As dez lições da pandemia (até agora)

Depois do susto inicial trazido pelo SARS-CoV-2, é tempo de organizar ideias, disciplinar receios e planear o futuro. Não podemos abdicar de viver e a sociabilidade é-nos indispensável. Para retomar a vida social é essencial saber analisar e aprender com o que tem acontecido nos últimos dois meses, desde o primeiro contacto direto com a pandemia. E têm sido muitas as lições desta pandemia:

  1. O regresso das doenças infetocontagiosas
    Com o desenvolvimento científico e tecnológico da segunda metade do século XX, em particular com o surgimento dos antibióticos na prática clínica e a generalização de planos sistemáticos de vacinação, ficou a ideia que os micróbios tinham sido derrotados. Aos poucos, as doenças devastadoras causadas por agentes infeciosos foram sendo menosprezadas e esquecidas no mundo mais abastado. Doenças do envelhecimento, como a de Alzheimer, o cancro e doenças ligadas ao estilo de vida, como diabetes mellitus, começaram a ter quase o exclusivo de atenção. Atenção dos cientistas; atenção dos meios de comunicação; atenção das indústrias; atenção política; atenção social, de todos nós.
    A SIDA demonstrou que a longa guerra contra agentes infeciosos estava longe do fim mas foi percecionada como um problema só de alguns estilos de vida. As bactérias super-resistentes deram o aviso seguinte mas nunca se lhe deu o devido relevo. A gripe ameaçou várias vezes, incluindo com a Gripe A mas não chegou a ganhar dimensão. Agora veio o choque com a realidade: uma doença infeciosa em larga escala em que todos são potencialmente infetáveis: afinal todos respiramos e este é um vírus do sistema respiratório.
  2. Recusar o fatalismo
    Com o desenvolvimento da medicina e das ciências que a sustentam, as doenças infetocontagiosas podem atormentar-nos, como fizeram com os nossos avós, mas não temos de as encarar como os nossos avós. Se antes eram encaradas com fatalismo e terapias empíricas, agora o conhecimento acumulado sobre como subsistem e se multiplicam os micróbios, sobre a sua composição, sobre as suas fraquezas, e sobre como podemos montar estratégias para descobrir vacinas e medicamentos fazem toda a diferença. Num momento como este há muito para fazer e encolher os ombros não é uma das opções. O que sabemos sobre formas de transmissão é precioso para montar estratégias de prevenção, como será uma eventual vacina e como serão os medicamentos que vierem a existir.
  3. A importância de conhecer e decidir
    A Ciência produz conhecimento; o que fazer com ele é matéria de todos. Numa primeira reação à pandemia alguns países adotaram estratégias científicas, outros estratégias anticientíficas, outros nem uma coisa, nem outra – optaram por estratégias acientíficas. Países nórdicos e Reino Unido optaram por apostar na imunidade de grupo, atendendo a que perante um problema súbito e sem vacina no curto prazo esta seria a melhor defesa. Países como os Estados Unidos da América (EUA) e o Brasil optaram por tomar atitudes completamente contrárias ao conhecimento científico de pandemias virais, optando por negar ou desvalorizar grosseiramente o problema, induzindo as populações em erro. Outros países, na indefinição, optaram por ganhar tempo até à elaboração de um plano. Portugal demorou um mês e meio para emergir de um plano acientífico para um nível científico.
  4. Um vírus vale mais que uma superpotência
    Que a China emerge como superpotência, já estamos conscientes. Primeiro uma potência económica e política, agora também como potência tecnológica. Neste sentido, disputa espaço aos EUA, a nação que se constituiu como superpotência no pós-guerra por uma aposta estratégica sistemática e constante em ciência e tecnologia. Levar uma missão tripulada à lua ficou como o marco, o acontecimento-chave, do seu poderio. O dia 23 de abril de 2020 ficará como o marco do início do fim deste período: o líder da maior potência mundial fundada em Ciência e Tecnologia sugere injetar o corpo humano com componentes de desinfetantes de uso comum. Poucos dias antes tinha influenciado o despedimento de um alto responsável sobre vacinação e saúde pública. Nunca os EUA foram tão pequenos, em 100 anos, desde o final da primeira grande guerra. O líder da grande meca de Cientistas e Engenheiros de todo o mundo esmagava, ele próprio, perante a incredulidade do mundo, a essência do que o seu país é feito.
  5. Um novo foco geracional
