Um popular tenta salvar o que pode num aviário destruido no Casalinho, Ourém, 2 de fevereiro de 2026. A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, dia 28 de janeiro, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. MIGUEL A. LOPES/LUSA

A Comunidade Intermunicipal (CIM) do Médio Tejo considera que a fase mais crítica da tempestade Kristin e das cheias foi ultrapassada, mas alerta que persistem infraestruturas por recuperar, fragilidades nas telecomunicações e apoios insuficientes aos municípios.

Em declarações à Lusa, o presidente da CIM Médio Tejo, Manuel Jorge Valamatos, afirmou hoje que a sub-região, que agrega 11 municípios do distrito de Santarém, entrou numa fase de “recuperação e consolidação”, considerando repostas as condições essenciais à vida das populações, embora subsistam intervenções prioritárias por concluir.

“Estamos numa fase de recuperação e consolidação dessa recuperação. Aquilo que era o essencial da vida da comunidade está, de uma forma geral, ultrapassado”, afirmou o também presidente da Câmara de Abrantes, referindo-se à reposição das habitações permanentes, abastecimento de água, energia e comunicações.

A tempestade Kristin provocou, no final de janeiro, danos generalizados, cortes de energia e falhas nas comunicações, coincidindo com um período de precipitação intensa e cheias no Tejo que agravaram os prejuízos em vários concelhos do Médio Tejo.

Segundo o presidente da CIM, os maiores impactos da tempestade verificaram-se em Ourém, Ferreira do Zêzere e Tomar, enquanto as cheias atingiram sobretudo os municípios ribeirinhos do Médio Tejo, designadamente Abrantes, Constância, Mação e Vila Nova da Barquinha.

Seis meses depois, o principal constrangimento continua a verificar-se na recuperação da rede viária, sobretudo em estradas municipais e em algumas vias nacionais ainda por intervencionar, além de pontões e taludes danificados.

O presidente da CIM apontou igualmente fragilidades persistentes nas redes de telecomunicações, considerando que as operadoras continuam sem repor totalmente as infraestruturas afetadas.

“Existem muitas situações de linhas de comunicações que estão caídas, e ainda muitos postes que suportam as linhas de comunicação que estão em baixo”, afirmou, defendendo também o reforço da resiliência das redes elétricas e das infraestruturas críticas.

Manuel Jorge Valamatos destacou ainda o trabalho desenvolvido pelo Subcomando Regional de Emergência e Proteção Civil do Médio Tejo, salientando que a articulação entre municípios, Governo e restantes entidades “foi muito eficaz” durante a resposta à crise.

Relativamente aos apoios públicos, Manuel Jorge Valamatos reconheceu que a resposta às habitações permanentes evoluiu positivamente, mas sustentou que continuam a faltar mecanismos financeiros para apoiar a recuperação integral dos municípios e das empresas mais afetadas.

“O que queremos é que rapidamente possam ser reforçados os apoios financeiros ou que abram rapidamente linhas, sobretudo de programas europeus, capazes de fazer face à destruição”, afirmou.

O responsável defendeu ainda que os prejuízos provocados pelas cheias merecem um apoio semelhante ao mobilizado para responder aos danos causados pela tempestade Kristin, manifestando expectativa de que futuros instrumentos financiados por fundos europeus possam comparticipar parte das intervenções ainda em falta.

Para o presidente da CIM, os acontecimentos dos últimos meses reforçaram a necessidade de adaptar o território a fenómenos meteorológicos extremos, através de infraestruturas mais resilientes.

Segundo o autarca, as futuras intervenções em estradas, pontões e redes de telecomunicações terão de incorporar soluções construtivas mais robustas para reduzir o impacto de situações semelhantes.

“Temos de nos preparar para responder melhor a futuros episódios desta natureza do que há seis meses”, alertou.

Como principal ensinamento, Manuel Jorge Valamatos destacou a solidariedade demonstrada entre municípios, instituições e populações durante a resposta à crise, defendendo que a recuperação deve agora ser acompanhada por investimentos que reforcem a capacidade de resposta do território a futuros eventos extremos.

Vários temporais, com destaque para as depressões Kristin, Leonardo e Marta, atingiram o território continental em três semanas a partir do final de janeiro, causando pelo menos 19 mortos, mais de metades deles durante trabalhos de recuperação, várias centenas de feridos, desalojados e deslocados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

Mais de 35 mil habitações foram afetadas no todo do país, um número superior a um milhão de pessoas ficaram sem eletricidade, meio milhão de clientes sem telecomunicações, mais de 18 mil sinistros ou ocorrências de emergência foram registadas até ao fim da primeira quinzena de fevereiro e foram apresentadas mais de 200 mil participações de sinistros.

Os prejuízos estimados são superiores a 5,3 mil milhões de euros.

O Governo decretou que 90 municípios nas zonas afetadas pela depressão Kristin estavam em situação de calamidade, uma declaração que implica uma série de apoios e de medidas de exceção, estendendo posteriormente a situação a todo o território desde que os danos se devam às tempestades.

Na sequência das tempestades foi anunciado, no final de abril, o programa PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, com um envelope financeiro global de 22,6 mil milhões de euros para executar 96 medidas, até 2035, para recuperação económica do país depois das consequências do mau tempo.

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