Os pedidos de reapreciação mais do que duplicaram e já atingem os 15 mil. A época extraordinária de Setembro e o prolongamento da segunda fase do concurso podem levar estudantes a chegar à Universidade Politécnica de Santarém depois do início das aulas. João Moutão garante que a instituição está preparada para os receber.

A crise dos exames nacionais mudou de palco. Depois dos atrasos na correcção digital, das classificações suspensas e das sucessivas rectificações às pautas, os efeitos chegaram ao acesso ao ensino superior, com candidaturas a arrancarem mais devagar, milhares de provas em reapreciação e um calendário que se prolongará até ao final de Setembro.

O Ministério da Educação registava, até segunda-feira, 15 mil pedidos de reapreciação, mais do dobro dos 6200 apresentados na primeira fase de 2025. O número poderá ainda aumentar, uma vez que permaneciam alunos sem classificação definitiva e continuava aberto o prazo para contestar provas disponibilizadas mais tarde.

Em paralelo, o Governo criou uma época extraordinária de exames entre 3 e 8 de Setembro, aberta a todos os alunos que reuniam condições para realizar a segunda fase, independentemente de a terem feito em Julho. A medida obrigou também a prolongar a segunda fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior até 20 de Setembro, com os resultados previstos para dia 30.

Na Universidade Politécnica de Santarém, João Moutão confirma que o processo começou a um ritmo inferior ao do ano anterior, embora considere prematuro concluir que haverá uma quebra final no número de candidatos. “Estamos a ter um início de candidaturas mais lento”, reconhece o reitor, relacionando esse atraso com as dificuldades sentidas por alguns estudantes na obtenção das classificações e da documentação necessária para concorrer.

A primeira fase do concurso mantém-se aberta até 6 de Agosto, o que poderá permitir uma recuperação nos últimos dias. A maior preocupação da instituição está, porém, nas fases seguintes. Com os resultados da segunda fase apenas no final de Setembro, parte dos estudantes poderá chegar a Santarém quando o ano lectivo já estiver em curso.

João Moutão admite esse risco e diz que a situação terá de ser avaliada com as direcções das escolas da Universidade Politécnica. Para já, não estão decididas alterações ao calendário académico, mas a instituição garante ter preparados os serviços de matrícula, as residências, a acção social e os mecanismos de apoio à atribuição de bolsas.

O efeito mais imediato é, assim, uma compressão de prazos. Alunos que ainda aguardam uma reapreciação, que necessitem de corrigir a ficha ENES ou que optem pela época extraordinária terão menos tempo entre a classificação definitiva, a candidatura, a colocação e o início das aulas. Para as instituições, significa preparar o novo ano sem conhecer ainda, com precisão, quantos estudantes chegarão nas fases posteriores.

Na região, esta incerteza assume particular relevância porque a Universidade Politécnica de Santarém reúne escolas com perfis e calendários distintos e recebe candidatos provenientes de vários pontos do país. A entrada tardia não afecta apenas a secretaria académica: pode repercutir-se na composição das turmas, na distribuição de horários, nas unidades curriculares de primeiro semestre e na integração dos estudantes que chegam depois dos colegas.

O mesmo sucede com as respostas sociais. A procura de alojamento, o acesso às residências e os pedidos de bolsa são decisões normalmente preparadas antes do início das aulas. Quando a colocação só é conhecida no final de Setembro, esse período de preparação reduz-se a poucos dias, obrigando estudantes, famílias e serviços a trabalhar num intervalo mais curto.

João Moutão evita, contudo, antecipar dificuldades que ainda não estão quantificadas. A instituição só conhecerá a dimensão do impacto depois de terminada a primeira fase e de estabilizado o calendário seguinte. Até lá, a prioridade, insiste, é manter abertos os serviços e assegurar que a chegada tardia não se transforma numa desvantagem académica.

MIGUEL A. LOPES / LUSA

Candidaturas arrancaram a um ritmo anormalmente baixo

O primeiro sinal mensurável da passagem da crise para o ensino superior surgiu logo no arranque do concurso. No primeiro dia foram submetidas apenas 304 candidaturas, quando, no mesmo momento de 2025, o total se aproximava das 10 200. Ao segundo dia, o número tinha subido para 2722, ainda muito abaixo das 16 339 registadas um ano antes.

