A indefinição prolongada sobre a liderança das Unidades Locais de Saúde (ULS) pode prejudicar a gestão estratégica das instituições, a continuidade dos projetos e a capacidade de planeamento, disse hoje o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH).

A situação “não é desejável” e pode condicionar sobretudo a capacidade das administrações para definir e executar estratégias de médio e longo prazo, embora os conselhos que permanecem em funções tenham plena capacidade para assegurar a gestão das instituições, afirmou Xavier Barreto à Lusa.

Para o presidente da APAH, “faz toda a diferença” ter um mandato de pelo menos três anos para implementar uma ideia, um projeto ou uma estratégia, considerando que sem essa certeza dificilmente se lançam “grandes planos estratégicos” ou “grandes mudanças de fundo” numa ULS.

A situação é particularmente visível na ULS Médio Tejo, com sede em Torres Novas, cujo conselho de administração, liderado por Casimiro Ramos, terminou formalmente o mandato em 31 de dezembro de 2025, mas continua em funções.

Questionada pela Lusa, a Direção Executiva do SNS confirmou que a situação se mantém inalterada e que o conselho continua plenamente habilitado a assegurar a gestão da ULS.

Xavier Barreto ressalvou que a indefinição não impede decisões imediatas, como contratar médicos ou enfermeiros ou adquirir equipamentos, mas pode travar a capacidade de pensar a saúde de uma população a longo prazo, uma vez que “faz toda a diferença” saber quanto tempo se permanecerá à frente de uma instituição.

A situação do Médio Tejo não é um caso isolado, com Xavier Barreto a afirmar que são “várias” as ULS e outras instituições do SNS que aguardam uma decisão, havendo casos há mais de um ano ou um ano e meio.

O presidente da APAH salientou que existem equipas com provas dadas que “faria todo o sentido” reconduzir, manifestando, contudo, a expectativa de que a demora não seja “um sintoma de uma eventual mudança para pior”.

Para Xavier Barreto, a questão relaciona-se também com os critérios usados na escolha dos responsáveis pela gestão das ULS, defendendo que sejam selecionadas pessoas com experiência, formação, capacidade de liderança e provas dadas na gestão, independentemente de terem ou não filiação partidária.

“A nomeação é essencialmente uma nomeação política”, afirmou o presidente da APAH, considerando que esse cunho político tem marcado a escolha dos conselhos de administração em vários Governos, mas defendendo que a pertença a um partido não deve constituir, por si só, critério suficiente para gerir instituições com orçamentos de centenas de milhões de euros.

Xavier Barreto relacionou ainda a indefinição das administrações com o atraso na assinatura dos contratos-programa das ULS, que continuam por concluir, deixando por definir financiamento, objetivos, indicadores e metas.

“Todo esse processo está prejudicado enquanto os contratos-programa não estiverem assinados”, afirmou, referindo que a contratualização estabelece objetivos de produção, mas também indicadores de qualidade e eficiência.

Xavier Barreto não defende, por isso, uma aceleração das nomeações a qualquer preço, sustentando que é preferível demorar mais tempo se isso permitir selecionar as pessoas certas.

“Nós não vamos colocar nenhuma pressão na celeridade do processo se isso significar uma menor exigência na escolha das pessoas”, declarou.

No caso do Médio Tejo, que gere os hospitais de Abrantes, Tomar e Torres Novas e 35 unidades de cuidados de saúde primários, dando resposta direta a cerca de 170 mil utentes, a principal consequência de uma indefinição prolongada será, segundo o presidente da APAH, o risco de “se abrandar na implementação de uma estratégia de gestão da saúde de uma população”.

Em abril, a Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT) defendeu a recondução da atual equipa, considerando que a indefinição estava a condicionar a gestão e alertando para possíveis consequências em investimentos e decisões destinadas aos anos de 2027 e 2028.

“Quanto mais rápido se decidir, se fixar o mandato, obviamente que mais planos de longo prazo poderá fazer e isso também é importante”, concluiu Xavier Barreto.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

USF Marquesa de Alorna entra em funcionamento e reforça cuidados de saúde em Almeirim

O Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria) visitou, nesta sexta-feira, 7 de março, a nova Unidade de Saúde…

Jovem médica lança apelo: “por favor, fiquem em casa”

Teresa Oliveira, tem 29 anos, e é médica interna na especialidade de Medicina Intensiva nos Hospitais do Médio Tejo.  Desde o início da pandemia…

Hospital de Santarém com urgências “congestionadas” pede desvio de doentes até às 24:00

O Hospital Distrital de Santarém (HDS) pediu ao Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) o desvio de doentes urgentes até às 24:00 de…

Hospitais do Médio Tejo receberam três mil doentes em dois anos de pandemia

O Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) recebeu nos últimos dois anos cerca de 3 mil doentes com covid-19 nas urgências e fez mais…