    É da natureza humana: damos atenção aos nossos filhos. A educação não é apenas um hábito cultural, é um elemento essencial à expansão da nossa espécie. Cuidamos dos filhos como os elementos mais frágeis das famílias e como garante do nosso legado. Contudo, numa Europa envelhecida, somos hoje confrontados com uma redistribuição das fragilidades geracionais. Não são apenas as crianças que precisam de atenção; as gerações mais velhas necessitam igualmente de atenção e cuidados especiais. Esta realidade tem estado perante nós mas foi preciso o medo inspirado pelo SARS-CoV-2 para a enxergarmos.
  6. Revalorizar a informação
    Em apenas seis semanas cientistas e jornalistas descobriram-se entre si. Num mundo inundado de teorias da conspiração, notícias falsas (“fake news”) e redes sociais rápidas e acríticas, quando a matéria se tornou séria porque interferia (literalmente) com a vida de muitos, foi necessário recentrar valores e buscar informação credível e escrutinada. Foi necessário procurar fontes de informação fiáveis e foi necessário garantir o escrutínio de quem transmite essa informação. Dito de outra forma, a Ciência e o Jornalismo, devidamente certificados e à altura das responsabilidades, foram recolocados em papel central. Nas alturas de maior aperto, trigo e joio não podem ser confundidos. Fica para o futuro, espero, um legado de encontros entre dois grupos profissionais muito complementares mas tradicionalmente sub-ligados entre si: os que produzem informação de forma credível e os que a transmitem de forma responsável.
  7. Pensar globalmente, atuar localmente
    “Pensar globalmente, atuar localmente” é uma visão que nos foi transmitida pela Ecologia, desde que nos revelou que o planeta é um só e estamos todos ligados pelo meio ambiente, ainda que o nosso raio de ação individual seja pequeno. Numa situação de pandemia, é inevitável que nos perguntemos se estamos a fazer tudo o que é necessário para: i) reduzir o impacto de pandemias futuras – estamos a repensar os planos da Proteção Civil?, e ii) impedir que ecloda entre nós o foco de uma pandemia – estamos a garantir a salubridade das nossas cidades, controlando pragas de aves e mamíferos que possam servir de fontes de vírus que mutem e se adaptem a humanos?
  8. O valor da História
    Grande parte do que estamos a viver foi já vivido pelos nossos antepassados há um século atrás, em 1918-1919. Esquecemos e fizemos mal. A amnésia foi de tal ordem que não assinalámos a passagem do centenário da Gripe Espanhola. 50-100 milhões de mortos em todo o mundo não foi suficiente. A História enquanto ciência precisa também de ser revalorizada e recentrada. A História não é um conto épico de epopeias e heróis, é uma ciência de olhar crítico sobre nós e uma ajuda preciosa no progresso social e cidadania.
  9. O admirável mundo velho
    Costumávamos fantasiar sobre um admirável mundo novo, de trabalho remoto e mais lazer, tornado possível por tecnologias digitais. Especulamos sobre o efeito que terá esta quarentena súbita e forçada sobre o encurtar de distâncias para esse admirável mundo novo. O mais provável é descobrirmos que esse mundo novo não é tão admirável assim. O ensino à distância resulta como contingência mas não convence como alternativa; o ensino-aprendizagem é de eficácia duvidosa e as avaliações são um quebra-cabeças. As relações laborais tornaram-se genericamente menos eficientes. Os processos tratados em teleconferências tornaram-se mais cansativos e longos. Este mundo novo, para ser admirável, deve vir em doses moderadas e criteriosamente escolhidas.
  10. Cidadania e responsabilidade melhor que vacinas e medicamentos
    Desenvolver vacinas e medicamentos demora tempo. No curto prazo teremos de viver sem eles. A nossa proteção é o que temos de essencial e aquilo com que sempre podemos contar em qualquer altura: o nosso bom senso, a nossa cidadania e o nosso sentido de responsabilidade. Conseguir adotar procedimentos que evitem contágios, dar proteção aos mais vulneráveis e estar bem informados, sendo criticamente cooperantes, como em qualquer democracia. Sobretudo, recusando abdicar de direitos fundamentais, cedendo ao medo, inclusive a pretexto de argumentos de saúde pública. Conciliar ambos é o grande desafio de todos nós. Não ignoremos as vítimas da pandemia mas não ignoremos também a coragem e os que morreram para nos garantir a Liberdade e a Democracia. Uns como outros, não merecem tal desonra. Não nos deixemos, também agora, tomar pela amnésia.

Miguel Castanho – Investigador em Bioquímica

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