“A vida é um sopro, um momento. A gente vem aqui, conta uma história e vai embora.”
Óscar Niemeyer referiu-se desta forma à essência mais profunda da vida de todos nós. Cada um de nós tem a sua história e nenhuma é igual à de ninguém. Se não há duas pessoas iguais, então, havendo milhares de milhões de almas no mundo, haverá centenas de milhares de milhões de histórias para contar, todas diferentes. A humanidade é composta por aqueles que constroem as suas histórias, por aqueles que se limitam, passivamente, a viver as histórias dos outros e, ainda, por outros que, sendo criativos, constroem as suas com base em exemplos de outros.
As férias são um tempo ideal para se engendrarem narrativas. Debaixo de um chapéu de sol, à mesa de um jantar mais demorado, ou durante um passeio vespertino de passadas lentas e paragens para gestos enfáticos, as pessoas põem a escrita em dia. Não há pressa, as máquinas pararam e só se ouve o som do silêncio convidativo a narrativas reais ou imaginárias. A ficção mistura-se com a realidade e, nas férias, revisitamos boas memórias.
Pessoalmente, aproveito este meu tempo de férias para viajar, observar, escutar e refletir sobre as pequenas histórias que revelem a grandeza de quem as vive e partilha. Entendo que podemos aprender muito com os outros e há sempre algo que trago comigo e me enriquece como pessoa. Depois, faço o que mais gosto: reduzo a escrito não só o que ouço, mas aquilo que considero relevante transmitir, de acordo com a minha interpretação. Interessam-me os gestos e as atitudes, os olhares, os sorrisos ou os choros, os comportamentos, os pormenores das paisagens e os pormaiores das pessoas. Essencialmente, interessam-me os exemplos de força e de coragem de personagens anónimas que serão as personagens principais dos meus contos e das minhas crónicas. Em coisas aparentemente insignificantes, vislumbro significâncias de uma tal ordem de grandeza que tenho que partilhar para que saiam do anonimato. Seria errado ficarem só para mim. Às vezes, informo mesmo as pessoas que vou escrever sobre elas. Acontece retorquirem dizendo-me que já ninguém quer saber de amizades, solidariedades, respeito pelo outro ou altruísmo e que a normalidade é outra; que querem saber é de guerras e de desgraças, de mortes e de afogamentos em mares de vergonha.
Não penso assim. Eu quero saber das coisas boas que dão sentido à vida de todos nós. Quero saber e quero transmitir, porque gosto de fazer viajar através da minha caneta aqueles que não conseguem ter férias e que nunca se podem ausentar dos problemas quotidianos.
Eu ausento-me de mim para interpretar o mundo ao pé do mar, na praia. Abro buracos na areia onde escondo os problemas, medos e chatices, tapo-os e preparo o terreno para construir narrativas, sem castelos e ostentações, príncipes ou princesas. É lá que me sinto absolutamente livre para me poder ocupar dos outros e das suas histórias, incomuns de gente comum, de transmissão obrigatória.
Na praia, tudo é relevante e bonito. E não me refiro só às escarpas e às rochas, onde passeiam caranguejos curiosos, às tonalidades de azul dos mares ou aos barquinhos de pesca que ornamentam as baías. Às belezas naturais junto as rodas de amigos, sentados em toalhas coloridas e diferentes, tais como eles, que conversam conversas de circunstância só para exercitar a dialética e treinar as gargalhadas; a atitude contemplativa de quem somente olha o mar, inspirando força e expiando as mágoas e os problemas; a forma indolente e relaxada como os corpos tomam banhos de sol; os jogos das crianças interrompidos para um mergulho, ou o silêncio que nos é imposto pela beleza dos diálogos entre o mar e a terra quando se enleiam.
Tudo isto é bonito e a humanidade está a precisar de beleza para contrapor à fealdade das guerras, das catástrofes naturais e das diversas formas de violência.
Sou bafejado pela sorte de morar num país de mar, lindíssimo, de recortes e recantos de encantar, e os sítios que mais procuro são, precisamente, aqueles em que o aroma a maresia se mistura com o cheiro a peixe grelhado e em que as rochas enfrentam o mar, mesmo sabendo que se vão desfazer, para nosso gáudio.
E este país tão pequeno não para de me surpreender em enormidades de uma grandeza não mensurável. Este verão, aterrei na Madeira e visitei a Ponta do Sol. Não casei com uma velha da Ponta do Sol, como cantava o saudoso Max, mas encantei-me pela beleza rara daquele lugar. Os senhores das guerras do mundo deviam ser deportados para este lugar para lavagens ao espírito e branqueamento da alma, condenados a viver uma tranquilidade tão maravilhosa que os faria, por certo, abdicar da guerra, depondo as armas e repondo a paz.
O corolário aconteceu num dos dias em que pensava já não ser possível absorver mais beleza. Sentia-me intoxicado de boas sensações. O mar, na Ponta do Sol, é muito condimentado, como se Deus se tivesse distraído a pôr o sal naquela água, aparvalhado, ele próprio, com a sua criação. Por isso, boiar é ausentarmo-nos da materialidade do corpo, deixando-o aos seus cuidados, e partirmos para dimensões diferentes onde só há pessoas boas, não há guerras, as crianças não morrem de fome, ficando sem os pais, abandonados à sua sorte, as famílias não se desunem, há bens de primeira necessidade para todos, a ambição não é desmedida e a ganância não tomou conta das pessoas.
Num mar com uma temperatura de vinte e quatro graus é normal as pessoas transferirem o seu dia para dentro de água. E foi num desses momentos que presenciei uma história admirável de humanos, compartilhando a vida. Como eu, boiavam outras pessoas naquele mar de um azul tão diferente que parece que alguém despejou um tinteiro gigante, para que os escritores pudessem escrever as histórias como aquela que vos vou contar.
Boiava uma senhora já de idade avançada e a sua cara chamou-me à atenção. Era uma cara de uma pessoa de bem com a vida, tranquila, relaxada, satisfeita por ter nascido. Entretanto, deixou de boiar e nadou de bruços, brevemente. Com ela, pude observar, – não consegui fazer muito mais do que isso enquanto estive naquele lugar – estavam mais três pessoas que facilmente entendi serem do seu núcleo de amigos. Pude observar muito mais, tal era a paleta de deslumbramentos ao meu dispor. O mais importante é dizer-vos que a senhora de cara serena, lavada por aquele mar salgado de azul de tinteiro, era paraplégica!
Toda a operação que se montou para devolver o corpo da senhora à cadeira de rodas foi digna de nota e fez-se notar pela beleza da generosidade, do altruísmo e da entreajuda. Tudo feito com sorrisos. E só o corpo é que voltou à cadeira de rodas.
Bebamos destes exemplos de coragem e sejamos fortes para que não nos derrubem. E eu acredito que, um dia destes, o vento muda…
Boas férias, meus amigos!
