Rosário Cordeiro


Ainda faz sentido celebrar o Dia da Mulher?

O Dia Internacional da Mulher celebra-se a 8 de Março, desde 1977, proclamado pelas Nações Unidas. Foi implementado no sentido de dar visibilidade às lutas feministas por melhores condições de vida e trabalho, e pelo direito ao voto. Parece algo distante, mas, na verdade, é bastante recente. Em Portugal, as mulheres só viram o direito ao sufrágio reconhecido no dia 2 de Abril de 1976. Ou seja, há menos de 43 anos. De lá para cá, a evolução da sociedade esperava-se acelerada. Mas será que evoluiu assim tanto? Numa época em que os direitos de igualdade entre géneros estão, mais do que nunca, na ordem do dia, ainda faz sentido assinalar e celebrar o Dia da Mulher? Colocámos a pergunta a quatro mulheres – de várias áreas de intervenção e faixas etárias – para percebermos a resposta.


Ligada à firma J.M. Cordeiro há vários anos, Rosário Cordeiro herdou do pai, José Manuel Cordeiro, a forma de estar na vida e no mundo dos negócios. Recentemente agraciada com o prémio ‘Profissional do Ano’, pelo Rotary Clube de Santarém, Maria do Rosário Cordeiro confessa-se “avessa a vedetismos”, preferindo que o seu trabalho fale por si.

Quem é Rosário Cordeiro?
Rosário Cordeiro é uma escalabitana filha de um grande homem [José Manuel Cordeiro] e, claro, de uma grande mulher também. O meu pai foi, realmente, uma figura de relevo na cidade e na região. Nasci em Santarém, tenho 51 anos, estudei Gestão de Empresas e, por minha opção, vim trabalhar com o meu pai. Não fui pressionada, foi minha opção querer trabalhar com ele. Podia ter sido apenas para iniciar a minha vida profissional, mas percebi que era isto que queria fazer.
Há quem diga que o relacionamento entre pais e filhos pode não funcionar bem, em termos profissionais, mas, connosco, funcionou sempre.
Ele era muito respeitador do espaço de cada um: quem o conheceu sabe que ele se dava com todos, com qualquer quadrante político, e, na empresa, era igual. Foi com grande facilidade que trabalhamos em conjunto.
Durante muitos anos, as pessoas nem sabiam que eu trabalhava na J.M. Cordeiro. Ele é que assumia sempre tudo. Eu estava nos bastidores. E, quando recebi o prémio do Rotary Clube de Santarém falei exactamente nisso, na dúvida, aquando da morte dele, do que seria da empresa. Havia pessoas que não sabiam que eu já cá trabalhava há mais de 20 anos.

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Ou seja, tem toda uma vida ligada a esta empresa?
Sim, logo desde o final do curso. Estive cá, com o meu pai, 21 ou 22 anos.

Qual foi o seu sentimento ao ser distinguida com o prémio do Rotary?
Confesso que não sou muito destes ‘vedetismos’. Sou reservada, mas faço o meu melhor e tento ajudar, no que posso, mesmo noutras áreas. Mas, obviamente, que em termos pessoais é sempre um orgulho que as pessoas reconheçam o nosso trabalho. E tenho conseguido continuar aquilo que o meu pai construiu e, até agora, penso que da melhor maneira.
Estamos num ramo difícil, e não é por ser mulher. Hoje em dia, é um negócio com muito volume, mas margens muito reduzidas. Tem que se ter uma gestão muito apertada e rigorosa. Todos os princípios que aprendi com o meu pai foram fundamentais, quer no negócio em si, quer da forma de estar na vida: tudo isso ajudou a construir a pessoa que sou.

Que princípios são esses e que dinâmica empresarial tenta incutir?
Como já referi, este é um ramo muito difícil [dos combustíveis]. Somos muitas pessoas – 55 funcionários – e há que gerir com cautela. Tenho três ou quatro pilares que me ajudam, e são pessoas que têm um grande valor para mim, porque vestem a camisola da empresa como se fosse a deles. Também porque conviveram muitos anos ainda com o meu pai. Acho que esse espírito que ele tinha passou para eles. Existem, portanto, essas pessoas, que eu sei que se eu não estiver cá, posso estar completamente descansada.
Por isso, a minha atitude passa muito por confiar nas pessoas, dar-lhes o espaço para que façam a gestão daquilo que lhes está incutido, em termos de responsabilidade. Dando-lhes espaço para que não sintam pressão. Eu costumo dizer que errar todos erramos, mas desde que sejamos humildes e reconheçamos que algo está mal, há que pedir ajuda para conseguir ultrapassar os obstáculos, e esta atitude tem sido a base da empresa.
Ter brio no que se faz, prestar o melhor serviço possível aos clientes, vestir a camisola, são outros dos valores que cultivamos.

Alguma vez sentiu que, por ser mulher, teve mais dificuldades no seu negócio?
Não. E acho até que essa ideia está já um pouco ultrapassada. É verdade que continuo a achar que os combustíveis são um negócio de homens. Vão sendo integradas cada vez mais mulheres, mas ainda é um negócio de homens. Se é porque as oportunidades lhes foram vedadas, ou por outra razão qualquer, ainda não percebi. Em termos daquilo a que vulgarmente chamamos o mundos dos negócios eu acho que a representatividade feminina depende muito das áreas. Aliás: nós [J.M. Cordeiro] trabalhamos com a GALP, por exemplo, e na direcção existem muitas mulheres. Portanto, nunca senti a minha vida dificultada por ser mulher. Por vezes, acho é que as pessoas de fora ainda continuam a olhar de outra forma. Mas, hoje, acho que esse problema já não se coloca.
Existem diferenças, obviamente, entre homens e mulheres. Eu nunca fui feminista, acho que os dois géneros fazem falta e têm os seus papeis. Algumas mulheres continuam a ser muito defensoras do seu género, mas eu acho que cada um tem o seu papel, que é válido. Quer um, quer outro, são precisos. Têm que saber viver os dois e conciliar as coisas. Mas tudo se resume mais a uma questão de competência e apetência para ocupar determinado cargo ou desempenhar um dado papel.