A diferença não permite antecipar uma quebra final na procura, porque a primeira fase decorre até 6 de Agosto e muitos candidatos tendem a submeter as opções nos últimos dias. Mostra, contudo, que uma parte significativa dos estudantes não estava em condições de avançar no momento habitual, seja por falta da ficha ENES, por dúvidas sobre a classificação ou pela expectativa de uma rectificação.

João Moutão adopta a mesma cautela. O reitor confirma um início mais lento, mas lembra que o prazo se mantém aberto e que o movimento poderá recuperar. A Universidade Politécnica não gere o concurso nem dispõe, nesta fase, de dados que permitam separar os candidatos que aguardam documentos daqueles que estão apenas a adiar a decisão.

O atraso inicial tem, ainda assim, valor jornalístico próprio: revela que o calendário formal se manteve, mas a capacidade efectiva de muitos alunos para o cumprir ficou condicionada. A abertura da plataforma de candidatura não significou que todos dispusessem, nessa data, de uma classificação estabilizada e da documentação necessária.

É esse desfasamento que as instituições terão de absorver nas próximas semanas. Mesmo que o número global recupere, uma concentração de candidaturas perto do fim do prazo reduz a margem para esclarecer dúvidas, corrigir processos e preparar atempadamente as fases posteriores.

Uma oportunidade extraordinária em Setembro

A resposta mais ampla às perturbações da primeira fase foi a criação de uma época extraordinária de exames, marcada para os dias 3 a 8 de Setembro. As inscrições decorrem até sexta-feira, 31 de Julho, são gratuitas e estão abertas a todos os alunos que reuniam condições para realizar a segunda fase, mesmo que não tenham feito qualquer prova em Julho.

O Governo justificou a medida com as dificuldades técnicas verificadas na classificação electrónica, que impediram alguns estudantes de conhecer atempadamente as notas definitivas e poderão ter condicionado tanto a decisão de repetir um exame como a preparação para a segunda fase.

Para os alunos que realizem uma prova na segunda fase e voltem a fazê-la em Setembro será considerada a melhor classificação. O exame extraordinário contará, para todos os efeitos, como uma prova de segunda fase, designadamente para a conclusão do ensino secundário e para o acesso ao ensino superior.

A solução funciona, assim, como uma segunda oportunidade para quem tomou decisões com informação incompleta ou recebeu a classificação demasiado tarde. Não se destina apenas aos alunos que apresentaram uma desconformidade na prova ou tiveram a nota suspensa: abrange todo o universo que podia concorrer à segunda fase.

O alargamento obrigou a ajustar o calendário do acesso ao ensino superior. A segunda fase de candidaturas passa a decorrer entre 24 de Agosto e 20 de Setembro, com os resultados previstos para 30 de Setembro. As matrículas dos colocados avançarão já no início de Outubro, quando muitas instituições terão iniciado as actividades lectivas.

É precisamente esse desfasamento que preocupa João Moutão. A Universidade Politécnica de Santarém tinha planeado o começo do ano lectivo para a segunda semana de Setembro, numa altura em que, segundo o calendário inicial, já seriam conhecidos os resultados da segunda fase do concurso. Com a alteração agora introduzida, alguns estudantes poderão chegar três semanas mais tarde.

O reitor não antecipa, para já, qualquer adiamento das aulas. Admite, porém, que a instituição terá de avaliar a situação com as direcções das diferentes escolas e encontrar soluções para integrar os alunos que sejam colocados depois do arranque do semestre. “O essencial é que não haja nenhum estudante prejudicado no acesso ao ensino superior”, sublinha.

 

 

Da nota à ficha ENES

A alteração de uma classificação não termina na pauta. Cada nota revista pode obrigar à emissão de uma nova ficha ENES, o documento que reúne as classificações do ensino secundário e as provas de ingresso válidas para a candidatura ao ensino superior.

Foi precisamente neste ponto que os atrasos começaram a repercutir-se no concurso nacional de acesso. Sem a ficha ENES actualizada, o candidato não consegue concluir a candidatura; e quando o documento já foi emitido com uma classificação entretanto corrigida, todo o processo tem de ser revisto.

