Um pouco de história…

O Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” foi fundado a 18 de Fevereiro de 1957 na castiça vila de Azambuja, povoação situada entre a extensa planície que a separa do rio Tejo, a nascente, e o Bairro, zona também conhecida como “charneca” e “alto concelho” , a poente.

O Rancho Folclórico surgiu de uma marcha em que os diversos pares não envergavam os trajos típicos desta região do Ribatejo e o repertório era constituído por “modas” criadas por alguns inspirados azambujenses, faltando-lhe, assim, a marca do temperamento e da sensibilidade própria desta boa gente. Assim se manteve alguns anos apresentando-se sempre com grande êxito, porque as músicas, apesar de não serem folclóricas, eram bonitas e as danças bem interpretadas por exímios bailadores.

Mau grado o sucesso alcançado, era notória a inadequação entre as tradições locais e a representação do Rancho, pelo que havia que mudar qualquer coisa. É nesta fase que Sebastião Mateus Arenque aceitou fazer parte do corpo técnico do agrupamento, tendo começado por restruturar o seu quadro etnográfico e o próprio reportório. Para a aquisição de novos trajos, especialmente dos homens, uma vez que os trajos das mulheres, apesar de alguns defeitos na sua confecção, enquadravam-se no contexto regional, muito contribuiu o apoio da população, da Câmara Municipal de Azambuja, da Junta de Província do Ribatejo e do Eng.º Moniz da Maia.

Desde a sua fundação o Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” ensaiou em diversos espaços gentilmente emprestados, até que se instalou numa casa cedida pelo benemérito Dr. Antero Abreu, que igualmente contribuiu para as necessárias obras de recuperação e que quando vendeu o edifício à Câmara Municipal de Azambuja estabeleceu a condição de que aquele imóvel continuasse a servir para sede e local de ensaios do Rancho Folclórico, até que a edilidade azambujense viesse a ceder-lhe outras instalações. O que sucederia alguns anos mais tarde.

Convém notar que a orientação técnica do saudoso etnógrafo Sebastião Mateus Arenque – que viria a integrar o Conselho Técnico do Ribatejo, no seio da Federação do Folclore Português – foi determinante para a afirmação do Rancho Folclórico nos termos em que se apresentavam alguns dos agrupamentos folclóricos mais conceituados na época. Daí que este apreciado Rancho Folclórico tenha representado o seu concelho e a província do Ribatejo em importantes programas de rádio e da televisão e participado nos mais prestigiantes festivais nacionais e internacionais de folclore, o que continua a fazer com imensa dedicação e empenho.

O reportório do Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” é constituído por viras, fadinhos, modas de roda, verde-gaios, bailaricos e o típico fandango ribatejano, danças geralmente vivas e movimentadas reflectindo o temperamento e o carácter desta gente azambujense, muitas das quais estão relacionadas com as fainas campestres da região – as vindimas, as ceifas e as adiafas.

O quadro etnográfico apresenta uma grande diversidade de trajos usados pelo povo de Azambuja em diferentes circunstâncias, ora em tempo de trabalho, ora em circunstâncias festivas, com destaque para os trajos de campino, das ceifeiras, dos pescadores, dos camponeses, e os trajos domingueiros, entre os quais o que os homens usavam para a ida às sortes e os de noivos.

Para sensibilizar as crianças a conhecer e a divulgar as tradições populares da sua terra, foi criado em 22 de Dezembro de 1975 uma secção infantil que se apresenta sob a denominação de “Os Tradicionais Rapazes da Grade e Raparigas da Monda”, que a par das singelas danças de roda também reconstitui algumas brincadeiras populares no Ribatejo.

À conversa com Carlos Sousa

Neste tempo de comemoração de mais um aniversário – embora sem festividades públicas, devido à Covid-19 – quisemos saber um pouco mais sobre o Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos”, de Azambuja, pelo que estivemos à conversa com Carlos Sousa, presidente da Direcção.

O Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” de Azambuja completa este ano 65 anos de existência. Um trajecto longo e recheado de êxitos…
Sim, o Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” de Azambuja celebra a 18 de Fevereiro o seu 65.º aniversário. São 65 anos em que o nosso grupo teve a oportunidade de percorrer o país de norte a sul e de fazer algumas digressões à Alemanha, a França e a Espanha para dar a conhecer os costumes e tradições das nossas gentes.

