Já faz em Dezembro meio século que o povo de Santarém tem direito a escolher a presidência da sua Câmara Municipal.

Foi em 1976, na sequência do 25 de Abril, que se realizaram as primeiras eleições autárquicas livres, em que todos e todas tiveram direito de voto.

Uma só vez

Mas, ao longo desse tempo, ainda só uma vez é que houve alternância no poder. Só uma vez mudou o partido na presidência do executivo camarário. Aconteceu em 2005 – já há mais de 20 anos.

Esta situação é indício de um empobrecimento na vida democrática deste concelho. Afinal, num sistema político multipartidário, a alternância é um mecanismo essencial de regeneração do próprio sistema.

Quando o mesmo partido se eterniza no poder, tornam-se mais propensos fenómenos tendentes a uma perda de qualidade dos dirigentes e da gestão. Gera-se uma indolência face a problemas que se deixam arrastar. Começa a mancar a resposta e a sensibilidade perante novos desafios.

Mais de 100 anos

A falta de alternância eleitoral em Santarém torna-se ainda mais pesada se olharmos para o antes do 25 de Abril.

Durante meio século de ditadura, não houve direito de escolher. Os presidentes de Câmara eram diretamente nomeados pelo governo.

Pelo que é preciso recuar mais de cem anos, até se encontrar outra mudança de partido no poder municipal que tenha sido decidida pelos eleitores scalabitanos.

Aconteceu em 1917, nas segundas eleições autárquicas no regime da 1ª República.

O Partido Democrático vencera as anteriores eleições. E pretendia agora continuar no poder. Mas, dessa vez, quem teve mais votos foi a chamada “lista neutra”. Era uma espécie de coligação entre dois outros partidos republicanos, o Evolucionista e o Unionista, com elementos monárquicos e independentes.

Tempo de guerra

A tal “lista neutra” foi tida como mais conservadora. Mas a realidade foi mais complexa. Afinal, até incluiu um candidato conotado à esquerda, o fotógrafo Carlos Gomes, que era dirigente da Associação Fraternidade Operária de Santarém – hoje chamada Sociedade Recreativa Operária.

Foram eleições no contexto da Primeira Guerra Mundial, e da profunda crise social que essa guerra gerou. Houve alguns indivíduos que fizeram grandes fortunas, à conta de negócios de especulação e açambarcamento. Mas a maioria da população sofreu bastante com o aumento do custo de vida e a desvalorização de salários.

O Partido Democrático também estava à frente do governo nacional. E foi responsabilizado pela crise e pela repressão com que tendeu a responder à contestação social. Além de greves e manifestações, houve inúmeros motins populares para assaltar armazéns de batatas e de outros géneros alimentares. Muita gente passou fome…

No Ribatejo também se deram alguns motins desses, um deles no mercado de Santarém… E a “lista neutra” soube congregar o descontentamento local.

Os dois presidentes

Assim, ao professor Pedro António Monteiro (foto da esquerda), presidente da Câmara de Santarém entre 1914 e 1917, sucedeu o comerciante Manuel António Neves (foto da direita), que assumiu a função em 1918 e 1919.

Foi uma alternância entre dois quadros de grande qualidade.

Antes de ser presidente da Câmara, Pedro Monteiro já tinha o saber feito de trabalhar muitos anos como professor, comerciante e agricultor. Tinha também uma vasta experiência como dirigente associativo. Foi, aliás, um dos fundadores de duas instituições que perduram na cidade de Santarém: a Associação Comercial e o Lar de S. António.

Por sua vez, Manuel António das Neves, já tinha marcado o comércio scalabitano, com o seu trabalho e espírito empreendedor. Dispunha de uma vasta experiência na liderança das associações de comerciantes e de agricultores. Além de coletividades de cultura e solidariedade

Nas eleições anteriores, Pedro Monteiro tinha tido 1208 votos. Mas agora desceu para 783.

Por sua vez, Manuel Neves tivera 406 votos como candidato à Junta Geral do distrito. Mas agora, para o município, recebeu 1080 votos – mais do dobro!

Luís Carvalho
Investigador

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

HÁ 50 ANOS – A construção do Complexo Desportivo

Num futuro não muito distante, Santarém vai dispor de um grande complexo desportivo, que beneficiará bastante a população e, sobretudo, os alunos dos estabelecimentos…

Escola Alexandre Herculano, em Azoia de Baixo, reabre por um dia para lançamento de livro sobre famílias

A Escola Alexandre Herculano, em Azoia de Baixo, reabriu por um dia, no passado domingo, para o lançamento do livro “Família e Aldeia –…

Correio Centenário: A União Desportiva de Santarém sagrou-se Campeã Distrital em Juniores

A equipa de Juniores da União Desportiva de Santarém, necessitando de ganhar o jogo que realizou com o Coruchense, para se sagrar Campeã Distrital,…

Canhões, explosões e destruições… Por Cândido Azevedo

Assistimos hoje diariamente em todos os canais televisivos à guerra na Ucrânia onde canhões, mísseis e drones causam, com grandes explosões, morte, caos e…