Como concilia a sua vida familiar e profissional?
Tem sido fácil. Tenho a sorte de ter tido o apoio da minha mãe. O meu filho já tem 17 anos e, agora, a ajuda dela já não é tão essencial, em determinados aspectos. Mas, quando ele era mais novo, era ela que me dava essa ajuda preciosa.

Como empresária, qual é o seu maior desafio?
É conseguir manter tudo o que já foi construído. Financeiramente, somos mais que estáveis. Com as pessoas que colaboram connosco e nos ajudam. O meu objectivo passa por crescer de forma sustentada. E, pelo menos, manter o que já foi feito, manter este nível de vendas.

Esta carga fiscal nos combustíveis é prejudicial?
Claramente. Por vezes, queremo-nos equiparar a outros países, ao nível deles, mas não temos as bases tão fortes. Mas eu tenho uma opinião sobre isso: às, vezes não é por parecer que são melhores, mais ricos que nós, que estão realmente melhores. Muitos desses países têm os seus problemas também. Por cá, queremos viver ao nível do que os outros países aparentam, mas, depois, é tudo mais caro aqui. E também temos os rendimentos mais baixos.
Por vezes, as pessoas acham que, quando aumenta o preço dos combustíveis, sou eu que quero ganhar mais. A realidade é que eu vendo os produtos que me mandam, ao preço que me mandam, e tenho que os comprar onde me mandam. Eu só dou a cara pelo negócio.
Em relação ao preço dos combustíveis, era importante as pessoas terem uma informação correcta de como se chega a esse valor final. Para evitar o que acontece às vezes, que as pessoas acham que, quando o preço sobe, eu é que quero ter uma margem de lucro maior.
Mas sempre foi assim: eu lembro-me da altura dos meus pais, que tinham uma casa no sul de Espanha, e, quando víamos os preços dos carros lá e cá era uma diferença enorme. Comprava-se lá um Porsche ao preço que cá se comprava um Passat (risos).

Como é que as empresas de combustíveis estão a olhar para os desafios ambientais?
Relativamente a esse assunto, acho que tem que ser um esforço de todos. Até porque o problema não reside exclusivamente nos combustíveis fósseis. Tem de haver mais civismo, e tudo passa pela educação das pessoas. Vemos por exemplo nas praias, onde muitos deixam o lixo em qualquer lado. Todos nos consciencializarmos que é preciso fazer alguma coisa pelo bem-estar de todos. Há vários países que não aderem a qualquer tipo de iniciativas em termos de redução da sua pegada ecológica. Temos o caso da Índia, por exemplo, onde não há essa preocupação, e até nos Estados Unidos, onde o presidente actual já disse, a dada altura, que nem acreditava no aquecimento global. As normas europeias que vão saindo obrigam as empresas a um esforço, a exigências legais e de aplicação de algumas infra-estruturas que, por vezes, é incomportável para o nível do negócio. Penso que, como tudo, na vida, há que ter ponderação.

A altura da greve dos motoristas foi complicada para a sua empresa?
Foi, bastante. Tivemos que fazer aquilo a que fomos obrigados. Dos postos todos que temos, que são nove, só ficamos com um parado, e apenas ao nível do gasóleo. Depois, tínhamos um posto REPA (Rede de Emergência de Postos de Abastecimento) exclusivo, que foi complicado gerir, com a obrigação de lá ter pessoas 24 horas por dia, quando eu não tinha, habitualmente, o posto a trabalhar nessas condições.
Andei três ou quatro dias a trabalhar 24 horas e a vender um maço de tabaco a partir das 8 da noite. A pagar a um funcionário as horas extra… Nós também fazemos o fornecimento a comboios e, aí sim, foi mais complicado. O mais difícil acabou por ser a gestão das pessoas em si.

Criou-se alarmismo a mais?
Eu acho que sim. Não quero dizer que a comunicação social tenha culpa, mas as pessoas, de certa forma, ficaram demasiadamente alarmadas. Não era preciso vir a correr à bomba de combustível. Mas também ninguém queria ficar sem ele. A realidade é que se todos tivessem posto nos depósitos o que normalmente põem, não haveria nenhum problema. Mas não: enchiam o depósito, jerricans, o carro da mãe e o da vizinha. Não havia esta necessidade. Eu tive clientes que levaram depósitos com 400 litros: no dia seguinte, acabou a greve e eles queriam devolver o combustível (risos). E notou-se, nas semanas seguintes, ao nível da facturação, que existiu uma quebra: todos tinham, obviamente, os depósitos atestados.

Na sua opinião, quais as características-chave para ter sucesso no mundo empresarial?
Eu sigo os valores que me foram transmitidos pelo meu pai: só sei estar nos negócios, e na vida, de uma forma eticamente correcta. O passar por cima de tudo, para chegar primeiro, não funciona comigo. Todos temos que cumprir regras, perceber limites, saber respeitar os parceiros, acompanhar o ritmo do mercado, ser resilientes para ultrapassar as dificuldades e, acima de tudo, mantermo-nos fiéis a nós próprios.

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