Numa primeira fase da sua existência o Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” era muito popular e artisticamente muito bom, no entanto do ponto de vista da sua representação etnográfica carecia de um trabalho de restruturação. Esse processo foi complicado?
É verdade. Apesar do facto de o nosso Rancho ser muito popular e de primar por uma apresentação artística agradável necessitava de uma certa restruturação. Como todos sabemos, este é um processo que nunca termina. A representação etnográfica necessita de um constante acompanhamento. Às vezes, por desconhecimento ou até por alguma recolha menos feliz, podemos cair num erro que deve ser corrigido. Temos tido o cuidado de os corrigir e estamos cada vez mais atentos a pormenores que antes não nos pareciam tão relevantes.

A colaboração do Sr. Sebastião Arenque foi muito importante?
Como é do conhecimento de todos, o Sr. Sebastião Mateus Arenque dedicou a sua vida à cultura regional. Foi um homem que fez recolhas na nossa terra, sobre as nossas gentes e sobre os nossos hábitos e costumes. Estas recolhas foram fundamentais para que o “Ceifeiras e Campinos” de Azambuja tenha um percurso tão longo e com tantos êxitos. Todos os que tiveram o privilégio de contar com a sua ajuda reconhecem a sua competência e o seu empenho em valorizar os ranchos folclóricos.

Apesar de tudo, mesmo com o reconhecimento da valorização técnica do Rancho, houve alguns Componentes que não apreciaram a mudança?
Com a reestruturação que o nosso grupo sofreu, e continuará a sofrer, pois as restruturações nunca terminam, obtivemos um reconhecimento de valorização técnica do Rancho. Mas, como todos sabemos, e até nos parece que tal seja inevitável, as mudanças nunca são bem aceites por todos. Há sempre quem não concorde. São pessoas que reagem mal à reestruturação do quadro etnográfico ou do reportório, não compreendendo que um grupo de folclore tem que representar as tradições populares da sua terra numa dada época, e quando tal não está reflectido na reconstituição dos trajos ou das danças tem que ser corrigido. Só assim é possível representar condignamente a nossa terra e o nosso povo. Isto não é tão fácil como possa parecer. Porém, congratulamo-nos com o facto de todos continuarem a gostar do nosso Rancho, que também é o seu Rancho.

E hoje, o Rancho revê-se na sua representação?
Depois de todas as mudanças que têm vindo a acontecer o nosso Rancho revê-se plenamente na representação actual, sabendo que há sempre mais qualquer detalhe a valorizar. Este é um trabalho que nunca está perfeito nem terminado.

Esta pandemia veio alterar os planos do Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos”, naturalmente…
Sim, é verdade. Nestes dois últimos anos, com o surgimento da pandemia, infelizmente ficou tudo parado e deixámos alguns projectos em suspenso até retomarmos a actividade…

E isso está para breve?
Em Outubro de 2021 retomámos os ensaios, mas por muito pouco tempo, pois, a situação da Covid-19 agravou-se e voltámos a parar, porque em primeiro lugar está a saúde de todos. Esperamos poder voltar à actividade muito em breve, ainda que com algumas limitações.

Quais são os projectos para o futuro próximo?
O principal objectivo a curto prazo é reiniciar os ensaios e prosseguir a valorização etnográfica. Iremos fazer demonstrações do Rancho Infantil nas escolas, jardins de infância e ATL com o objectivo de captar mais elementos para o nosso grupo “Os Tradicionais Rapazes da Grade e Raparigas da Monda”. Felizmente o nosso Rancho Infantil continua em actividade, mas gostaríamos de ter mais componentes para reforçar o grupo e deste modo permitir que a semente do folclore continue por mais umas gerações. A médio-longo prazo pretendemos concluir as obras na nossa Sede, valorizando o espaço social e criando um núcleo museológico, onde possamos expor o espólio que possuímos.

Tem havido adesão de novos Componentes ou nem por isso?
Apesar da pandemia que atravessámos, tivemos o enorme prazer de acolher antigos componentes, que querem regressar, e alguns novos, o que é muito bom para encararmos o futuro com maior optimismo.

