Sabemos que a situação neste Estreito permanece altamente volátil, marcada por um cessar-fogo frágil e hostilidades contínuas entre os Estados Unidos e o Irão. O estreito continua operando de forma intermitente devido aos riscos para navios comerciais, o que gera fortes impactos nas cadeias globais de abastecimento de petróleo, gás e fertilizantes. O cenário de hostilidades mantém-se: forças americanas têm realizado ataques defensivos e abatido drones iranianos na região. Em resposta, o Irão mantém a postura de hostilidade, bloqueando o acesso a embarcações ligadas aos EUA e a Israel, e chegando a retaliar com disparos de mísseis balísticos na região do Golfo.
Após os dois artigos por mim escritos aqui no Correio do Ribatejo no passado mês de Março (Os portugueses, poucos, pequenos, mas tesos … onde entre diversas curiosidades então escritas, tais como: … (os persas) inquinavam as águas com sardinha apodrecida e 2. … (almirante inimigo) preferiu ser cativo de cristãos do que servir de alimento para os “bárbaros”), etc., muitos leitores me questionam ainda sobre a nossa presença por mais de 100 anos no controle do Golfo Pérsico, procurando esclarecer muitos aspectos com destaque para: qual o teatro de operações ao tempo; o valor comercial da região à época; a força naval envolvida por ambas as partes; como se desenrolava uma batalha naval, etc.
Satisfazendo estas perguntas de amigos e leitores do CR, embora neste momento bem longe, em Macau, e porque a situação no Golfo ainda se mantém conforme descrito no início, passarei de imediato a responder abreviadamente.
- Teatro de operações e valor comercial
Os grandes obstáculos às intenções monopolistas portuguesas para o comércio da Índia iniciadas nos finais do século XV eram as estradas marítimas do Mar vermelho e Golfo Pérsico, bem como as armadas árabes que por aí enxameavam. Esta região totalmente dominada pelos seguidores do Profeta, distribuía-se por diversos principados muçulmanos, quando da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia em 1498: nas margens do Mar vermelho dominavam os mamelucos que haviam conquistado o Egipto em 1250, derrotando a dinastia dos “alúbidas”; na região Somali, “corno” de África, com pontos importantes e estratégicos como Zeila, Berbera, Ixá, e Mogadishu, proliferavam pequenos sultanatos, que se expandiam para o Sul, ao longo da costa “suahili”, formando aquilo que os árabes designavam como o “país Zandj”; no litoral sul da Arábia dominavam os reinos de Aden, Xael e Fartaque; no Golfo Pérsico era senhor absoluto o reino xiita de Ormuz; no Golfo de Cambaia, com pontos estratégicos como Diu e Surrate, ficava o reino de Cambaia que se prolongava até ao meio da Península Indostânica. Do ponto de vista comercial os mercados do Ocidente estavam longe de competir em variedade e riqueza com os produtos da zona que eram objectos de um tráfico intenso e organizado, de séculos, desta região para diferentes pontos da Ásia ou mesmo com a Europa. Segue-se um quadro com portos e produtos da região:
| Mar vermelho:
Jeddah, Maçuá, Corfacão – Socotorá – |
aljôfar, frutasamaro-aloés, sal |
| Costa Somali:
Zeila, Berbera e Ixá – Mogadishu – |
marfim, ouro, ébano, âmbarescravos |
| Costa Meridional da Arábia:
Xael, Fartaque, Calafate – Adén, Dofar – |
mirraruiva (planta tintureira) |
| Costa de Oman:
Calhate, Mascate e Zohar – |
pérolas, cavalos da Arábia |
| Golfo Pérsico:
Bahrem – Bassorá e Ormuz – |
pérolas, prata,esmeraldas, tapeçarias, cavalos da Pérsia e Arábia |
| Golfo de Cambaia:
Diu – |
anil, alúmen, ópio, tecidos grossos |
Esta enumeração das riquezas da região do Golfo e áreas limítrofes, ainda que sucinta, basta para podermos imaginar o atónito deslumbramento que teria provocado no espírito dos portugueses. Se acrescentarmos as outras riquezas comerciais do Oriente facilmente compreenderemos o que os fez desviar da intenção inicial que era a procura de uma rota comercial para as especiarias do Indostão, e da troca amistosa de produtos nessa Península. Foi assim de mau grado que os árabes viram os barcos portugueses sulcarem as suas águas, pois rapidamente se aperceberam do grave risco que corria toda a sua organização marítimo-comercial. Estava criado um clima de desconfiança e hostilidade agravado pelo carácter, costumes, leis e religião diferentes. Veneza, a cidade europeia que mais lucrava do comércio no Índico, inicia em parceria com os sultões do Egipto, Arábia, Pérsia e Cambaia, um “complot” para, numa ação conjunta, tornar mais sérios e definitivos os embaraços que então se opunham já aos interesses portugueses no Oriente. Das simples sabotagens aos atrasos de carregamento, os “mouros de Meca” atacam agora e hostilizam os reinos amigos dos portugueses. Digo reinos amigos, porque apesar da “crença” comum, era notória a falta de sólida unidade política entre os muçulmanos – o que ainda hoje se verifica – e que favorecia os portugueses.
