Podemos rever o ator Armando Venâncio, na novela “Cinzas”, novamente no ar na RTP Memória. Dos teatros itinerantes que cruzavam o país, às novelas, o seu percurso cruzou diferentes épocas e deixou uma marca indelével na história das artes performativas em Portugal. Em mais de meio século de atividade profissional, Armando Venâncio afirmou-se essencialmente como um ator de Companhia e de repertório. Longe do vedetismo e notório pela sua discrição pública fora dos palcos, o seu impacto na Cultura Portuguesa, mede-se pela extraordinária continuidade e qualidade do seu trabalho.
Armando Toscano Venâncio, nasceu no dia 5 de Setembro de 1925, em Vieira de Leiria, no concelho da Marinha Grande. Por ser filho de atores, cresceu num ambiente intimamente ligado ao teatro. Tendo perdido o pai na infância, a sua mãe contraiu novo matrimónio com Paulo Gabriel Moiron, o que inseriu o jovem no meio artístico da família Moiron. A sua carreira no palco iniciou-se na infância: registos do teatro português ligam-no, já em 1935, à Companhia Dramática Lisbonense “Les Moirons”, sob a direção do padrasto e do irmão mais velho, Leonel Venâncio. Neste contexto familiar, Armando dominou desde cedo as rotinas teatrais, trabalhando como ator e nos bastidores, onde também desempenhou o papel de ensaiador. A representação era uma herança familiar, partilhada igualmente pela sua irmã, a atriz Cremilde de Oliveira Venâncio.
A sua estreia profissional deu-se em 1945, aos 19 anos, no seio da “Companhia Rafael de Oliveira”, por ocasião da representação da peça “Amor de Perdição” (adaptação homónima da obra de Camilo Castelo Branco) em Évora. Integrada nos “Artistas Associados”, esta Companhia desempenhou uma função fulcral na descentralização teatral em Portugal, conduzindo o teatro profissional a inúmeras localidades do país, num período de vulnerabilidade no acesso à cultura. Este longo percurso em digressões estendeu-se até 1963 e proporcionou a Armando Venâncio uma formação eclética e versátil, habituando-o a moldar a sua atuação a diferentes públicos, palcos e géneros, transitando organicamente entre o drama, a comédia e as variedades.
Estabelecida a sua residência em Lisboa, o ator ingressou no circuito do Parque Mayer, colaborando no Teatro ABC. Nessa sala, notabilizou-se na vertente da revista, integrando produções de grande sucesso como “Regar e Pôr ao Luar”, “De Biquíni e Chapéu Alto” e “Lábios Pintados”. Simultaneamente com o género ligeiro, preservou a sua atividade no teatro declamado, com passagens por instituições de relevo como a “Casa da Comédia”, Teatro Maria Matos, Teatro Monumental, Teatro Villaret e Companhias associadas ao Teatro Nacional D. Maria II.
No ano de 1964, passou a integrar o núcleo fundador do “Teatro Estúdio de Lisboa”, juntamente com a dramaturga e encenadora Luzia Maria Martins e a atriz Helena Félix. Instalada no Teatro Vasco Santana, a companhia marcou a diferença no panorama cultural português, rompendo com o modelo comercial para divulgar repertórios e linguagens da dramaturgia contemporânea internacional. Mais tarde, Armando Venâncio colaborou também com a emblemática Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro. Em 1975, embalado pelas intensas mudanças sociais decorrentes do 25 de Abril, criou o “Teatro do Povo” com o ator Pedro Pinheiro, dedicando-se a peças de forte cariz social com produções como “Avenida da Liberdade” e “Uma Canção no Pão”. Se o Teatro foi a sua grande Escola, foi a Televisão que projetou a sua imagem junto do grande público. A sua carreira no pequeno ecrã teve início logo nas primeiras emissões em direto da RTP, um período em que o canal dependia estritamente do profissionalismo e da precisão dos atores de palco.
Com a evolução da ficção nacional para as séries e telenovelas, o ator passou a ser uma figura habitual e um pilar de solidez nos papéis secundários. O seu trabalho na televisão incluiu produções de grande impacto: “A Tragédia da Rua das Flores”, “Origens” — uma das primeiras grandes telenovelas portuguesas —, “Chuva na Areia”, “Cinzas” e “Verão Quente”. Armando Venâncio assistiu e participou na transformação do panorama televisivo até ao aparecimento das televisões privadas na década de 1990. Passou a fase final da sua vida na Casa do Artista, em Lisboa, tendo partido a 7 de julho de 2020, aos 94 anos, a escassas semanas de celebrar o seu 95.º aniversário. O seu MEMORÁVEL percurso intercetou distintos períodos históricos, deixando um cunho perene nas artes performativas em Portugal, distante da vaidade mediática e pautado por uma vincada sobriedade fora dos palcos, o seu legado na Cultura Portuguesa, afere-se pela extraordinária continuidade, firmeza e qualidade do seu desempenho.