A cadeia é simples, mas exigente: muda a nota, muda a ficha, pode mudar a média de candidatura e podem mudar também as opções submetidas. Em alguns casos, a diferença de uma décima basta para alterar a entrada num curso ou a posição do candidato relativamente à última vaga disponível.

O problema ganhou dimensão com o aumento dos pedidos de reapreciação. Até segunda-feira, o Ministério contabilizava 15 mil processos, contra 6200 em toda a primeira fase de 2025. O total ainda poderá crescer, porque alguns alunos tiveram acesso às provas mais tarde e dispõem, por isso, de prazos próprios para apresentar o pedido.

O ministro da Educação atribuiu parte desta subida ao novo modelo de classificação, em que diferentes professores avaliam itens distintos da mesma prova. Segundo Fernando Alexandre, este sistema produziu um número mais elevado de classificações próximas do limiar de aprovação: cerca de 2400 provas ficaram nos 9,4 valores e aproximadamente 20 mil terminaram numa das quatro décimas anteriores aos 9,5 necessários para aprovação.

A explicação da tutela não elimina, porém, os efeitos práticos. Para milhares de estudantes, a reapreciação representa mais dias de espera e a possibilidade de ter de alterar uma candidatura já apresentada. Para as escolas secundárias, implica voltar a verificar classificações, emitir documentação actualizada e acompanhar novos prazos. Para as instituições de ensino superior, prolonga a incerteza sobre o número de candidatos que efectivamente chegarão em cada fase.

A regulamentação permite que um aluno cuja classificação seja alterada depois do termo do prazo normal possa apresentar ou modificar a candidatura nos três dias seguintes à divulgação da nova nota. É uma salvaguarda essencial, mas não elimina a pressão criada por um calendário já comprimido e por decisões que, em muitos casos, terão de ser tomadas em poucos dias.

Falhas sucessivas prolongaram a instabilidade

A perturbação não resultou de um único incidente. A generalização da correcção digital a todas as disciplinas foi acompanhada por atrasos no acesso dos professores às provas, problemas na digitalização de páginas e classificações que chegaram às escolas apenas ao final da noite de 17 de Julho. Cerca de 1400 provas surgiram então temporariamente suspensas, dependentes de validações adicionais.

Nos dias seguintes foram ainda corrigidos erros de parametrização em provas como Física e Química A e Geografia A, com novas pautas a substituir resultados já divulgados. Cada rectificação aumentou a necessidade de os alunos consultarem a cópia digital, confrontarem as cotações e confirmarem se a nota inscrita na ficha ENES permanecia válida.

O novo modelo dividiu a classificação de uma mesma prova por diferentes docentes, cada um responsável por determinados itens. O Ministério sustenta que essa separação torna a avaliação mais objectiva, por impedir que o classificador seja influenciado pela visão global do exame. A experiência deste ano mostrou, porém, que a fragmentação exige sistemas de digitalização, parametrização e validação capazes de assegurar que todas as partes regressam correctamente à classificação final.

A crise tornou-se, por isso, simultaneamente técnica e administrativa. Uma falha no ficheiro digital podia impedir a classificação; uma parametrização errada alterava a nota; uma rectificação posterior obrigava a nova pauta; e a nova pauta podia exigir outra ficha ENES e uma candidatura revista.

Foi esta sucessão, mais do que um simples adiamento de datas, que prolongou a incerteza até às portas do ensino superior. O calendário excepcional de Setembro procura repor oportunidades, mas também confirma que o processo normal deixou de ser suficiente para acomodar todos os casos.

Centenas de provas ainda em verificação

Apesar de a generalidade das classificações já estar disponível, o processo da primeira fase não estava totalmente encerrado no início desta semana. No domingo à noite, cerca de 170 alunos continuavam sem conhecer a nota final do exame, segundo o ministro da Educação.

Fernando Alexandre disse esperar que essas situações ficassem resolvidas entre segunda e terça-feira, mas reconheceu que permaneciam ainda centenas de casos em análise. Ao todo, tinham sido assinaladas 825 desconformidades por alunos que consideravam que a versão digital da prova não correspondia integralmente ao que tinham realizado.