- Força naval
Nos começos do século XV ainda a nossa marinha sofria os efeitos das desastrosas guerras a que conduzira a política externa de D. Fernando. É no tempo do Infante D. Henrique e por toda a actividade marítima por si empreendida, que se dá lugar aos cuidados necessários à construção naval, que encontrou em D. Afonso V, o grande protetor. Nos finais do século XV, princípio do século XVI, para as pretensões marítimas portuguesas eram necessários navios de alto bordo, como “caravelas redondas”, modelo mais aperfeiçoado da conhecida e famosa caravela já existente desde o século XII, as “naus” modelo mais evoluído e de porte superior às existentes ao tempo de D. João I, e já com três cobertas, e os “galeões”, navios que aparecem a substituir as galés de combate, já com duas cobertas e inicialmente ainda com um esporão na proa. Estes navios formaram o grosso da força naval portuguesa do século XVI a meados do século XVII. A estes navios de alto bordo, de uma construção bastante sólida para vencer as longas e perigosas viagens da circum-navegação do Cabo das Tormentas, depois rebatizado Boa Esperança, logo superiores aos dos árabes que eram de construção mais fraca face à docilidade das águas do Golfo e do vento favorável que sempre gozaram, juntaram os portugueses as pequenas embarcações que conquistavam no Índico, tais como “dows, zambucos e cotias”, formando com elas armadas mistas. Estas embarcações à vela e a remos foram extremamente importantes nas águas pouco profundas, pela sua manobra rápida e facilidade de abordagem. Prestaram um papel tão relevante que Mascate e Ormuz se tornaram grandes bases de construção naval deste tipo, apoiando as armadas portuguesas na zona.
Face ao fim a que destinavam, os grandes navios eram armados poderosamente. O papel essencial em todos os combates era desempenhado pela artilharia. Daí que cada navio era armado com uma média de quarenta peças distribuídas entre as de pequeno calibre – camelos e falcões – e as de grande calibre tais como berços, esperas e pedreiros. Todas elas eram carregadas pela boca, exceptuando os berços e os falcões que dispunham de culatra e câmara amovível. Se a qualidade dos navios deu aos portugueses alguma vantagem por um dilatado período, vantagem essa muitas vezes neutralizada pela superioridade numérica dos navios mouros, o mesmo já não se poderá dizer da artilharia, porquanto já por volta de 1512 os mouros dispunham de canhões em bronze e em 1521, porque ajudados por Veneza, dispunham já por todo o Golfo de canhões semelhantes aos portugueses. À medida que passavam a dispor de artilharia de maior calibre, a táctica de abordagem caía em desuso dando lugar ao combate à distância, utilizando os navios para o efeito a formação em coluna, para uma melhor utilização das suas baterias.
Nestas águas foram muitos os navios que desempenharam papel de relevo em grandes combates. Vejamos alguns: na costa Sul da Arábia em 1510 a Nª Sª do Rosário, em 1513 a Flor da Rosa, e em 1517 a Sta. Catarina do Monte Sinai, capitaneados respectivamente por Pêro Correia, Manuel Lacerda e D. Aleixo Menezes; no Golfo Pérsico em 1515 a nau Nazaré, capitaneada por Jorge de Albuquerque; no Mar Vermelho em 1516 a nau Nª Sra. da Graça e em 1518 a nau S. Julião, capitaneadas respectivamente por Tristão da Cunha e Bartolomeu Gonçalves. É de recordar que naquelas águas, uns anos antes já Afonso de Albuquerque capitaneando a nau Cirne e tendo na sua armada outras naus como São Vicente, S. Jerónimo, Correia e Encarnação, havia obtido estrondosas vitórias e conquistado Ormuz, bloqueando o seu Estreito às armadas árabes. Contudo a maior das batalhas navais foi a de Diu, no mar da Arábia, a 3 de fevereiro de 1509, entre uma esquadra portuguesa de 18 navios, entre naus, caravelas e galés, comandada por D. Francisco de Almeida, contra uma frota conjunta do Sultão de Guzarate, do Sultanato Mameluco Burji do Egito e do Samorim de Calicute com o apoio da República de Veneza, capitaneada pelo emir Hussain Al-Kurdi, composta por mais de 120 navios entre carracas mediterrânicas e fustas de guerra, sendo as primeiras manuseadas por artilheiros venezianos. A armada portuguesa dividiu-se em quatro grupos: um grupo para abordar as naus muçulmanas após um bombardeio preliminar, outro para atacar pelo flanco as galés inimigas estacionadas, um ‘grupo de bombardeio’ que apoiaria o restante da frota, e a própria nau capitânia, que não participaria da abordagem dos navios mamelucos, mas se posicionaria de modo a comandar a batalha e apoiá-la com seu poder de fogo. O bergantim Sto. António asseguraria as comunicações. Esta estrondosa vitória portuguesa foi uma das mais importantes da história naval mundial, pois marca o início do domínio europeu sobre os mares asiáticos que duraria até a Segunda Guerra Mundial e ainda hoje é estudada nas Escolas Navais de alguns países. Do lado adversário justiça seja feita à nau “Meri”, pelo combate que sempre deu aos portugueses no Golfo Pérsico e acabou tomada quando da conquista de Ormuz. De 800 toneladas transportava 800 homens de armas.
