Caiu o pano, apagaram-se os holofotes, mas nós ainda nos perguntamos: “Qual é o joguinho que temos hoje ao jantar?”

 

Em 1863, nasceu, na Inglaterra, o futebol; cresceu e entrou-nos pelas casas dentro.

Todos temos dois pés e sabemos correr, chutar e driblar, tantas são as vezes que temos de driblar os problemas da vida. Gostamos de jogar – passamos a vida a jogar das mais variadas maneiras – e adoramos estar uns com os outros. Estavam, assim, reunidas as condições básicas para que o futebol se instalasse na vida de muitos de nós, arrebatando-nos, levando-nos ao rubro. Na génese, em bairros de todo o mundo fizeram-se umas balizas com umas pedras ou uns sapatos, escolheram-se equipas e toca de dar uns pontapés numa bola, de trapos, porque as de “catchumbo” rareavam. Entretanto, o futebol encontrou os seus eleitos, os seus artistas. Um jogo bem jogado é admirável. É um xadrez humano, refletindo muito mais do que o mero pontapé na bola que todos sabemos dar. Talvez por isso, adotamos este desporto. Ele cresceu e democratizou-se de tal forma que se estendeu a todo o mundo. O Campeonato do Mundo é já, há alguns anos, o maior evento desportivo do planeta. A edição de 2022 teve uma audiência acumulada de 5 mil milhões de espetadores e a final foi vista por 1,5 mil milhões de almas.

Este jogo joga-se em solos preparados com tapetes de relva – embora já tenha sido jogado em terra batida que arranhava joelhos e cotovelos – onde os artistas principais ensaiam solos de virtuosismo que arrancam aplausos de multidões entusiasmadas, eufóricas. Disparam-se, então, as máquinas fotográficas e os cameramans anseiam por um grande plano das vedetas. E o palco é deles. 

Mas o Campeonato de Mundo de futebol é muito mais do que isto. Há uma espécie de “subsolo” de estórias, pequenas bizarrices e grandes gestos de seleções periféricas, que dão a verdadeira cor humana ao torneio. São exemplos de comportamentos e atitudes de pessoas, ou grupos, que não querem ganhar a qualquer preço; entendem que, na vida, nunca ninguém ganha sempre. E percebem que as vitórias e as derrotas não se medem só em golos. A forma como encaramos as derrotas define-nos como pessoas. E o mundo emociona-se mais com estas personagens secundárias que, variadas vezes, passam à condição de principais.

Com o correr do tempo – que corre mais veloz do que uma bola, mesmo que chutada pelo Cristiano – o futebol mudou, adaptou-se e rendeu-se ao poder do dinheiro. O futebol romântico foi saindo de cena e apareceu, viçoso por fora, mas apodrecido por dentro, o futebol-indústria.

Tenho lembranças pessoais do futebol romântico protagonizado pelo meu Domingos Coelho, orgulhosamente guarda-redes de futebol dos Leões de Santarém. O orgulho fazia-o suar, já que tinha de se levantar, diariamente, às cinco e quarenta e cinco para ir treinar, antes de ferrar às oito em ponto num trabalho duro e exigente. Era a paixão pelo futebol a impor-se. Já entrado na idade, como guarda-redes do Café Zeca, partiu um pé, tendo estado três meses sem ordenado. Mas continuava a ganhar, noutra moeda que não o escudo, feita de puro simbolismo, sempre que se podia equipar como jogador de futebol. O mesmo aconteceu a muitos jogadores amadores que ajudaram este desporto a ser cada vez mais apaixonante.

O futebol mexe com emoções e com multidões. Se se juntar as duas, ou seja, se se conseguir juntar multidões num espaço e se se for capaz de as emocionar, então é só juntar mais umas pitadas de espetacularidade, muitos néon, televisões e milhões e está pronto a servir-se o futebol-indústria.