Cerca de 300 exames encontravam-se ainda em processo de reconstituição. Técnicos do Júri Nacional de Exames e do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação estavam a rever os ficheiros digitalizados, comparando-os com os elementos disponíveis para confirmar se todas as páginas e respostas tinham sido correctamente integradas.

A diferença entre uma classificação suspensa, uma desconformidade de digitalização e um pedido de reapreciação nem sempre foi clara para alunos e famílias. São, porém, procedimentos distintos. A reapreciação incide sobre a classificação atribuída à prova; a desconformidade procura confirmar se o ficheiro digital corresponde ao exame efectivamente realizado; e a reconstituição é necessária quando há dúvidas sobre a integridade do documento digitalizado.

Para os alunos ainda abrangidos por estas verificações, os prazos começam apenas depois de ser conhecida a classificação definitiva e disponibilizada a prova. Dispõem então de dois dias úteis para decidir se avançam com um pedido de reapreciação.

O prolongamento destes processos ajuda a explicar a dimensão da resposta excepcional criada para Setembro. O Ministério admite que alguns estudantes não tiveram acesso à informação necessária em tempo útil para decidir se deviam repetir uma disciplina na segunda fase ou para preparar adequadamente uma nova prova.

Na Universidade Politécnica de Santarém, a preocupação é acompanhar esse percurso sem antecipar cenários que ainda dependem do resultado da primeira fase de candidaturas. João Moutão sublinha que a instituição não intervém directamente na gestão dos exames nem no concurso nacional, mas está a seguir a evolução do processo e a preparar o acolhimento dos estudantes que venham a ser colocados nas fases seguintes.

A dimensão final do impacto só será conhecida quando terminarem as reapreciações, forem estabilizadas as fichas ENES e estiver concluída a primeira fase do concurso. 

 

Um calendário que chega a Outubro

O prolongamento da segunda fase do Concurso Nacional de Acesso até 20 de Setembro, com resultados a 30, desloca para Outubro uma parte do processo de matrícula e integração dos novos alunos. É uma alteração com efeitos directos sobre as instituições, sobretudo as que continuam a receber um número relevante de estudantes nas fases posteriores.

Na Universidade Politécnica de Santarém, o calendário inicial previa o arranque do ano lectivo na segunda semana de Setembro, já com a segunda fase do concurso concluída. Esse cenário deixou de ser possível. Os estudantes colocados no final do mês chegarão quando as aulas já estiverem em curso e terão menos tempo para tratar da matrícula, do alojamento, das bolsas e dos restantes apoios.

João Moutão admite que esta realidade obrigará a um acompanhamento específico, mas afasta, para já, qualquer alteração já decidida ao início das actividades lectivas. A instituição aguardará pelo fecho da primeira fase e pela evolução das candidaturas antes de avaliar eventuais ajustamentos com as direcções das escolas.

O reitor sublinha, ainda assim, que a Universidade Politécnica dispõe de condições para receber os alunos que cheguem mais tarde. “Temos tudo preparado para os receber”, afirma, apontando as residências, os serviços de matrícula, a acção social e os mecanismos de atribuição de bolsas como áreas já mobilizadas para o próximo ano.

A mensagem institucional é de tranquilidade, mas o calendário deixa pouco espaço para imprevistos. Uma classificação alterada em Agosto, um exame realizado em Setembro ou uma colocação conhecida no final do mês podem obrigar o estudante a reorganizar, em poucos dias, a mudança de cidade, o alojamento e o início do percurso académico.

Para a Universidade Politécnica, o desafio será integrar esses alunos sem criar diferenças face aos colegas que chegam na primeira fase. Para os candidatos, continuará a ser essencial acompanhar os prazos, confirmar a ficha ENES e verificar se a classificação utilizada na candidatura corresponde à nota definitiva.

A crise que começou na digitalização e na correcção dos exames prolonga-se, assim, para além das escolas secundárias. O seu impacto final não se medirá apenas pelo número de pautas rectificadas ou pedidos de reapreciação, mas também pela capacidade de garantir que nenhum estudante perde uma oportunidade de acesso e que os colocados mais tarde encontram o ensino superior preparado para os receber.

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