- O decorrer de uma batalha naval
Esta a questão mais difícil que me foi colocada. Procurarei responder simulando uma batalha naval entre duas naus, ainda antes de 1520, pois era frequente então toda a batalha naval terminar com uma indesejada abordagem onde se dava início a uma violenta e sangrenta luta corpo a corpo.
Vejamos então. À voz do gageiro que do alto do mastro grande vigia o horizonte, de “barcos inimigos à vista”, o capitão-mor dá ordens preparatórias para o combate. De imediato retira-se do convés tudo quanto é desnecessário. Os jovens grumetes espalham areia no chão para evitar que se escorregue no sangue que o irá ensopar. Os escaleres são arreados e metidos a reboque. Nas cobertas, artilheiros e gastadores abrem as portinholas e preparam as baterias. Acertam as bimbarras, obtendo a altura desejada para os canhões bornear com exactidão. Põem os acessórios do canhão à mão: buchas, mechas, escovilhão, morrões, tira-trapos, etc, tudo a jeito para se conseguir um tiro de dois em dois minutos. No castelo de proa sinais de bandeira mandam dispor a armada “em linha” para na altura certa romper ou envolver a linha dos navios inimigos que são persas. Os piqueiros e besteiros já armados e protegidos pelos seus “morriões, peitos, espaldares e escarcelas” armaduras que representando uma assinalada vantagem não deixam, contudo, de oferecer gravíssimos inconvenientes pelo seu peso, tomam posições no convés. Os arcabuzeiros, dispostos ao longo da amurada do navio, em gestos nervosos retiram as coberturas das caçoletas dos seus arcabuzes, ajeitam as forquilhas de apoio e acendem as mechas, lançando um último e cuidadoso olhar aos polvorinhos.
Na armada inimiga a azáfama não é menor. Dispõem-se os homens no convés trazendo já o seu aligeirado equipamento: o “sipar” e o “char-aina” protectores (escudo circular de aço para o braço e placas protectoras para o peito e dorso), o “shamshir” (cimitarra) ou o “tabar” (machado de aço). Nos castelos da proa e popa abrigam-se os arqueiros e arcabuzeiros. Já próximas as naus, o capitão-mor dá ordem de “fogo”. De imediato o cheiro acre e o fumo espesso da pólvora negra enchem os ares. De ambos os lados um ou outro tiro eficiente da artilharia de maior alcance lançam os primeiros pelouros, que abrem brechas nas formações compactas do convés.
Comandados por um sargento, artilheiros e gastadores da nau portuguesa em grande azáfama fervilham no meio da fumaça e do barulho atroador. Os grumetes em corrupio correm entre o paiol e os canhões transportando pólvora. Os mortos são lançados ao mar para desembaraçar o convés. Os feridos são levados para a enfermaria da coberta, abaixo da linha de flutuação, onde o cirurgião extrai os estilhaços. Com o serrote amputa-se os mais graves, substituindo a anestesia pela mordaça regada a aguardente.
Aproximam-se os navios, ficando ao alcance do fogo dos mosquetes e arcabuzes que procuram primeiro atingir os marinheiros inimigos no sentido de dificultar as manobras. Os portugueses disparam bordadas inteiras procurando manter distância segura, evitando um combate de abordagem corpo a corpo pois a enorme vantagem numérica favorecia o inimigo. Mas já não é possível. Os canhões atiram já à queima-roupa. Lançam-se as primeiras granadas. É grande a confusão, principalmente na cozinha, na primeira coberta, onde os pelouros de ferro forjado de grande calibre criam desordem de tal ordem entre gamelas com biscoitos, celhas com “tassalhos” de baleote, pipas de vinho e tinas com mel, quiçá a refeição em preparação. Os portugueses preparam-se para a abordagem. Os grupos já de antemão designados deixam os seus postos de combate e armam-se de sabres, roncões e machados. Voam nuvens de setas. Neste barulho medonho de explosões, gritos e choros são já muitos os mortos de ambos os lados. Atiram-se as fateixas para enganchar os navios. À voz de abordar, dá-se o assalto sob a cobertura de intenso fogo de mosquetes e arcabuzes. Alguns caem entre os dois cascos e são esmagados. Uma caótica luta corpo a corpo, extremamente sangrenta e desgastante tem lugar, o que impossibilita que o combate direto se prolongue por muito tempo: vinte minutos depois um dos lados é subjugado.
(Bibliog.: Oliveira Martins; Quinino Fonseca; Charles Boxer; Jaime Cortesão; Henrique Mendonça; Erik Abramson)
