Chamusca – 1 de Outubro de 2022 – 16 horas. Corrida à Portuguesa. Cavaleiros: João Moura Júnior, João Ribeiro Telles e Francisco Palha; Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Chamusca, capitaneado por Pedro Coelho dos Reis; Ganadarias: Passanha (1.º – 500kgs; 3.º – 470 kgs; 5.º – 550 kgs) e Lopes Branco (2.º – 470 kgs; 4.º – 455 kgs; 6.º – 560 kgs.); Directora de Corrida: Ana Pimenta; Veterinário: Dr. Feliciano Reis; Tempo: Ameno; Lotação: Casa Cheia.

Em tarde ensolarada as bancadas do centenário tauródromo chamusquense encheram e o ambiente que se vivia na praça era próprio de um grande acontecimento.

A despedida do valoroso forcado Pedro Coelho dos Reis, Cabo do Grupo do Aposento da Chamusca, era o grande acontecimento. Mas, o cartel constituía também um vasto aliciante para esta tarde memorável. Não terá sido em vão que no cartaz se anunciava esta como “A Corrida do Ano”. Talvez exagero dos publicitários, mas, não haja dúvida de que o cartel era muito interessante.

Os toiros de Passanha e de Lopes Branco, que estavam razoáveis de apresentação, apesar de díspares, tiveram um comportamento desigual, sendo mais complicado o último da corrida, um “tio” de cinco anos que deu água pela barba ao valente Francisco Palha. Aliás, a maioria dos toiros tinha cinco anos, o que confirma a expressão segundo a qual “nos toiros o que mais pesa é a idade”.

João Moura Júnior esteve em bom plano frente aos seus dois oponentes, pese embora que frente ao quarto da corrida tenha rubricado uma lide mais consentânea com o que sempre esperamos de si. Moura Júnior brega diligentemente, mudando os terrenos aos toiros, afina distâncias e andamentos, e repousadamente consuma as sortes, dando-lhes a primazia nas investidas. Depois remata cada sorte com adornos vistosos e arrimados, sempre em terrenos do toiro, o que mais valoriza o seu labor. As sortes frontais, carregando-as ao piton contrário, em terrenos de muito compromisso, são a sua imagem de marca, porém, destaque-se também a emotiva “mourina”, tão apreciada pelo público que lhe tributou calorosas ovações. Enfim, duas actuações muito positivas, porém, sem o selo do triunfo, que para tanto também não ajudou a matéria-prima de que dispôs.

João Ribeiro Telles caldeia o estilo artista e espontâneo que pautou a tauromaquia paterna, com a sobriedade dos cavaleiros da Torrinha, o que resulta quase sempre de maneira brilhante. Desta feita, em tarde de tanto compromisso, a receita voltou a funcionar e o marialva rubricou duas actuações de elevado quilate. Frente ao seu primeiro oponente bregou adequadamente, e sublimou o toureio com poderosas sortes frontais, no entanto, a ferragem ficou algo dispersa; frente ao quinto da tarde, o tom subiu ainda mais, proporcionando a João Ribeiro Telles uma actuação muito interessante.

Fiel ao seu estilo pessoal, citou de largo e consumou as sortes no terreno do toiro, algumas das quais tremendamente emotivas, pela forma como cita e aguenta até ao limite para cravar a ferragem de alto a baixo. Muito bem.

Francisco Palha é um caso sério de talento, de empenho e de valor. Mas, nem sempre as coisas lhe correm de feição.

Esta não era de todo a sua tarde. Frente ao seu primeiro oponente cumpriu sem grandes alardes. Tentou desenhar as lides de acordo com o seu conceito, mas o hastado não lhe facilitou a vida, e Francisco Palha, entre algumas passagens em falso e algumas sortes satisfatórias, lá cumpriu. O último toiro da corrida era um “tio” com cinco anos de idade e com 560 kgs. Toiro reservado e brusco adquiriu imenso sentido, tapando a saída ao cavalo em cada ferro curto, colhendo-o com alguma violência. Talvez que as sortes frontais não tivessem sido a melhor opção para este toiro, mas todos conhecemos a raça deste marialva, que não gosta de perder nem a feijões, e assim foi levando a lide, a ponto de ser desmontado em consequência de mais um violento toque na sua montada. Os três últimos ferros, cravados dentro do estilo frontal do cavaleiro, foram o que de melhor se viu nesta lide muito complicada. Melhores dias virão, pois, todos reconhecemos as imensas faculdades deste grande toureiro.

Em tarde festiva e de grande significado, o Grupo de Forcados do Aposento da Chamusca rubricou uma grande actuação.

Nas cortesias participaram mais de cem forcados de todas as gerações, o que demonstra bem a memória e a paixão de todos quantos um dia envergaram esta tão prestigiada jaqueta de ramagens.

Nesta data memorável foram solistas Vasco Coelho dos Reis, que consumou a sua sorte ao quarto intento; João Rui Salgueiro, que, lembrando os seus tempos de ouro, consumou vistosa pega ao primeiro intento; Pedro Coelho dos Reis, que num alarde de técnica e de saber se fechou estoicamente à primeira tentativa; Francisco Souto Barreiros Andrade, que rubricou boa pega, à segunda; Francisco Montoya, que concretizou ao primeiro intento a mais emotiva pega da tarde, brindada à família do Cabo cessante; e a dupla de cernelheiros composta pelo novo Cabo, João Saraiva, e por Frederico Gomes de Abreu, que consumou a sua sorte à primeira entrada.

No início da corrida foi respeitado um minuto de silêncio em memória dos elementos do Grupo falecidos, e ao intervalo foi descerrada uma placa comemorativa desta efeméride no átrio do Sector 1, após a entrega de lembranças ao Cabo Pedro Coelho dos Reis, na arena da praça.

Parabéns a Pedro Coelho dos Reis, e felicidades para João Saraiva, que assume agora a tremenda responsabilidade de suceder a dois grandes Cabos, Tiago Prestes e Pedro Coelho dos Reis.

O espectáculo foi dirigido pela Delegada Técnica Tauromáquica, Ana Pimenta, assessorada pelo Médico Veterinário, Dr. Feliciano Reis.

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