha efetivamente nenhuma ligação geográfica com esta área do globo. Esta estratégia tem vindo a ser desenvolvida em parceria com a Rússia, existindo hoje rotas comerciais estabilizadas, que transportam produtos desde o porto chinês de Lyanyungang até ao porto francês de Rouen. Quanto aos Estados Unidos, a sua estratégia para o Ártico tem sido focada sobretudo na área da defesa, relegando para segundo plano as questões comerciais. Só recentemente, já com Trump, os EUA se começaram verdadeiramente a interessar por esta vertente mais comercial e de exploração de recursos, na qual o interesse pela Gronelândia se inclui em pleno.

Mas, como venho defendendo há algum tempo, não será o Ártico nem mesmo o continente americano o futuro epicentro da geopolítica mundial. Esse irá estar, ou melhor, encontra-se já na região do Indo-Pacífico, nomeadamente nos mares do sul da China, a Baía de Bengala e até ao mar do Japão. Como seria de prever, o storytelling norte-americano acerca de Taiwan tem vindo a perder força, devido sobretudo ao desinteresse chinês numa invasão da ilha.

Será muito provavelmente na área de influência da Indonésia, Filipinas e Malásia que as movimentações mais importantes poderão ocorrer, não sendo de excluir a península das Coreias e o Japão. Mais a sul, com eleições na Índia em 2027, a Baía de Bengala e a costa oeste, correspondente ao Mar Arábico, poderão ser fontes de tensão, que incluam o Paquistão e o Irão, extensíveis ao Mar Arábico, ao Golfo Pérsico e ao Mar Vermelho.

Dois continentes estão propositadamente fora deste cenário: África e Europa. Em África não se prevêem grandes evoluções, pelo menos positivas. Governos caducos, militares ou dinásticos, mas quase sempre tirânicos, irão continuando a vender as suas riquezas ao desbarato aos mercenários do dinheiro, para que eles possam ter mais uma noite de luxo e os seus povos mais uma noite de terror.

Quanto à Europa, os estafados slogans que a comunicação difunde já não convencem ninguém, parecem discos riscados em barraca de feira. A ufana superioridade intelectual da nossa esquerda Givenchy, o patriotismo de praça de toiros da nossa direita marialva, já ninguém os suporta nem a uns nem a outros. Por essa Europa fora, respira-se um ar bafiento que sai da boca de políticos com muitas horas de gabinete e quase nenhuma de contato com os seus eleitores. Salva-se, no meu entender, a juventude. Já habituados às contrariedades, são eles que responde aos problemas com um sorriso, quem se junta para encontrar uma solução comum. Por eles começa a valer a pena acreditar no amanhã, a sua energia é contagiante, a sua criatividade e mobilização pelas melhores soluções é inspiradora.

Cada vez mais temos de procurar o que nos une e não o que nos separa. Por isso, não só na geopolítica, mas sobretudo na vida, somos genuinamente multipolares.

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