A Delegação de Azinhaga da Fundação José Saramago está a convidar a população local para um projeto de teatro comunitário inspirado na personagem Blimunda, de “Memorial do Convento”, a ser desenvolvido pelo ator e encenador António Fonseca.

Em declarações à Lusa, o ator e encenador António Fonseca explicou que o projeto nasceu de um desafio lançado pela Fundação José Saramago para desenvolver um trabalho artístico que cruzasse a obra do escritor com o território da Azinhaga, sublinhando o seu interesse antigo pelo romance “Memorial do Convento”.

“É um romance que eu já li várias vezes e de que gosto muito”, afirmou, acrescentando que a figura de Blimunda se destacou como ponto de partida pela sua dimensão simbólica e pela forma como “não olha, vê”, associando a personagem a uma ideia de descoberta e pensamento.

O projeto, que terá como título de trabalho “Ela Blimunda” (ou “Eu Blimundo, Tu Blimundas, ela blimunda”), centra-se na ideia de transformar a personagem num verbo — “belimundar” —, numa abordagem que pretende ir além da adaptação direta da obra de Saramago.

“Não é uma adaptação do ‘Memorial do Convento’. É um trabalho à volta da obra, da Azinhaga e das pessoas”, explicou o encenador, referindo que o espetáculo será construído progressivamente com contributos dos participantes locais.

Segundo António Fonseca, o processo criativo será aberto e baseado na participação ativa da comunidade, valorizando a experiência, a sensibilidade e a imaginação de cada pessoa, independentemente da sua formação artística.

“O que me interessa é que as pessoas façam como sentem”, afirmou, defendendo que a energia, a paixão e a capacidade de partilha são mais relevantes do que a técnica teatral.

O encenador destacou ainda o caráter coletivo do projeto, sublinhando a ideia, presente na obra de Saramago, de que “todas as pessoas fazem a História”, incluindo aquelas que habitualmente não têm visibilidade.

A iniciativa pretende envolver as três localidades do concelho da Golegã (Golegã, Azinhaga e Pombalinho), quer ao nível da participação, quer na apresentação final do trabalho, que deverá circular por estes territórios.

O espetáculo, ainda em fase de criação, deverá integrar elementos da obra de José Saramago, mas também contributos originais dos participantes, assim como referências locais, numa construção que o encenador descreve como “uma provocação” a partir da literatura e da imaginação coletiva.

Entre os contributos esperados estão igualmente participações de agentes locais, incluindo artistas e associações da região, reforçando o objetivo de criar um trabalho enraizado no território.

Entre os elementos que poderão fazer parte do espetáculo estão as “cem oliveiras” da Azinhaga, cada uma associada a personagens das obras de Saramago, bem como contributos de participantes com diferentes experiências, incluindo artistas locais.

“Não vou levar uma coisa fechada. Vamos discutir com as pessoas e criar juntos”, afirmou,

António Fonseca salientou ainda o papel da Fundação José Saramago na dinamização cultural da Azinhaga, elogiando o trabalho desenvolvido na promoção da relação entre a obra do Nobel da Literatura e as comunidades locais.

“É o meu contributo para continuar este diálogo”, afirmou.

As inscrições para o projeto encontram-se abertas junto da Delegação de Azinhaga da Fundação José Saramago, até dia 23 de junho.

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