Santarém – 10 de Junho de 2022 – 17 Horas. Corrida à Portuguesa. Cavaleiros: Luís Rouxinol, João Ribeiro Telles e Francisco Palha; Forcados: Amadores de Santarém e de Montemor; Ganadaria: Palha (505, 510, 520, 530, 520 e 540 kgs.); Director de Corrida: Manuel Gama; Médico Veterinário: Dr. José Luís Cruz; Tempo: Quente; Entrada de Público: ½ casa forte.

Lembramo-nos da lotação esgotada na corrida “Despertar” da Rádio Renascença, realizada em 10 de Junho de 1987, quando Luís Rouxinol tomou a sua alternativa, tendo como padrinho João Moura e como “testigos” Joaquim Bastinhas e Rui Salvador. Já lá vão trinta e cinco anos e tanta coisa mudou… umas para melhor, mas muitas outras para pior. Não devemos cair na tentação de comparar aquilo que, em bom rigor, não tem comparação, posto que devemos sempre atender às circunstâncias de contexto.

 Esta data tão emblemática para a Monumental “Celestino Graça” coincidiu este ano na pior conjuntura possível – a uma sexta-feira, dia de feriado nacional, com a segunda-feira seguinte, dia 13 de Junho, feriado municipal de Lisboa e em vésperas do Dia de Corpo de Deus, que se celebra na quinta-feira. Isto é com uns diazinhos de férias poderia gozar-se um belo período balnear, o que é tão mais apetecível quanto é certo que as elevadas temperaturas que se sentiram nestes dias foram uma tentação quase irresistível. Os espectadores, especialmente os dos sectores do Sol, foram uns heróis!

A corrida foi precedida de uma grande expectativa, desde logo por ser comemorativa da alternativa de Luís Rouxinol, uma incontornável figura do toureio equestre, mas também pelo facto de os primos João Ribeiro Telles e Francisco Palha terem umas contas para ajustar depois do recente triunfo de ambos em Alcochete, e ainda porque a ganadaria Palha regressava, trinta e oito anos depois, com uma corrida completa à Monumental “Celestino Graça”.

Que o homem põe e o toiro dispõe é uma frase muito corrente em tauromaquia, e uma vez mais tal se confirmou. Os toiros de Palha estavam razoavelmente apresentados, mas, na generalidade, tinham escassas condições de lide, incomodando cavaleiros e forcados, pois tardavam nas investidas e quando arrancavam era para fazer mal, foram ásperos nas reuniões, investindo de cara levantada, e alguns ganharam facilmente querenças, o que ainda complicou mais o labor de quem teve de os enfrentar.

Trinta e cinco anos após a sua alternativa, Luís Rouxinol continua a apresentar argumentos técnicos para superar todas as dificuldades, pelo que uma vez mais levou a carta a Garcia, porém, nenhum dos seus oponentes lhe permitiu luzir-se com o brilhantismo que costuma pautar as suas actuações. O marialva de Pegões elegeu bem os terrenos mais adequados, citou de frente e aguentou os arreões dos toiros nas investidas a destempo, e quase sempre colocou a ferragem em sortes correctas, mas sem lograr expor-se como tanto gosta no centro de cada sorte. Apesar de tudo Luís Rouxinol ainda teve a sorte de lidar os toiros menos complicados, mas mesmo assim ambos tiveram as suas “teclas”.

João Ribeiro Telles bem pode lamentar-se do lote que lhe coube enfrentar, e também dos percalços com o que escolheu para abrir a sua actuação, o qual se inutilizou nos curros, tendo partido cerce um píton, desembolando-se e, por descuido do pessoal dos curros, ainda entrou na arena, gerando enorme sururu. O processo de recolha do toiro foi demorado e aborrecido. Como é hábito nestas circunstâncias, João Ribeiro Telles lidou o segundo toiro do seu lote. Uma encomenda! O ginete da Torrinha começou por colocar dois valorosos ferros compridos em sortes à tira, e após mudar de montada empenhou-se para sacar o triunfo desejado, no que o toiro não colaborou, dificultando-lhe o labor. Ribeiro Telles desenhou vistosas sortes frontais, a pôr a carne no assador, mas o toiro tardava a investida e reunia com brusquidão, impedindo o melhor desfecho. O quinto toiro da corrida mandou a tradição às malvas – no hay quinto malo! – e ainda saiu pior do que o anterior, enquerençando-se em tábuas, de onde só saía para arrear. João Ribeiro Telles desenhou algumas portentosas sortes a sesgo, despachando dignamente a ferragem da ordem. Este jovem toureiro esteve uns largos furos acima dos seus oponentes, no entanto, não teve forma de alcançar o tão almejado êxito, pelo que não deu volta à arena em nenhum dos toiros que lidou.

