Carla Ferreira, enfermeira em saúde mental do departamento de psiquiatria do Hospital de Santarém, tem dinamizado, na comunidade, projectos que visam a inclusão social da pessoa com doença mental. Espaço Trocas e Projecto Incluir são exemplos que permitem trabalhar a inclusão social e combater o estigma.

Porque é que decidiu especializar-se em enfermagem psiquiátrica? Gosto da subjectividade! Algo desafiante, que me atrai, em que um problema não tem de ser problema, se o conseguirmos desmontar e visualizar em determinado prisma, muitas vezes transforma-se em oportunidade. A mesma coisa se passa com a cor preto, não tem de ser sempre preto, se juntarmos branco fica cinzento.

A saúde mental ainda continua a ser o parente pobre do sistema? Esta é uma constatação já com alguns anos. A verdade é que as perturbações do foro psiquiátrico tendem a aumentar, assim como o consumo de psicofármacos, e não se fazem acompanhar dos meios necessários para os trabalhar. Portugal tem a taxa de prevalências de doenças mentais mais elevadas da Europa, e uma grande parte das pessoas com doenças mentais graves continuam a não beneficiar de modelos de intervenção diferenciados, como a reabilitação psicossocial, essencial para a recuperação após uma situação de crise.

Que estratégias se deveriam implementar para contrariar o estigma associado à doença mental? A doença mental acarreta sofrimento na própria pessoa doente e família, é necessário desconstruir e intervir, é necessário aliviar este sofrimento, do “ser diferente”. A informação cientificamente correcta, numa linguagem acessível ao cidadão comum é importante, os técnicos de saúde e a comunicação social têm um papel determinante na difusão da informação, pois compreender a doença mental significa modificar e desconstruir ideologias, crenças e valores, desta forma é possível combater o estigma associado à doença mental. O Projecto Espaço Trocas (Loja Solidária em São Domingos) e o Projecto Incluir (Oficinas de arte), são dois grandes Projectos que para além de trabalhar a inclusão social da pessoa com doença mental na comunidade, ambos são promissores no combate ao estigma da doença mental, e têm provas dadas. No ano de 2017, foi realizado um estudo de investigação, no âmbito do Projecto Incluir, à comunidade de Santarém. Verificou-se que as acções promovidas no projecto (oficinas outdoor, pintura de armários da EDP, exposições de obras de arte em espaços públicos…) contribuíram para a diminuição de atitudes estigmatizantes e maior tolerância da pessoa com doença mental na comunidade.

Para si, o que define um bom profissional de enfermagem? Um bom profissional de Enfermagem consegue pôr em prática o Cuidar do outro, não só ao nível das competências técnicas, mas sobretudo, ao nível das competências relacionais.

Numa frase, o que significa a Enfermagem para si? Não deixa ninguém sozinho. Até aos dias de hoje foi o que mais me marcou…

Que conselhos daria a alguém interessado em seguir esta carreira? O bambu chinês demora cinco anos para começar a brotar, durante este tempo todo o crescimento é subterrâneo e invisível a olho nu. A carreira de Enfermagem é um pouco assim, é preciso persistência e paciência para se conseguir as mudanças esperadas, para não desistirmos perante as dificuldades que surgem. A carreira está em processo de mudança.

Viagem? Adoro viajar.

Música imprescindível? A música produzida pelo movimento de dedos do meu filho nas teclas do piano, são especiais.

Quais os seus hobbies preferidos? Estar em família, ler e caminhadas na natureza.

Se pudesse alterar um facto da história qual escolheria? Provavelmente, não alteraria nada. Nem da minha própria história e nem da colectiva.

Se um dia tivesse de entrar num filme que género preferiria? De certeza uma comédia, adoro sentido de humor.

O que mais aprecia nas pessoas? Humildade e simplicidade.

O que mais detesta nelas? Mentira.

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