Sebastião Mateus Arenque – O Mestre que nunca deixou de ser aluno…

Sebastião Mateus Arenque nasceu em Azambuja, a 7 de Janeiro de 1923, no seio de uma modesta família de camponeses, e comeu o pão que o diabo amassou. De muito novo seguiu as pisadas dos seus pais e avós, indo trabalhar nos campos, onde tantas noites dormiu ao relento e comendo do pouco que levava no alforge. Sebastião nunca foi menino, teve de fazer-se homem à pressa para ajudar a suprir as dificuldades da família. Vida madrasta!

Os campos de Azambuja foram as suas primeiras salas de aula, e os modestos camponeses que tinha por companheiros de jorna, foram os seus primeiros mestres, porque a quarta classe só a completou aos vinte sete anos de idade, desbravando novos caminhos, voltando as costas ao campo para aprender a profissão de electricista, onde veio a afirmar a sua competência. Esta nova profissão levou-o para fora da sua terra alguns anos, tendo regressado para trabalhar na “Sugal”, fábrica do Dr. Ortigão Costa, de quem foi grande Amigo.

Entretanto, foi desafiado para ensaiar o Rancho Folclórico “Ceifeiras e Campinos” de Azambuja, mas começou por rejeitar o convite, alegando em defesa da sua atitude que nada sabia de folclore. Que é isso de folclore? Quando lhe explicaram que o folclore eram as danças, as cantigas e as melodias do povo, logo reflectiu, afirmando que se o folclore era isso, então, talvez pudesse dar uma ajuda. E que preciosa ajuda deu o nosso Amigo Sebastião Arenque.

Munido de um caderninho de apontamentos e de um pequeno gravador, Sebastião Mateus Arenque ia fazendo as suas pesquisas e recolhas, para documentar aquilo que já sabia, mas que, assim, era confirmado por outras pessoas da sua geração. Começou por escrever os “Subsídios para o Cancioneiro Popular de Azambuja”, numa edição tímida, mas muito rica. Veio o segundo volume, com uns contos à mistura e a obra literária não deixou de crescer, deixando-nos como legado uma vasta e qualificada bibliografia de mais de dezena e meia de títulos.

O reconhecimento da sua imensa sabedoria levou a Federação do Folclore Português a convidá-lo para o Conselho Técnico Regional do Ribatejo, estrutura que integrou durante largos anos, com expressivos benefícios para os agrupamentos folclóricos de toda a região.

Alargando o âmbito da sua acção de etnógrafo autodidacta, mas muito experiente e conhecedor, Sebastião foi promovendo a recolha de alfaias agrícolas e de utensílios de uso doméstico, iniciando a luta pela constituição de um Museu Etnográfico em Azambuja. Processo difícil e moroso, que lhe desgastou muito a paciência e lhe causou alguns dissabores, mas que, mercê de uma determinação inabalável, logrou ver constituído, tendo-lhe sido, muito merecidamente, atribuído o seu prestigiado nome. Quis o destino que neste Museu fosse instalado, igualmente, uma boa parte do espólio do seu Amigo João Gomes Moreira, com quem partilhou muitos momentos da sua vida.

Apesar da idade, da falta de saúde e de algum desgaste, próprio e natural em quem se expôs tanto ao trabalho voluntário e de cidadania, Sebastião Mateus Arenque ainda sentiu forças e motivação para meter ombros a outro projecto – o Grupo Tradicional “Os Casaleiros”, de Casais dos Britos, onde pôde aplicar o seu imenso saber e a sua invulgar experiência, constituindo um grupo vocacionado para a representação da mundividência popular desta simples e modesta gente dos Casais, dispensando alguns reflexos mais exuberantes e alegres característicos do folclore da Lezíria. Este projecto ainda mais consagrou Sebastião Mateus Arenque como um etnógrafo de excelência e um folclorista de mérito.

Por tudo isto, Sebastião Mateus Arenque foi diversas vezes distinguido e homenageado por algumas entidades e instituições, entre as quais a Câmara Municipal de Azambuja, que lhe atribuiu a Medalha de Honra do Município, em 2003. Nunca as homenagens são demais se os distinguidos as merecem. Tal é o caso!

Sebastião Arenque, o distinto Mestre que nunca deixou de ser aluno, faleceu no dia 1 de Junho de 2019, deixando em todos os seus amigos e admiradores uma grande saudade.

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