O expoente máximo deste futebol endinheirado por fora, mas apodrecido por dentro, está expresso neste Campeonato do Mundo de Futebol, na pausa de hidratação! Massacram os jogadores com calendários extensíssimos, com mais e mais torneios, mais e mais jogos, e, depois, dão-lhes três minutos para beber água, prejudicando o jogo e favorecendo a publicidade. Na ribalta, nos tapetes verdes, continua a haver solos de virtuosismo, e ainda bem.  Mas há cada vez mais obscurantismo: seleções tratadas como encomendas perigosas, árbitros com problemas de entrada nos EUA, pessoas tratadas como seres de segunda classe, jogadores despenalizados por ordens de um presidente déspota e outras tantas idiossincrasias do futebol-indústria, mais sujeito a planos de marketing do que a táticas de treinadores. 

Nos campeonatos do mundo encontram-se os dois – futebol-paixão e futebol-dinheiro – e esgrimem os seus argumentos. As pessoas gostam deste duelo pacífico. Na minha opinião, é disto que as pessoas mais gostam. E quando ainda sentem, em pequenos-grandes acontecimentos, gestos e atitudes, que o futebol não perdeu, totalmente, a sua essência, apesar da competição, regozijam. Regozijamos, nós que gostamos de futebol, quando este consegue ser um exemplo para o mundo.

O futebol romântico joga sempre ao ataque, dado que não tem nada a perder. A história dos mundiais perpetuou quem foi capaz de deixar marca, não publicitária, mas amplamente publicitada pelas melhores razões. Seria fastidioso enumerar, mas partilho algumas coisas inéditas. 

A Islândia chegou ao Mundial de 2018 com uma equipa que parecia saída de um romance nórdico, liderada por um treinador-dentista. Neste ano, o Panamá marcou um golo. Esse dia passou a feriado nacional.

Na década de 90 do século XX, vários jogadores africanos e asiáticos chegavam aos mundiais com profissões paralelas.

A Jamaica estreou-se em 1998 com os “Reggae Boyz”. Eles não iam, apenas, jogar futebol; iam levar a Jamaica ao mundo. Nesse ano, Irão e E.U.A já estavam desavindos, sem relações diplomáticas. Porém, os jogadores trocaram flores e posaram juntos para as fotos dos fotógrafos. Foi uma das imagens mais humanas da história dos mundiais: vinte e dois jogadores a fazerem, em noventa minutos, aquilo que governos não conseguem fazer há décadas.

O que vai ficar deste Mundial, uma vez mais, é o romantismo e a pureza de sentimentos. Lopes Cabral marcou o golo mais bonito deste mundial e, ato contínuo, foi a correr para a bancada abraçar a namorada. Foi um amor a dobrar, ao país e à companheira, a fazer a diferença. Como disse Vozinha, guarda-redes como o meu pai, “Outros ganharão este Mundial, mas quem fica na História somos nós.” Uma equipa de guerreiros ombreou com a equipa campeã do mundo em título e o mundo ficou a saber de que têmpera são feitos os homens e as mulheres cabo-verdianos. Foram, pela primeira vez, a um Mundial e deixaram o cartão de visita do seu país. 

O treinador do Egipto implorou ao mundo que deixassem viver o povo palestiniano.

A equipa da Noruega reafirmou a sua força viking, remando com os seus adeptos.

Muitos jogadores e equipas deste mundial doaram parte das suas riquezas – de grandeza absurda – a projetos sociais, ajudando crianças, jovens e comunidades. E isto é que é ganhar: deixar marca pelo carácter, pela solidariedade, pela união e pelo orgulho em representar um país.

O Mundial de 2026 voltou a ser pródigo na afirmação do futebol-romântico.

Curvo-me perante todos os que voltaram a marcar este torneio da maneira mais bonita e relembro o selecionador do Japão que se curvou, respeitosamente, perante os seus adeptos, depois da eliminação. 

Quanto a nós, não remamos todos para o mesmo lado e afogamo-nos num mar de enganos. Mas depois da tempestade vem sempre a bonança: ganhamos um selecionador que se separou de uma princesa das arábias para se unir a uma paixão antiga, a seleção portuguesa.

Teremos Jesus por nós, em 2030!

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