MEMORÁVEL ator de voz única e presença forte, Carlos Santos trabalhou incansavelmente até ao fim da vida, legando dezenas de interpretações notáveis. Evocar a memória de Carlos Santos é homenagear a própria história da ficção e dos palcos portugueses, desde meados do século XX até ao início do século XXI. Nascido na capital portuguesa, a 4 de Outubro de 1937, Carlos Alberto dos Santos, dividiu o seu talento entre o Teatro, a Sétima Arte, a Televisão e a Rádio. Ao longo de mais de cinco décadas, desenhou um caminho profissional definido pela versatilidade e pelo poder de uma voz marcante. A sua forte presença cénica garantiu-lhe um lugar de destaque no imaginário de múltiplos públicos e gerações. Dos palcos do Teatro Variedades, onde se profissionalizou em 1963, aos seus derradeiros papéis no Cinema e na Televisão, a sua vasta obra é um testemunho de dedicação. Carlos Santos sobressaía tanto nos papéis principais como nas personagens de elenco, às quais conferia sempre uma densidade única através da sua presença, voz inconfundível e profunda credibilidade. Antes de abraçar a carreira profissional, o ator deu os primeiros passos nos palcos amadores e no meio teatral universitário.
A estreia no meio profissional aconteceu em 1963, no Teatro Variedades, integrando a Revista “Elas São o Espetáculo”, iniciando um percurso profissional que duraria mais de meio século. A partir de então, a Arte Dramática passou a ser uma vertente vital do seu percurso profissional. O ator integrou elencos de múltiplas Companhias e abraçou registos muito variados, cruzando a Revista e o Teatro Clássico. Na reta final da década de 1960, juntou-se à emblemática Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, brilhando em produções como “O Pecado de João Agonia” (1969), além de “O Cravo Espanhol” e “A Celestina” (1970). Seguidamente, destacou-se no Grupo de Acção Teatral, nas peças “O Processo de Kafka”, “Depois da Queda” e “A Capital” e colaborou com o Teatro Municipal de São Luís. Esse percurso demonstra que a sua identidade no Teatro foi solidificada com regularidade, independentemente da grande popularidade alcançada mais tarde no pequeno ecrã. A sua voz profunda e singular foi outro elemento marcante do seu perfil artístico. Paralelamente à representação, o ator trabalhou em Rádio e Locução, aliando o domínio do palco a uma forte cumplicidade com a expressão oral. Esta assinatura vocal acabou por definir o seu cunho interpretativo, tanto no Teatro como à frente das câmaras.
No Cinema, Carlos Santos encontrou outra vertente crucial da sua carreira, somando dezenas de filmes e cruzando visões artísticas de realizadores de múltiplas gerações. A encarnação da figura de Rosa Casaco converteu-se num dos marcos mais célebres da sua filmografia. Este trabalho valeu-lhe, em 2013, a distinção de “Melhor Ator de Cinema” pela Sociedade Portuguesa de Autores, e o Prémio Sophia de “Melhor Ator Principal”. A atribuição do prémio ocorreu a 6 de Outubro de 2013, no Teatro Nacional de São Carlos, durante a segunda edição dos Prémios Sophia, coroando a sua prestação em “Operação Outono”. Foi uma homenagem da maior relevância para um veterano que, à data, celebrava já meio século de dedicação à profissão. Foi na Televisão, contudo, que encontrou o seu maior veículo de projeção popular. Ao longo do seu percurso, multiplicou-se em séries e novelas, convertendo-se num dos rostos mais familiares dos espetadores portugueses. A mestria com que desenhava perfis profundamente humanos — ora austeros, ora calorosos, dramáticos ou humorísticos — permitiu-lhe deixar uma marca indelével em várias épocas da ficção televisiva e colaborar de perto com novos e velhos talentos da representação.
No âmbito pessoal, a etapa final da sua vida foi partilhada com a atriz Amélia Videira. O casal, que vivia em união de facto, planeava oficializar o matrimónio em Dezembro de 2016, uma cerimónia que a vida não permitiu realizar. Carlos Santos faleceu subitamente a 27 de Novembro de 2016, numa fase de convalescença após uma operação à coluna cervical. Ao longo desta prolífica carreira, o ator exibiu uma invulgar flexibilidade perante as diferentes vertentes da representação. Tendo começado na Revista do Parque Mayer, soube destacar-se no teatro clássico e dramático, acompanhar as novas correntes do cinema português e integrar-se na expansão da produção televisiva. Essa versatilidade justifica a longevidade da sua carreira, e o facto de ter trabalhado continuamente durante mais de cinquenta anos.