Francisco Palha demonstrou uma vez mais a sua elevada potencialidade técnica e artística, bem assim como a fase de moralização que atravessa, o que o leva a superar as maiores dificuldades com que amiúde se vê confrontado. O primeiro toiro do seu lote cumpriu muito satisfatoriamente, embora tivesse as suas dificuldades, que o marialva superou com distinção. Arrojado e valoroso recebeu o toiro em sorte gaiola e cravou os ferros compridos em sortes frontais. Dentro do mesmo estilo, e após haver mudado de montada, Francisco Palha desenhou uma vistosa actuação, bregando como mandam as regras, dando sempre as vantagens ao seu oponente e cravando a ferragem em sortes de um incrível compromisso, destacando-se em dois ferros daqueles que nos ficam na retina e na memória, tamanha é a emoção que transmitem.

O último toiro da corrida não desmereceu, no mau sentido, os irmãos de camada, impedindo Francisco Palha de repetir o êxito da primeira lide. Recebeu-o igualmente em sorte gaiola, tendo colocado os dois ferros compridos em sortes frontais. Mudou de montada e desenhou vistosa brega, porém, o toiro investia muito áspero e tentava sempre alcançar o cavalo, o que ainda conseguiu. O cavaleiro não esmoreceu e continuou a citar o toiro de largo, encurtando distância até obrigá-lo a investir, para em seguida cravar a ferragem em sortes arrimadíssimas, empolgando o público, que não pôde deixar de se assustar com tanta valentia. Embora sem o luzimento da anterior lide, esta também foi muito meritória, posto que o desempenho de um toureiro deve fazer-se sempre em função da matéria prima de que dispôs. Muito bem!

Como se esperava, os Forcados tiveram que se empenhar bastante para solver dignamente este grande desafio, convindo desde logo afirmar que ambos se equipararam em capacidade técnica e em valentia. Foram uns heróis.

Pelos Amadores de Santarém, capitaneados por João Grave, foram solistas António Queiroz e Mello, que consumou uma valorosa pega ao primeiro intento, com o Grupo a ajudar muito correctamente; Francisco Cabaço, que apenas logrou consumar a sua sorte à quarta tentativa, embora tivesse estado quase sempre bem na cara do toiro e demonstrasse uma grande determinação em solver o seu compromisso; o último toiro que coube ao Grupo de Santarém foi pegado por Francisco Graciosa, à segunda tentativa, muito bem executada, depois de ter sido violentamente desfeiteado na primeira. O Grupo de Santarém está a atravessar um bom momento de forma, com muitos novos elementos, a par de outros que, sendo ainda jovens, já têm muita experiência.

Pelos Amadores de Montemor, que se apresentaram pela primeira vez em Santarém às ordens do seu novo Cabo, o escalabitano António Cortes Pena Monteiro, Vasco Carolino consumou pega fácil, ao primeiro intento, com o Grupo muito eficaz nas ajudas; o quarto toiro da corrida foi pegado, à terceira, pelo valente Francisco Borges depois de duas tentativas demolidoras que, inclusivamente, deixou o forcado prostrado no chão, perante a angústia dos espectadores que estavam pendentes de tão delicada situação. Quando todos se preparavam para o conduzir à enfermaria, Francisco Borges ergueu-se e reclamou para si mais uma tentativa, o que foi protestado pelo público, face à debilidade do valoroso forcado percepcionada por todos nós, mas, com alma até Almeida, como sói dizer-se, Francisco Borges perfilou-se em cite mais curto, com ajuda mais carregada, e consumou com muita galhardia esta sorte, suscitando aquela que talvez tenha sido a mais calorosa ovação da Feira; o último toiro da corrida foi destinado à sorte de cernelha, a cargo do Cabo António Pena Monteiro e do rabejador Francisco Godinho, que à segunda entrada consumaram vistosa pega.

Boa intervenção das quadrilhas e da campinagem, e direcção correcta, embora um pouco atribulada, de Manuel Gama. A corrida decorreu com pouco ritmo, foi muito longa e tornou-se incómoda, pelas nuvens de poeira no ar, pela excessiva movimentação de pessoas nas bancadas durante as lides, ao que parece, para irem ao bar, incomodando tudo e todos. Que é feito dos vendedores de bebidas e de queijadas de Sintra? Ao menos estes vendiam durante os tempos mortos das lides e evitavam tanto transtorno…

Enfim, a Feira Taurina de Santarém saldou-se um ano mais por um grande sucesso, embora haja aspectos em que a organização deve melhorar.

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